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O objetivo era inovar. Só que ficou tudo igual.

Quando todo mundo "acerta" a tendência ao mesmo tempo, a tendência deixa de ser vantagem. Vira o mínimo esperado.

O objetivo era inovar. Só que ficou tudo igual.

O rosa predomina como cor de chuteira, no maior evento esportivo do mundo.

Bruno Lois

, Editor

9 min

16 jun 2026

Atualizado: 16 jun 2026

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Nos primeiros jogos do torneio, torcedores começaram a notar algo estranho. Não era a qualidade do futebol, não era o resultado, não era a arbitragem. Era o gramado. Especificamente, o que estava nos pés de quase todo jogador em campo.

Nike, Adidas, Puma, New Balance e até Mizuno lançaram para a temporada coleções com paletas muito semelhantes, apostando em diferentes variações do rosa vibrante para seus modelos mais importantes. Em uma das partidas da primeira rodada, os dez jogadores de linha de uma seleção inteira começaram o jogo com o mesmo tom de rosa nos pés — calçando marcas diferentes. 

A onda rosa é uma aposta conjunta das principais fabricantes de material esportivo, que lançaram coleções especiais para o Mundial com modelos em tons semelhantes, buscando aumentar a visibilidade dos produtos e destacar os atletas em campo.

O resultado foi o oposto do que cada uma planejava.

A lógica interna de cada marca fazia todo sentido

Não é que as empresas foram negligentes. Cada uma chegou à mesma conclusão por caminhos rigorosos e bem fundamentados.

Odinga Nimako, integrante da equipe global de desenvolvimento de chuteiras da Nike, explicou que a escolha foi baseada em pesquisas com jogadores e consumidores, que associam cores vibrantes a confiança e personalidade. “O que ouvimos constantemente dos atletas é que cores chamativas transmitem confiança, especialmente em grandes competições.”

Além do aspecto psicológico, estudos apontaram que o rosa se destaca mais sobre o gramado do que a maioria das outras cores - rose e verde são cores opostas, tornando as chuteiras mais visíveis tanto para quem está no estádio quanto para quem acompanha as partidas pela televisão. O contraste fica ainda mais evidente porque nenhuma das seleções participantes utiliza o rosa como cor predominante em seus uniformes.

Outro fator importante foi a influência das tendências de moda esportiva. Pesquisas de mercado realizadas nos últimos anos apontavam o "Electric Fuchsia" entre as cores de maior potencial para 2026, tanto no universo esportivo quanto no streetwear. 

Com isso, fabricantes diferentes acabaram chegando a conclusões parecidas na hora de definir suas coleções.

Cada marca tinha sua pesquisa. Cada pesquisa apontava na mesma direção. E ninguém parou para fazer a pergunta óbvia: se todos os nossos concorrentes tiverem acesso ao mesmo estudo de mercado que nós, o que nos diferencia?

O paradoxo da inovação convergente

Existe um nome para o que aconteceu nos gramados deste torneio: commodity criativa. É quando os processos de inovação ficam tão sofisticados, tão baseados em dados, tão validados por pesquisa e consultoria de tendência, que perdem a capacidade de produzir diferenciação real.

A ironia é estrutural. Quanto mais uma empresa investe em entender o mercado — contratando as melhores consultorias, aplicando os frameworks mais avançados, ouvindo os consumidores com rigor metodológico — mais ela converge para as mesmas respostas que seus concorrentes, que estão fazendo exatamente a mesma coisa com as mesmas fontes.

Antigamente, marcas líderes como Nike, Adidas e Puma tendiam a adotar designs sóbrios em preto e branco. Mas neste ciclo, os novos lançamentos passaram a apostar em cores ousadas e vibrantes com o objetivo de chamar a atenção. A tentativa de ruptura com o padrão anterior produziu um novo padrão — igualmente homogêneo, igualmente previsível, igualmente incapaz de criar diferenciação no ponto de uso. 

Quem escapou — e por quê

Apesar do domínio da cor, alguns dos principais astros do torneio seguem caminhos diferentes. Lionel Messi utiliza uma chuteira inspirada nas cores da Argentina, enquanto o americano Christian Pulisic entrou em campo com um modelo que faz referência à bandeira dos Estados Unidos. Cristiano Ronaldo recebeu uma edição especial dourada para disputar sua sexta Copa do Mundo.

Outros raros jogadores também fugiram do rosa, mas ele ainda predomina.

O que isso tem a ver com a sua empresa

Seria simples demais reduzir esse caso a uma curiosidade de moda esportiva. O fenômeno das chuteiras rosa é um espelho de algo que acontece em praticamente todos os setores, o tempo todo, com marcas que se veem como inovadoras.

Empresas de tecnologia lançando produtos com as mesmas funcionalidades, no mesmo ciclo, com o mesmo discurso de transformação digital. Fintechs com propostas de valor idênticas disputando o mesmo cliente com os mesmos argumentos. Consultorias vendendo frameworks que todos os concorrentes já vendem também. Startups de saúde, de educação, de logística — cada vertical tem sua versão do gramado rosa.

O mecanismo é sempre o mesmo: acesso às mesmas fontes de inteligência de mercado, pressão por validação antes de lançar, aversão ao risco de ser diferente demais, e a tranquilidade falsa de saber que "a pesquisa diz isso". Quando todo o setor bebe da mesma fonte, a fonte produz o mesmo produto para todo mundo.

O resultado é um mercado onde as empresas competem cada vez mais ferozmente por diferenciação e entregam cada vez mais uniformidade. A disputa fica mais intensa justamente porque o que está sendo disputado ficou mais parecido.

A pergunta que ninguém quer responder

Existe uma pergunta que as lideranças deveriam se fazer regularmente — e que poucos têm coragem de colocar na mesa: quando foi a última vez que minha empresa fez algo que nenhuma pesquisa de mercado recomendaria?

Não é um elogio à irresponsabilidade. É o reconhecimento de que diferenciação genuína frequentemente começa onde o consenso de mercado termina. As inovações que redefiniram setores inteiros — e há exemplos suficientes para encher uma biblioteca — quase sempre contradisseram o que os estudos disponíveis na época apontavam como o caminho seguro.

A ruptura real costuma ser feita por quem não leu o mesmo relatório que todo mundo. Ou por quem leu e decidiu ignorar.

Inovar é relativamente fácil quando ninguém mais está fazendo. O desafio real é inovar quando todo o seu setor está inovando na mesma direção — e ter clareza estratégica suficiente para ir para outro lado com convicção, sem a segurança do consenso como rede de proteção.

Isso não é uma habilidade que se aprende em relatório. É uma capacidade de liderança. E capacidades de liderança se desenvolvem — mas exigem o ambiente certo para isso.


Desenvolver o ponto de vista estratégico que separa líderes que inovam de verdade de líderes que seguem tendências bem pesquisadas é exatamente o que o Executive Program da StartSe foi construído para fazer. Um programa para quem já chegou a um nível de liderança onde as respostas fáceis pararam de funcionar e quer as perguntas certas para o próximo ciclo.

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Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.

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