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Quando abandonar um mercado é estratégia: a lição da Nestlé sobre foco

A gigante suíça está deixando o segmento de sorvetes globalmente. Não por falência, mas por clareza: em tempos de pressão, concentrar recursos nas operações que realmente geram valor é a única forma de vencer.

Quando abandonar um mercado é estratégia: a lição da Nestlé sobre foco

Últimas unidades no mercado. Nestlé deixará de produzir sorvetes.

Bruno Lois

, redator(a) da StartSe

6 min

23 fev 2026

Atualizado: 23 fev 2026

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A Nestlé está abandonando sorvetes. Marcas como La Frutta, Mega e Moça, que habitam a memória afetiva de gerações, serão vendidas até 2027. A decisão faz parte de uma reestruturação global liderada por Philipp Navratil, CEO desde setembro de 2025, que escolheu concentrar os recursos da companhia em quatro pilares estratégicos: café, produtos para pets, nutrição e alimentos.

Não é uma crise de sobrevivência. 

É uma escolha deliberada sobre onde a empresa quer, e sabe que pode, vencer.

Foco não é luxo, é sobrevivência

A reestruturação da Nestlé prevê economia de 3 bilhões de francos suíços até 2027. Parte disso virá da venda dos ativos de sorvetes para a Froneri, joint venture criada em 2016 com o fundo PAI Partners e que já administra marcas como Häagen-Dazs.

Sorvetes não eram um negócio ruim. Mas também não eram o negócio certo para onde a Nestlé quer ir. E essa é a diferença entre empresas que reagem e empresas que redesenham o próprio futuro.

Concentrar em café, pets, nutrição e alimentos significa apostar onde a Nestlé tem liderança clara, capacidade de inovação e margem para crescer. Não é sobre fazer de tudo. É sobre fazer o melhor em poucos lugares — e fazê-lo excepcionalmente bem.

Essa não é uma tendência isolada. Unilever e Keurig Dr Pepper também anunciaram recentemente a separação de divisões menos lucrativas para focar nas operações principais. O mercado está sinalizando: conglomerados gigantes e dispersos perdem para empresas focadas, ágeis e especializadas.

A coragem de soltar o que funcionou no passado

Abandonar sorvetes é simbólico. São produtos com forte presença de marca, enraizamento cultural e distribuição massiva. Mas o passado não garante futuro. E empresas que insistem em manter tudo que um dia deu certo acabam carregando peso morto disfarçado de "legado".

Liderança estratégica hoje é saber o que não fazer. É ter clareza sobre onde seu capital — financeiro, humano, reputacional — gera mais retorno. E ter coragem de desinvestir do que não está mais alinhado, mesmo que ainda funcione.

A Nestlé não está em colapso. Está se redesenhando. E a lição é clara: em tempos de pressão, dispersão mata. Foco salva.

O mercado reagiu positivamente, com ações subindo em Zurique. Analistas, porém, alertam que a confiança de longo prazo dependerá da execução: cumprir as metas de corte de custos e, principalmente, retomar crescimento depois de um dos períodos mais turbulentos da história recente da empresa.

O que isso ensina sobre estratégia corporativa

Empresas crescem apostando em múltiplas frentes. Mas em algum momento, o crescimento exige o oposto: escolher. Dizer não. Soltar o que não é essencial.

A Nestlé está mostrando que grandeza não é estar em todos os mercados. É dominar os mercados certos. Não é ter o maior portfólio. É ter o portfólio mais rentável, mais defensável, mais alinhado com onde o mundo está indo.

E talvez a decisão mais difícil de um líder não seja o que adicionar. Seja o que cortar. Porque abandonar o que funcionou no passado exige algo raro: humildade para reconhecer que o contexto mudou — e coragem para agir antes que a mudança seja imposta.

A Nestlé está fazendo essa aposta. E se der certo, não será lembrada como a empresa que abandonou sorvetes. Será lembrada como a empresa que teve clareza estratégica para se reinventar antes de ser forçada a isso.

Marcas que saem de cena. 

Estratégias que entram no lugar. 

E líderes que entendem que, às vezes, menos é mais — desde que seja o melhor menos possível.

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Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.

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