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72% dos brasileiros estão no modo sobrevivência no trabalho, diz pesquisa.

Um estudo revela que sete em cada dez trabalhadores brasileiros operam em estado de alerta permanente. E pior: a maioria não percebe mais esse comportamento como anormal.

72% dos brasileiros estão no modo sobrevivência no trabalho, diz pesquisa.

Estamos pagando o custo oculto de uma cultura que confundiu urgência com competência

Bruno Lois

, Editor

10 min

4 jun 2026

Atualizado: 4 jun 2026

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Às nove da manhã, a reunião começa. Todo mundo está presente. A câmera acesa, o caderno aberto, as respostas chegando na hora certa. O que não aparece na tela é o que está acontecendo por baixo: o córtex pré-frontal operando em modo de contenção, o sono da noite anterior fragmentado, a mente que saiu do trabalho ontem à noite mas nunca saiu do estado de vigilância.

Um estudo inédito realizado pela healthtech de saúde mental Starbem revelou que 72% da população trabalha hoje no chamado "modo de sobrevivência" — os níveis mais altos (4 e 5) de uma escala de tensão aguda. O levantamento acompanhou 1.868 participantes ao longo de seis meses. São trabalhadores que chegam, entregam, respondem — e estão, clinicamente, num estado que o sistema nervoso reserva para emergências.

A emergência virou rotina. E esse é o problema.

O que acontece com o cérebro que não descansa

O esgotamento deixou de ser uma condição passageira e se transformou em uma resposta biológica de luta ou fuga, afetando diretamente o córtex pré-frontal — região do cérebro responsável pelo raciocínio estratégico, planejamento e empatia.

Traduzindo para o vocabulário de qualquer gestor: as funções que mais importam numa liderança — decidir sob pressão, ler pessoas, pensar a longo prazo, criar — são exatamente as que um cérebro em modo de sobrevivência entrega por último. O que sobra é reatividade. Execução mecânica. Resposta ao que está pegando fogo agora.

A ansiedade crônica chega a triplicar o tempo necessário para a execução de tarefas simples devido ao fenômeno da névoa mental. Em outras palavras, o modelo atual de cobrança das empresas tem destruído a própria eficiência do negócio.

Triplicar. Não aumentar em 20%, não criar algum atrito. Triplicar. A empresa que exige mais de um time esgotado não está acelerando — está pagando três vezes mais caro pela metade do resultado.

O sono que o Brasil perdeu

O colapso não começa na segunda-feira de manhã. Começa na noite de domingo.

58% dos entrevistados relatam dormir mal ou péssimo, enquanto apenas 13% classificam seu sono como bom ou excelente. Os especialistas envolvidos sugerem que, para cada ponto a mais no índice de tensão, a qualidade do sono despenca 40%. A média nacional de incapacidade de controlar preocupações atingiu 3,82 em uma escala de 5.

Um número como esse só faz sentido quando traduzido em experiência: é a pessoa que acorda às três da manhã pensando no e-mail que ainda não respondeu. É o profissional que usa o fim de semana para "adiantar coisas" e chega na segunda com menos energia do que saiu na sexta. É o executivo que foi ao show do filho mas não estava lá — estava em algum lugar entre a planilha de ontem e a reunião de amanhã.

Como aponta a psicóloga Ticiana Paiva, head de psicologia da Starbem: “Descansar deixou de significar recuperação. Muitas pessoas saem do trabalho, mas não saem do estado de vigilância. Nas famílias, isso gera um fenômeno silencioso: a presença física sem presença emocional.”

Presença física sem presença emocional. É um diagnóstico clínico que descreve com precisão cirúrgica algo que muitas famílias brasileiras vivem sem ter nome para isso.

O presenteísmo que ninguém contabiliza

O maior ralo financeiro e operacional para as empresas hoje não é a ausência causada pelas faltas dos funcionários, mas o presenteísmo. São profissionais que comparecem ao trabalho todos os dias, mas operam muito abaixo de sua capacidade real.

O absenteísmo aparece no relatório de RH. O presenteísmo não. Ele aparece na qualidade da decisão que foi tomada numa tarde de quinta-feira por alguém que dormiu mal cinco noites seguidas. Aparece no projeto que ficou pela metade porque a equipe estava com energia suficiente para entregar, mas não para questionar. Aparece na reunião que chegou ao consenso errado porque ninguém tinha fôlego para discordar.

As empresas estão medindo presença e chamando de performance. São coisas diferentes.

A cultura que normalizou o alerta

A análise indica que a crise superou os resquícios da pandemia, consolidando-se como um traço cultural estrutural. "Mais do que um problema clínico individual, o que emerge é uma cultura do alerta permanente. A lógica da hiperconectividade, da disponibilidade constante e da alta performance contínua parece ter transformado a ansiedade em modo padrão de operação", aponta a psicóloga.

Aqui está o nó mais difícil de desfazer: quando um estado patológico se normaliza, ele para de ser percebido como problema. O trabalhador que opera em tensão nível 4 ou 5 não chega ao RH pedindo ajuda — ele acha que está bem, só um pouco cansado, como todo mundo. A régua de comparação é um coletivo igualmente esgotado.

"O dado mais preocupante do estudo talvez não seja que 72% dos brasileiros estejam em 'modo de sobrevivência', mas que muitos já não percebam isso como um problema. O estado de alerta, que biologicamente deveria ser acionado apenas em emergências, tornou-se o modo padrão de funcionamento", explica Ticiana Paiva.

Isso tem uma implicação direta para quem lidera: o time não vai reclamar. Vai entregar menos, errar mais, criar menos, e eventualmente adoecer ou sair — mas não vai levantar a mão numa reunião de one-on-one e dizer "estou operando com o sistema nervoso em modo de emergência". Não porque esteja escondendo. Porque não percebe mais.

O que os dados dizem sobre a saída

A boa notícia existe, e é mais rápida do que a maioria esperaria.

Após o período de acompanhamento clínico, o nível de foco dos participantes saltou 105% — subindo de 2,1 para 4,3 pontos —, enquanto a motivação disparou 173%, saltando de 30% para 82%. O relatório conclui que o primeiro passo para reverter a crise não é o treinamento de eficiência, mas restabelecer a capacidade biológica de recuperação do indivíduo.

Não é um programa de mindfulness de sexta-feira. Não é uma palestra sobre equilíbrio. É uma intervenção que parte de uma premissa diferente: antes de ensinar produtividade, é preciso restaurar a capacidade biológica de funcionar.

"Para as empresas, o primeiro passo é abandonar a ideia de que saúde mental é apenas uma ação de bem-estar. Os dados mostram que ela é uma estratégia de desempenho. O cérebro humano foi feito para enfrentar emergências. O problema é que transformamos a emergência em estilo de vida", conclui a especialista.

Saúde mental como estratégia de desempenho. É uma frase que deveria entrar em toda discussão de planejamento estratégico e todo o RH — não porque é gentil com os funcionários, mas porque os números do estudo mostram que ignorar isso tem um custo mensurável, direto, que aparece na entrega, na qualidade das decisões e na capacidade de inovar.

O Brasil está trabalhando muito. A questão é se está trabalhando de verdade.

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Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.

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