A 29ª CEO Survey da PwC mostra líderes brasileiros menos confiantes no crescimento de curto prazo — e, ainda assim, mais dispostos a mudar o próprio modelo de negócio do que em anos anteriores
Apesar da queda de confiança registrada pela PwC, empresas brasileiras que já competem fora do setor tradicional apresentam margens mais altas e líderes mais confiantes que a média.
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9 min
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21 jul 2026
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Atualizado: 21 jul 2026
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Confiança em baixa normalmente empurra liderança para o modo defensivo: cortar custo, proteger caixa, esperar o cenário clarear antes de qualquer movimento maior. A 29ª CEO Survey da PwC, que ouviu mais de 4.400 executivos em 95 países, incluindo o Brasil, mostra um comportamento diferente do esperado: a confiança dos CEOs brasileiros no crescimento da receita nos próximos 12 meses caiu de 50% para 38% — uma queda expressiva — mas isso não os tornou mais conservadores na forma de competir. Mais da metade já leva a própria empresa a disputar espaço fora do setor tradicional em que sempre operou.
Esse comportamento aparentemente contraditório — menos confiança, mais disposição para reinvenção estrutural — é o dado mais estratégico do levantamento deste ano, porque descreve como lideranças de verdade decidem sob incerteza, em vez de simplesmente esperar por clareza que talvez nunca chegue.
Segundo Marco Castro, CEO da PwC Brasil, a queda de confiança está diretamente ligada a uma acumulação de incerteza — questões geopolíticas, dificuldades locais, conflitos globais e uma realocação de cadeia de produção que ainda não se estabilizou. No Brasil, a instabilidade macroeconômica voltou ao topo das preocupações, citada por 38% dos CEOs como maior ameaça, acima da média global de 31%. Disrupção tecnológica, inflação, falta de talento qualificado e risco cibernético completam a lista de fatores que mais pesam na cabeça de quem lidera hoje.
O impacto direto dessa incerteza aparece em outro dado do levantamento: 28% dos CEOs brasileiros — e 32% globalmente — dizem estar menos inclinados a realizar novos investimentos importantes por causa da incerteza geopolítica. É um sinal claro de cautela ampliada, coerente com a queda de confiança relatada.
O que chama atenção é que essa cautela não impediu um movimento estrutural relevante: 51% dos CEOs brasileiros afirmam que suas empresas passaram a competir em setores fora do tradicional nos últimos cinco anos — um percentual maior do que a média global. E os dados da própria pesquisa mostram que essa estratégia tem retorno mensurável: empresas com maior participação de receita vinda de novos setores tendem a registrar margens mais altas e líderes mais confiantes do que a média do próprio levantamento.
Segundo Castro, essa movimentação reflete a percepção de que barreiras entre setores tradicionais estão sendo eliminadas, e que olhar apenas para o próprio setor isoladamente já não faz sentido estratégico — o exemplo citado é o agronegócio, que hoje envolve diretamente energia, logística e clima, exigindo leitura de ciclo completo, não apenas do núcleo histórico do negócio.
A lição prática aqui não é que incerteza deva ser ignorada, e sim que ela não deveria ser tratada como justificativa automática para paralisia. O próprio levantamento da PwC, em edições anteriores, já havia identificado que empresas dispostas a realizar grandes investimentos e aquisições relevantes mesmo em ambiente incerto crescem mais rápido e registram margens superiores às que esperam o cenário se estabilizar antes de agir. A incerteza sempre vai estar presente — a diferença está em como cada liderança lida com ela: paralisando decisão relevante, ou usando o próprio desconforto como sinal para buscar fonte de receita menos dependente do ciclo específico do setor de origem.
Isso também explica por que a diversificação setorial aparece como resposta tão comum entre CEOs brasileiros: não é aposta especulativa em território desconhecido, é reconhecimento de que setores isolados estão mais expostos a choque específico — regulatório, climático, geopolítico — do que uma operação que já constrói receita em múltiplas frentes adjacentes.
Vale destacar um dado que tempera o otimismo em torno de tecnologia como resposta única a esse cenário: embora a IA ocupe posição central na agenda estratégica dos CEOs brasileiros, os ganhos financeiros ainda são concentrados. Apenas 37% relatam aumento de receita atribuível à IA nos últimos 12 meses, e 28% indicam redução de custo — enquanto 56% afirmam não ter obtido nenhum benefício financeiro mensurável até agora. Segundo Castro, o gargalo está no uso superficial da tecnologia, não na tecnologia em si — o mesmo padrão de "adoção sem integração real" que aparece recorrentemente em outros levantamentos sobre maturidade de IA nas empresas.
Isso reforça que diversificação setorial e adoção de IA não são estratégias substitutas — são complementares, e nenhuma das duas, isoladamente, compensa a ausência da outra quando mal executada.
Para qualquer conselho avaliando o apetite de risco da própria empresa neste momento, o recado da PwC é direto: baixa confiança de curto prazo não deveria travar decisão estrutural de médio e longo prazo. As empresas que mais crescem margem no levantamento não são as que esperaram confiança voltar para agir — são as que trataram a própria incerteza como argumento a favor de diversificar a base de receita, não como desculpa para adiar decisão.
Desenvolver esse tipo de disciplina — decidir com convicção estratégica mesmo quando o índice de confiança pessoal está em queda — é exatamente o tipo de exercício que o Executive Program da StartSe coloca diante de lideranças que precisam agir sob pressão, sem esperar clareza que a conjuntura provavelmente não vai entregar tão cedo.
A confiança dos CEOs brasileiros caiu doze pontos em um ano. O crescimento de margem das empresas que diversificaram, não. Essa é a distância que separa liderança reativa de liderança estratégica em qualquer ciclo de incerteza — e ela raramente aparece no mesmo gráfico que mede sentimento.
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Bruno Lois
, Editor
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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