Inovação na saúde em tempos de Coronavírus

Claudio Terra

Por Claudio Terra

17 de junho de 2020 às 15:34 - Atualizado há 4 meses

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O setor de saúde, na linha de frente da batalha contra o novo coronavirus, tornou-se, da noite para o dia, um campo de intensa atividade para mobilizar recursos de toda ordem para prover, em escala sem precedente, assistência adequada aos profissionais de saúde e aos pacientes, principalmente àqueles mais graves. Além disso, são extraordinários também os desenvolvimentos e resultados em pesquisa e inovação em tão pouco tempo.

A ciência, no atual contexto, tornou-se a grande esperança da humanidade para uma saída menos dolorosa desta pandemia. As inovações esperadas a partir do conhecimento científico estão evoluindo muito rapidamente. O direcionamento de esforços em escala mundial de cientistas em busca de soluções para diagnósticos, prevenção e tratamento são de enorme magnitude e, de certa maneira, interligados mundialmente. A maior expectativa é com relação às vacinas. Dados da OMS relatam mais de 100 vacinas em desenvolvimento no mundo, sendo cerca de uma dezena já em testes clínicos.

O Einstein faz parte deste esforço científico mundial. Seguimos com agilidade e intensidade por meio de várias frentes de pesquisas científicas, seguindo padrões internacionais de produção de conhecimento científico na área da saúde, que combinam rigor metodológico, analítico e ético. Já a inovação, tanto aquela de base científica e tecnológica, como aquela que depende mais de uma boa dose de habilidade e criatividade para solucionar problemas e do espírito empreendedor também tem demonstrado enorme importância no atual contexto.

Neste artigo selecionamos alguns exemplos de inovações que, a nosso ver, demonstram como, em um espaço de tempo tão curto, inovadores e empreendedores, podem impactar, de maneira significativa, a vida de tanta gente no país. Inovação, particularmente em saúde, se beneficia imensamente da base de conhecimento científico acumulado, mas também depende em vários casos, sobretudo, da capacidade de foco em um problema prático específico, capacidade de mobilizar recursos e desenvolver soluções que possam ser efetivamente adotadas, de preferência em larga escala.

Sem descartar o enorme papel das grandes empresas e grandes instituições públicas e privadas, destacamos aqui, as contribuições advindas de empreendedores, startups e pequenas empresas de base tecnológica. Este grupo tem um papel bastante relevante no contexto da inovação em saúde. No caso desta pandemia, no qual a variável tempo é fundamental, este papel se sobressai ainda mais. Em geral estas empresas são mais ágeis, conseguem trabalhar com menos recursos e testam suas soluções no mercado com mais audácia.

No contexto desta pandemia há inúmeras iniciativas de inovação bastante interessantes acontecendo no país. Destacamos, a seguir, algumas das quais temos observado ou participado direta ou indiretamente e que julgamos serem significativas, agrupadas em cinco grandes temas:

Tema 1: EPIs – ação solidária e inovadora

É interessante destacar o comportamento solidário e inovador da sociedade em meio ao atual cenário. São inúmeros os relatos de indivíduos que vem produzindo máscaras, aventais e face shields em suas casas para doação a profissionais de saúde e pessoas vulneráveis. Há também aqueles que desenvolveram aplicativos digitais para facilitar tracking de infectados ou para organizar grandes iniciativas de distribuição de itens de primeira necessidade a populações carentes. Nesta perspectiva individual também vale citar muitas pessoas que de forma isolada ou em grupos de profissionais técnicos estão desenvolvendo tecnologias de baixo custo open source para produção de equipamentos de ventilação mecânica, um dos itens mais críticos para o tratamento de pacientes infectados em estado grave

Também há muitos esforços institucionais e corporativos. O Einstein, por exemplo, em parceria com a Renner lançou alguns desafios relacionados a aventais e a máscaras, incentivando a conexão entre oferta e demanda e a busca por inovações. Outros detalhes podem ser vistos aqui Já com a Vale, tivemos a oportunidade de contribuir para um grande desafio que avaliou e premiou soluções inovadoras de todo o país. Foram quase 2.000 inscrições de inovadores, pesquisadores, universidades e startups. As soluções selecionadas, várias das quais de EPIs se encontram neste site.

Tema 2: Proteção do Ambiente Hospitalar

Os EPIs, como o próprio nome diz, se referem à proteção individual e dependem também do comportamento individual cuidadoso e o uso adequado de equipamentos de qualidade. Por outro lado, os próprios ambientes hospitalares podem se tornar ambientes mais seguros a partir de uma série de medidas de organização e separação de fluxos dos pacientes com coronavirus e os demais pacientes que continuam necessitando de estrutura hospitalar para seu cuidado. Associado a este objetivo, a tecnologia e a inovação também podem contribuir de maneira significativa. Destacamos dois casos de desenvolvimento nacional que já foram incorporados ao Einstein.

A ENEBRAS era, até recentemente, uma pequena empresa bem conceituada, que implementava projetos de ar-condicionado em várias empresas e, em particular, no setor de saúde. No contexto da crise da COVID-19, ela foi chamada pelo Einstein a desenvolver um equipamento que permitisse a rápida criação de pressão negativa em leitos já em operação. A pressão negativa diminui bastante o risco de infecção dos profissionais de saúde. Em cerca de dois meses, mais de 200 destes equipamentos foram instalados apenas no principal hospital do Einstein, além de dezenas destes em outras unidades em hospitais públicos administrados pela instituição.

Um dos sintomas mais comuns relacionados aos pacientes com coronavirus é a febre. Para proteger ainda mais as pessoas que circulam pelo hospital, o Einstein apoiou e validou o desenvolvimento de uma tecnologia nacional para medição extremamente precisa da febre à distância a partir da combinação do uso de tecnologias de reconhecimento facial, captura de imagens termográficas e inteligência artificial. Esta resultou em totens já instalados nas principais entradas de pacientes e funcionários do hospital, com triagem em tempo real e alto fluxo de pessoas. A tecnologia foi batizada de Fevver e desenvolvida em parceria entre duas startups (Hoobox e Radsquare, ambas incubadas na Eretz.bio, incubadora do Einstein).

Tema 3: Tele-saúde

São inúmeras as vertentes e serviços de atendimento virtual à distância. Várias destas iniciativas já existiam ou estavam em fase final de desenvolvimento. A pandemia transformou este tipo de serviço em uma necessidade absoluta e o que se tem observado é um crescimento exponencial em suas várias vertentes.

Além da telemedicina propriamente dita já bastante discutida e com crescimento exponencial neste momento, temos a tele-psicologia, a tele-nutrição, a tele-fonoaudiologia e também plataformas virtuais de apoio a pacientes oncológicos e diabéticos, por exemplo. De maneira mais abrangente ainda, as soluções digitais para triagem online, inteligência artificial para análise de imagens radiológicas, ferramentas de monitoramento de pacientes infectados e em reabilitação, softwares de gestão hospitalar, entre outras, contribuem intensamente para o enfrentamento desta pandemia.

O Einstein tem liderado várias destas iniciativas de saúde digital no país, provendo diretamente estes serviços ou apoiando iniciativas governamentais e de startups com soluções tecnológicas relevantes.  No site da Eretz, incubadora de saúde do Einstein, podem ser encontradas várias destas startups com soluções especificamente desenvolvidas ou adaptadas para apoiar a população, pacientes, clínicas e hospitais no contexto de COVID-19. 

Tema 4: Testes Diagnósticos

Os métodos diagnósticos precisam ser validados de maneira muito cuidadosa e espera-se que tenham alto grau de especificidade e sensibilidade, ou seja, que apresentem números muito baixos ou praticamente nulos de falsos positivos e falsos negativos. Além disso, eles precisam se produzidos em grande escala e a custos acessíveis para indivíduos, empresas ou ainda para os vários níveis da esfera pública.

De fato, a frente de testes diagnósticos é uma das grandes frentes de batalha nesta pandemia. É preciso rapidamente diagnosticar os infectados e ao mesmo ser capaz de entender como o vírus tem se espalhado pela sociedade. Informação é fundamental para definição de tratamento adequado e rápido dos pacientes, e também para a definição de vários níveis de políticas públicas.

Felizmente para o país, não apenas as grandes empresas e instituições de pesquisa têm se destacado, mas também algumas startups têm desenvolvido soluções nesta área. Podemos citar (i) o Varstation, que opera dentro do Einstein como uma spinoff, e que teve papel de liderança fundamental no desenvolvimento de um novo teste de testagem em massa baseado na tecnologia NGS; (ii) a Neoprospecta que desenvolveu uma plataforma tecnológica altamente inovadora de testagem em massa utilizando pool de amostras e RT-PCR; (iii) A Eco Diagnóstica, que desenvolveu testes diagnósticos point of care.

Tema 5: Difusão Digital de Conhecimento e Procedimentos

As fake news se proliferam, infelizmente, a partir da ação deliberada tanto de indivíduos mal intencionados, como daqueles que não compreendem ciência, principalmente na área da saúde. Ademais são também aceleradas pelo desespero humano em busca de soluções rápidas e milagrosas. Contrapondo-se a este fenômeno, felizmente, há inúmeras ações também se propagando no meio digital.

O conhecimento é um bem precioso e, particularmente neste momento, precisa ser compartilhado em larga escala e com velocidade e curadoria cuidadosa. Neste contexto o Einstein vem desenvolvendo várias iniciativas cobrindo tanto a área assistencial, como a científica, com vários blogs, vídeos e cursos online abertos e totalmente gratuitos para profissionais de saúde, além do desenvolvimento de duas plataformas também gratuitas para que profissionais de saúde possam se manter atualizados sobre a COVID-19: o Covidlog e o App UTI-COVID, especificamente para profissionais de UTI.

No contexto do desenvolvimento destas inovações é muito interessante observar o trabalho intenso de médicos, enfermeiros e várias categorias de profissionais de saúde, além de designers, engenheiros e cientistas da computação, desenvolvendo de forma colaborativa, soluções efetivas em muito pouco tempo e já fazendo diferença na vida das pessoas.

É notório que várias das lideranças destes projetos de inovação combinam forte sentido de propósito com grande viés para resolução de problemas práticos e para a ação. Além disso, estes líderes da frente de batalha da COVID-19 sabem que a empatia, a solidariedade e a humanidade são fatores importantíssimos. E isto os motiva e motiva suas equipes a trabalharem de forma incansável na busca de soluções que tragam resultados tangíveis no menor tempo possível.

Quem trabalha com inovação e empreendedorismo é por definição um otimista realista por natureza. No meio de um desafio tão grande enfrentado pelo mundo, a inovação oferece à sociedade caminhos mais esperançosos e um pouco menos dolorosos para que consigamos atravessar esta tempestade. É evidente, por sua vez, a emergência e aceleração dramática de vários novos métodos, tecnologias e modelos de serviço e de negócio na área da saúde. Muitos destes devem florescer durante e também depois do fim desta pandemia.