Enquanto clubes quebram, atrasam salários e sobrevivem de improviso, o Flamengo faz algo raro no Brasil: trata performance como sistema e recompensa pessoas como empresa madura.
Na manhã de ontem, Luiz Eduardo Baptista anunciou bônus a todos os funcionários do Flamengo
, redator(a) da StartSe
7 min
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28 jan 2026
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Atualizado: 28 jan 2026
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Quando o Flamengo anuncia bônus para todos os funcionários, de todos os setores do clube, pelo desempenho de 2025, o futebol vira apenas pano de fundo.
O anúncio foi feito na manhã de ontem, pelo presidente Luiz Eduardo Baptista (foto), após convite do RH a todos para uma "cerimônia misteriosa". O clima, claro, foi de outra conquista, dessa vez fora do campo.
Antes de seguir a leitura, fique tranquilo: este editor também é um torcedor que acompanha futebol. Não do Flamengo. O que importa a partir de agora é muito menos a cor da camiseta e mais a cabeça da gestão.
Você pode torcer para quem quiser, gostar ou não do Flamengo, mas é interessante entender como ele chegou até aqui.
O que está em jogo não é uma vitória em campo, mas um marco simbólico de governança em um setor historicamente associado a má gestão, endividamento crônico e decisões emocionais.
No futebol brasileiro, o "normal" é o oposto: clubes endividados, atrasos salariais recorrentes, “calotes” normalizados, trocas constantes de comando e uma cultura de curto prazo que privilegia o resultado imediato, quase sempre sem base financeira.
É inegável: o Flamengo, hoje, joga outro jogo.
E isso não aconteceu por acaso.
O Flamengo que distribui bônus em 2025 é resultado de uma linha do tempo de quase 15 anos de reconstrução.
2013–2014: o clube estava endividado, com fluxo de caixa pressionado e credibilidade baixa. A prioridade virou sobreviver.
2015 em diante: começa uma agenda dura e impopular de ajuste fiscal, profissionalização da gestão, renegociação de dívidas e controle rigoroso de custos.
Aqui vale um lembrete: um reajuste deste porte exige paciência com os resultados, algo que nem sempre o contexto do futebol permite. De 2013 a 2018, o Flamengo ganhou uma Copa do Brasil (2013) e dois Campeonatos Cariocas (2014 e 2017). Só.
Governança acima de vaidade: o clube passou a tratar o futebol como um ativo dentro de uma organização maior — e não como um cassino de apostas emocionais.
Receita diversificada: direitos de transmissão, patrocínios, licenciamento, matchday, base forte e exploração de marca.
Decisão racional: contratações passaram a respeitar orçamento e retorno esperado, não só pressão de torcida.
O resultado veio depois — dentro de campo e, principalmente, fora dele.
De 2019 a 2025 foram 17 títulos, entre eles duas Libertadores, quatro Brasileiros, Supercopas, Copas do Brasil e outros.
Hoje, o Flamengo é uma das poucas instituições esportivas do Brasil com:
O Flamengo não está sozinho, embora ainda seja exceção.
Alguns clubes começaram a trilhar caminhos mais saudáveis:
Palmeiras, com gestão financeira sólida e investimentos sustentáveis;
Athletico-PR, apesar da queda recente para a série B, soube se reorganizar e voltou à elite, sendo exemplo de disciplina orçamentária e base forte;
Red Bull Bragantino, com lógica empresarial clara, chegou a impressionar com uma sexta colocação no Brasileirão de 2023 e classificação para a Libertadores;
Atlético-MG, em processo de reestruturação com capital estruturado;
Botafogo SAF, com gestão profissional após mudança de modelo (ainda em consolidação e, atualmente, sob muitas dúvidas sobre a capacidade financeira do seu investidor, John Textor)
Mas o ponto é claro: a maioria ainda opera no modo improviso.
O Flamengo já opera no modo empresa.
Distribuir bônus para todos os funcionários não é só generosidade. É estratégia de gente.
Normalmente quando os clubes conquistam título, há uma premiação (o bicho, no jargão do futebol), que normalmente é distribuído entre jogadores, comissão e quem mais se envolve na operação futebol.
O que o Flamengo fez foi algo maior e institucional: abraçou e bonificou todos os funcionários do clube.
Do ponto de vista de RH e psicologia organizacional, o impacto é profundo:
Reforça senso de pertencimento: todos fazem parte do resultado, não só quem aparece.
Cria alinhamento real: desempenho coletivo vira responsabilidade coletiva.
Aumenta engajamento futuro: bônus não remunera apenas o passado — ele condiciona o comportamento do próximo ciclo.
Gera justiça organizacional: quando o sucesso é compartilhado, a confiança na liderança aumenta.
Reduz ruído interno: reconhecimento financeiro é linguagem clara.
Em empresas tradicionais, isso já é conhecido. No futebol brasileiro, é quase revolucionário.
O que o Flamengo mostra serve para qualquer organização:
Performance sustentável não nasce de discurso, nasce de sistema. E sistemas funcionam melhor quando pessoas se sentem parte — e recompensadas por isso.
Bonificar é reconhecer que resultado não é individual, é estrutural. É alinhar incentivo com estratégia. É transformar cultura em prática.
No fim, o Flamengo não está apenas ganhando campeonatos. Está provando que gestão profissional também vence no Brasil, dentro e fora de campo.
E isso, sim, é um título que poucos clubes podem levantar.
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Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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