Diego Barreto diz que não está construindo o iFood para entregar resultado ao mercado de capitais. Num ano de R$ 24 bilhões em investimento e guerra no delivery, a escolha tem lógica.
Imagem: Divulgação
, Redator
8 min
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13 out 2026
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Atualizado: 13 out 2026
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Para muitas empresas de tecnologia, abrir capital é o objetivo final. É o momento de levantar dinheiro, recompensar investidores e mostrar ao mercado que o negócio chegou lá.
O iFood segue outro caminho. “Não estou construindo um negócio para entregar resultado para o mercado de capitais”, disse o CEO Diego Barreto à Exame, em 16 de setembro. Na mesma entrevista, Barreto afirmou que a empresa não precisa abrir capital e deixou clara sua prioridade: “Minha cabeça não está na rentabilidade. Minha cabeça está em crescer.”
A declaração diz muito sobre estrutura de capital, governança e a liberdade de decidir no longo prazo.
Porque já tem um dono com caixa e paciência. O iFood é controlado pela Prosus, grupo de investimentos com sede na Holanda. Em outubro de 2025, quando era o principal executivo da Prosus na América Latina, Barreto já tinha antecipado essa lógica à Forbes Brasil: “Não vamos abrir capital das empresas da Prosus porque não existe demanda de capital por parte delas.”
O principal motivo para uma empresa ir à bolsa é levantar recursos. Se o controlador financia o crescimento, o IPO perde sua função principal. E traz custos que vão além das taxas: divulgação trimestral, pressão por resultados de curto prazo e exposição de estratégia aos concorrentes.
Na mesma reportagem, Barreto citou a preocupação com o tempo das equipes. Um processo de IPO distrai a gestão justamente quando ela precisa estar focada em construir o negócio.
O iFood anunciou investimento de R$ 24 bilhões entre abril de 2026 e março de 2027, 41% acima do ciclo anterior, de R$ 17 bilhões. Segundo a Bloomberg Línea, o valor vem de uma sequência de aumentos: R$ 10,3 bilhões em 2024, R$ 13,6 bilhões em 2025 e R$ 17 bilhões no ciclo encerrado em março.
Segundo a Exame, a divisão é esta:
| Destino | Valor |
|---|---|
| Restaurantes, supermercados, farmácias e novas categorias | R$ 10 bilhões |
| iFood Pago, principalmente crédito | R$ 5 bilhões |
| Tecnologia e inovação, incluindo IA | mais de R$ 2 bilhões |
| iFood Benefícios | R$ 1 bilhão |
Esse volume de investimento, com rentabilidade explicitamente fora do foco, seria difícil de sustentar diante de acionistas que cobram resultado a cada trimestre.
Porque o iFood está defendendo sua posição numa guerra de delivery. Com a chegada da Keeta, do grupo chinês Meituan, e a volta da 99Food, da DiDi, o mercado brasileiro ganhou concorrentes com bolsos fundos. Segundo a Bloomberg Línea, o iFood detinha mais de 70% do mercado em dados levantados antes da chegada dos rivais.
Barreto se queixa de “preço predatório” por parte de concorrentes, sem nomeá-los, e o iFood acionou o Cade contra a Keeta, segundo a mesma reportagem. Ao mesmo tempo, a empresa aumentou cupons e descontos, medida que o CEO chama de tática e temporária.
Em guerras desse tipo, quem tem capital paciente leva vantagem. Uma empresa listada teria de explicar ao mercado cada trimestre de margem menor. O iFood pode absorver esse custo em nome da posição de longo prazo.
Não reduz, muda de lugar. Empresas fechadas não prestam contas ao mercado, mas prestam contas ao controlador, ao conselho e, cada vez mais, aos reguladores. No caso do iFood, o Cade está aprofundando a análise de práticas competitivas no delivery.
A diferença está no horizonte. O mercado de capitais tende a cobrar resultados trimestrais. Um controlador com visão de longo prazo pode aceitar anos de investimento pesado antes do retorno, desde que a estratégia seja clara e a execução, consistente.
Essa liberdade exige uma governança à altura. Sem a disciplina imposta pelo mercado, o conselho precisa assumir o papel de cobrar a gestão, testar premissas e saber a hora de mudar de rota.
Que a estrutura de capital é uma decisão estratégica, não só financeira. Muitas empresas brasileiras tratam o IPO como destino natural do crescimento, sem avaliar se o mercado de capitais é o melhor sócio para a estratégia que querem executar.
Algumas perguntas que um conselho deveria fazer antes de decidir:
Não existe resposta certa para todos. Mas o caso do iFood mostra que dizer “não” à bolsa também pode ser uma escolha consciente.
O iFood pode se dar ao luxo de priorizar o crescimento porque tem um controlador disposto a financiar a disputa. Nem toda empresa tem essa opção, mas toda empresa precisa decidir, com clareza, que tipo de capital e de cobrança combina com a estratégia que quer executar.
Preparar conselheiros para tomar essas decisões, equilibrando crescimento, rentabilidade, estrutura de capital e governança, é o foco do Board Program da StartSe, feito para quem senta à mesa do conselho e precisa pensar além do próximo trimestre.
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