A estatal enfrenta um ciclo de resultados negativos, mas a raiz dos problemas vai além do caixa, passando por modelo de negócios, eficiência operacional e capacidade de adaptação ao mercado.
Uma análise de como os Correios chegaram na situação atual
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7 min
•
19 fev 2026
•
Atualizado: 19 fev 2026
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Os Correios, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), atravessam uma das fases mais delicadas de sua história recente. Um documento interno aponta que a estatal entrou em um “ciclo vicioso de prejuízos”, em que a queda de receita e a deterioração da operação se reforçam mutuamente, comprometendo sua sustentabilidade financeira.
Mas como uma empresa que já foi lucrativa e que ocupa um papel estratégico em todos os municípios do país chegou a uma crise bilionária? A resposta exige olhar para três dimensões: modelo de negócios, competitividade e gestão operacional.
Historicamente, os Correios concentravam boa parte de suas receitas no fluxo tradicional de serviços postais — cartas, malotes e, com o crescimento do e-commerce, encomendas. Porém, nos últimos anos, variações nas dinâmicas de mercado reduziram a relevância de suas principais fontes de receita.
Alguns fatores estruturais contribuíram para isso:
Declínio nas correspondências tradicionais, um segmento que já perdeu relevância diante da digitalização.
Concorrência privada em logística e entregas, que reage com maior agilidade e foco em custos ajustados ao varejo digital.
Mudanças regulatórias, como a chamada “taxa das blusinhas”, que alterou incentivos e afetou volumes de pacotes internacionais, antes uma fatia importante da movimentação.
A combinação desses fatores alterou a base de receita da estatal, reduzindo o caixa disponível para manter operações amplas e tradicionais.
Especialistas apontam que o problema não é apenas a falta de receitas, mas também a ineficiência da máquina operacional.
Mesmo com o monopólio — ainda que parcial — em diversas regiões, os Correios acumulam prejuízos consecutivos há anos, inclusive no período em que outros players privados prosperavam.
A estatal enfrentou problemas como:
Custos elevados com pessoal e encargos, que impactaram a competitividade.
Despesas judiciais e precatórios crescentes, pressionando ainda mais o caixa.
Custos fixos altos e estrutura ampla, que não foi redesenhada de forma eficiente para novos tempos.
Este cenário mostra que o desafio é mais de gestão do que de mera disponibilidade de receita — refletindo a necessidade de uma revisão profunda do modelo operacional.
O documento interno dos Correios destaca justamente esse ciclo vicioso: queda de qualidade operacional reduz receita, que por sua vez limita investimentos e piora ainda mais a operação.
Resultado: em 2025, a estatal acumula prejuízos significativos e projeta um déficit ainda maior para 2026. A necessidade de empréstimos bilionários (como o pacote de crédito em negociação) demonstra a pressão de liquidez que a empresa enfrenta.
Em resposta, os Correios apresentaram um plano de reestruturação em três fases, que combina:
Captação de recursos imediatos, para estabilizar o caixa;
Cortes e ajustes estruturais, incluindo demissões voluntárias e revisão de despesas;
Mudança no modelo de negócios, com foco em diversificação de receitas e redução de custos fixos.
Esse plano é uma tentativa de equilibrar as contas, mas não resolve sozinho o problema central: a necessidade de um modelo competitivo e adaptado às transformações do mercado logístico e digital.
A crise nos Correios ilustra algo que vai além dos números:
Empresas públicas e privadas precisam alinhar gestão e modelo de negócios à realidade de mercado — e isso inclui:
Capacidade de inovar nos serviços, explorando novas áreas que não dependam apenas de volumes tradicionais;
Eficiência no uso de recursos humanos e tecnológicos, evitando estruturas que se tornam ineficientes no longo prazo;
Gestão baseada em métricas de desempenho claras, com foco em resultados e geração de valor sustentável.
Os Correios não enfrentam apenas um problema de caixa. Eles estão no meio de uma reconfiguração profunda de mercado, em que velhas fontes de receita se esgotam e modelos tradicionais de operação se tornam incapazes de competir. Para sair desse ciclo vicioso, a estatal precisa — de forma urgente — combinar gestão eficiente, revisão estratégica do modelo de negócios e adaptação operacional.
A crise dos Correios é um estudo de caso sobre como empresas que foram centrais em um modelo econômico podem sucumbir quando não conseguem se adaptar rapidamente às mudanças estruturais do mercado.
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Bruno Lois
redator(a) da Startse
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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