Queda nas vendas, incentivos em revisão e pivôs estratégicos expõem uma indústria em reavaliação — e mostram que a jornada dos veículos elétricos não é linear, mas complexa e dependente de múltiplos fatores.
Mulher carregando carro elétrico (Foto: zaptec/Unsplash)
, redator(a) da StartSe
8 min
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18 fev 2026
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Atualizado: 18 fev 2026
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O mercado global de veículos elétricos (EVs) entrou em um momento de desaceleração — batizado por analistas de “inverno dos EVs”. Dados recentes mostram que a demanda por carros elétricos movidos a bateria recuou 3% em janeiro de 2026, comparado ao mesmo mês do ano anterior, impulsionada principalmente pela queda nas vendas nos Estados Unidos e na China, dois dos maiores mercados automotivos do mundo.
Nos Estados Unidos, a retração foi acentuada — cerca de 33% de queda nas vendas de EVs — em boa parte atribuída a mudanças nas políticas de subsídios e incentivos fiscais que antes estimulavam a adoção desses veículos. Na China, o maior mercado individual de veículos elétricos, a redução de benefícios fiscais também provocou um declínio de cerca de 20% nas vendas, sugerindo que parte da demanda estava diretamente atrelada às vantagens oferecidas ao consumidor.
Apesar do recuo pontual, é importante contextualizar: globalmente, a adoção de veículos elétricos ainda representa um crescimento estrutural se analisada em períodos mais longos. Dados internacionais mostram que, nos últimos anos, a frota de carros elétricos cresceu rapidamente — passando de cerca de 20 milhões para quase 58 milhões de unidades em 2024, mais do que triplicando em poucos anos.
Essa desaceleração atual, portanto, parece refletir menos um “fim” do mercado e mais uma fase de ajuste em resposta a incentivos, mudança de expectativas e desafios estruturais, como:
Dependência de subsídios e incentivos governamentais — a retirada ou redução de benefícios fiscais em mercados-chave reduz a atratividade imediata dos EVs.
Infraestrutura de recarga ainda incipiente em muitas regiões, especialmente fora dos grandes centros urbanos, que amplia o custo percebido e a “ansiedade de autonomia”.
Pressões econômicas e custos elevados associados à produção e aquisição de veículos elétricos, incluindo baterias e logística.
Esses fatores ajudam a explicar por que, em algumas regiões como os Estados Unidos e partes da Europa, o crescimento das vendas perdeu fôlego — ainda que não cancele o avanço de longo prazo.
Esse “inverno” também provocou respostas variadas dentro da indústria automobilística. Algumas montadoras tradicionais, que vinham apostando pesado em eletrificação total, começaram a revisar estratégias e ampliar portfólios incluindo motores a combustão ou híbridos novamente em alguns modelos, refletindo uma adaptação à demanda real do consumidor e à transição tecnológica mais gradual.
Outras empresas continuam investindo em EVs, mas de forma mais calibrada, ajustando produção, lançamentos e linhas de produto com foco em eficiência de custos e competitividade no longo prazo. A própria Tesla, que por anos foi sinônimo de crescimento ininterrupto em EVs, viu suas vendas caírem em mercados específicos e está reposicionando sua oferta de veículos.
Mesmo com essa desaceleração, a trajetória de eletrificação dos veículos segue sendo uma das tendências estruturais mais relevantes da indústria automotiva global. Estudos de mercado sugerem que, apesar da redução temporária do ritmo de crescimento, a adoção de EVs deve continuar avançando com o tempo, especialmente à medida que tecnologias de baterias se tornam mais eficientes e os custos totais de propriedade (TCO) se igualam aos dos veículos a combustão.
No entanto, a desaceleração atual destaca uma lição importante: a transição para uma mobilidade elétrica sustentável não é automática nem linear. Ela depende de uma série de fatores interligados — políticas públicas, infraestrutura, custo de tecnologia, preferências de consumidores e capacidade da indústria de equilibrar portfólios durante períodos de ajuste.
E é justamente nesse cenário de complexidade e incerteza que entra o papel da governança corporativa e da liderança estratégica.
Empresas que tomam decisões sem considerar mudanças estruturais nos mercados correm o risco de perder vantagem competitiva. O setor automotivo está redefinindo parâmetros de crescimento, risco e inovação — e líderes precisam capacidade de navegar entre regulamentação, demanda de mercado e transição tecnológica de forma mais sofisticada do que simplesmente seguir uma tendência.
Passar de um mindset de certeza para um de adaptação contínua é essencial — e isso também é um tema de conselhos e boards, que precisam avaliar cenários de longo prazo, impacto ESG e sustentabilidade de portfólio em meio a ciclos de transformação profunda.
O chamado “inverno dos veículos elétricos” não marca o fim da mobilidade elétrica. Em vez disso, refere-se a um período de ajuste e recalibração que afeta tanto a demanda quanto a estratégia das empresas e governos.
Para líderes, isso exige uma leitura mais rica de contexto e capacidade de tomar decisões — nem apenas alinhadas a projeções otimistas de crescimento, nem completamente reativas às mudanças imediatas.
A transição automotiva é, antes de tudo, um processo de aprendizado e adaptação contínua, em que cada ciclo de crescimento pode ser seguido por uma fase de maturação e ajustes táticos.
E os líderes mais preparados serão aqueles capazes de interpretar as complexidades dessa evolução — não como um obstáculo, mas como oportunidade estruturada de inovação e decisão estratégica. Conectar esse tipo de insight ao seu negócio, seja ele do mercado automotivo ou não, é a grande riqueza do Executive Program, um verdadeiro ponto de “reforma da liderança”. Se você quer conhecer mais sobre a estrutura do Executive, acesse aqui.
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Bruno Lois
redator(a) da Startse
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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