Organizações dizem que valorizam divergência. Até alguém realmente divergir.
Em prol da "cultura", empresas preferem que você faça tudo quietinho. Qualquer discordância vira um alvo nas suas costas.
, redator(a) da StartSe
6 min
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18 fev 2026
•
Atualizado: 18 fev 2026
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Toda empresa afirma que busca “pessoas que desafiam o status quo”.
Mas quase nenhuma está preparada para o desconforto que isso causa.
A narrativa corporativa adora palavras como “inovação”, “pensamento crítico”, “visão disruptiva”. Na prática, o que muitas organizações recompensam é alinhamento silencioso.
A divergência só é bem-vinda enquanto é decorativa.
Quando ela ameaça a decisão dominante, vira problema.
O profissional que questiona passa a ser visto como “difícil”.
Quem alerta sobre riscos vira “negativo”.
Quem insiste em dados contrários é taxado de “pouco alinhado”.
E, aos poucos, a empresa vai eliminando o que mais precisa: tensão intelectual.
Existe uma obsessão silenciosa nas empresas por um “perfil ideal”.
Um tipo de profissional que se encaixa, que conversa fácil, que gera pouco atrito.
O problema é que, quando todos compartilham a mesma lógica mental, o grupo perde capacidade de detectar seus próprios erros.
Organizações complexas enfrentam cenários ambíguos, mercados instáveis e decisões irreversíveis.
Resolver isso com pessoas que pensam igual é como tentar navegar uma tempestade com uma única bússola.
Times ficam mais inteligentes quando existe diferença com função.
Não é diversidade cosmética.
É diversidade cognitiva real.
São pessoas capazes de dizer:
“Estamos ignorando algo.”
“Essa premissa está frágil.”
“Isso pode dar errado.”
E continuar ali depois de falar.
Empresas que punem a discordância criam um fenômeno perigoso: a autocensura estratégica.
As pessoas começam a medir palavras.
A suavizar alertas.
A deixar passar riscos.
O grupo vira um coral harmonioso.
Mas decisões continuam sendo tomadas com falhas estruturais.
Histórias corporativas estão cheias de exemplos em que ninguém levantou a mão para dizer “isso é um erro” — não por incompetência, mas por medo.
Medo de desagradar.
Medo de prejudicar a própria carreira.
Medo de ser visto como desalinhado.
E quando ninguém pode discordar sem custo, o problema não é falta de consenso.
É excesso de conformidade.
Toda organização precisa de alguém que cumpra uma função vital: corrigir o erro coletivo.
Não o profissional que é do contra por ego.
Mas aquele que identifica vieses, questiona suposições e amplia o campo de visão.
Em mercados complexos, a capacidade de detectar riscos antes que eles se materializem é vantagem competitiva.
Mas isso só acontece quando o ambiente permite confronto produtivo.
Se o incentivo implícito é “não criar fricção”, você vai contratar pessoas excelentes em convivência — e medianas em tensão estratégica.
E tensão estratégica é o que evita decisões catastróficas.
Faça uma pergunta honesta:
Alguém pode dizer “isso vai dar errado” sem virar um problema interno?
Se a resposta for não, sua empresa não tem alinhamento.
Tem medo.
Empresas maduras entendem que discordância não é ameaça à cultura — é mecanismo de proteção.
Elas criam estruturas formais para debate.
Estimulam pontos de vista divergentes.
Protegem quem aponta riscos com base sólida.
Porque sabem que decisões sem confronto são decisões frágeis.
A nova liderança não é a que busca harmonia superficial.
É a que sustenta conversas difíceis.
Que protege a diversidade de pensamento.
Que entende que conflito bem conduzido gera clareza.
A pergunta que define a maturidade da sua organização é simples:
Quem aí é pago para discordar — e continua sendo valorizado por isso?
Se ninguém tem esse papel, talvez sua empresa não esteja buscando excelência.
Esteja apenas buscando conforto.
E conforto raramente constrói o futuro.
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Bruno Lois
redator(a) da Startse
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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