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Amazon pretende contratar 11 mil iniciantes. Motivo? Custam menos do que IA.

O CEO da AWS disse que substituir jovens por IA é a coisa mais idiota que já ouviu. Os dados do mercado contam uma história diferente. E as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

Amazon pretende contratar 11 mil iniciantes. Motivo? Custam menos do que IA.

AWS revisa o que custa mais: humanos, ainda que iniciantes, ou IA.

Bruno Lois

, Editor

11 min

1 jul 2026

Atualizado: 1 jul 2026

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Matt Garman, CEO da Amazon Web Services, afirmou que substituir colaboradores iniciantes por IA é "uma das coisas mais idiotas que já ouviu". Isso porque esses funcionários costumam ser os mais baratos e, ao mesmo tempo, os que mais aproveitam as ferramentas de IA.

A declaração foi feita em podcast e rapidamente circulou pelo setor de tecnologia, porque vai diretamente contra o movimento que boa parte das empresas está fazendo. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, já alertou que a IA pode deslocar trabalhadores em início de carreira, e o CEO da Ford, Jim Farley, afirmou que a tecnologia vai eliminar metade dos empregos de colarinho branco.

Garman não apenas discordou. 

Anunciou que a Amazon pretende contratar cerca de 11 mil estagiários e recém-formados ainda em 2026 e destacou que a companhia tem hoje mais desenvolvedores de software do que há dois anos, mesmo com o avanço das ferramentas de programação baseadas em IA.

O argumento econômico por trás da contratação

A posição de Garman não é apenas filosófica. Tem uma lógica econômica direta que merece ser examinada.

Ele considera que os funcionários iniciantes são os menos caros das empresas, o que significa que a economia com a substituição seria pequena. Além disso, eles são os que mais usam ferramentas de IA, profissionais experientes parecem menos empolgados com a tecnologia.

A combinação é matematicamente interessante: o profissional mais barato do quadro é também o que mais potencializa as ferramentas de IA disponíveis. Substituí-lo por IA significa pagar pelo custo da tecnologia para eliminar o custo mais baixo da empresa, enquanto abre mão do agente humano que mais sabia usá-la.

Garman questiona: como isso vai funcionar daqui a dez anos, quando você não tiver ninguém com experiência ou conhecimento acumulado? Na sua avaliação, é preciso continuar contratando gente recém-saída da faculdade e ensinar como construir software do jeito certo, como decompor problemas, como pensar, da mesma maneira que sempre se fez.

O que os dados dizem sobre o que o mercado está de fato fazendo

Enquanto Garman fala, o mercado age de forma diferente. E os números são inequívocos.

A grande maioria, 71%, dos anúncios de emprego relacionados com inteligência artificial publicados por empresas do índice S&P 500 no LinkedIn destina-se a profissionais de nível sênior. Apenas 13% destes anúncios relacionados com IA destinam-se a posições juniores. A fonte primária é o AIDE Institute (AI-Driven Enterprise Institute), organização de pesquisa vinculada ao MIT que monitora como empresas estão implementando IA.

De acordo com o Goldman Sachs, a taxa de desemprego entre profissionais de tecnologia nos EUA de 20 a 30 anos aumentou quase 3 pontos percentuais desde o início de 2024, mais de quatro vezes o crescimento da taxa geral.

Os resultados da Oliver Wyman reforçam conclusões de um estudo da Universidade Harvard, segundo o qual empresas que adotaram IA generativa reduziram significativamente vagas de nível inicial, enquanto os cargos seniores permaneceram relativamente preservados.

O boom da contratação em IA é real, mas foi construído para especialistas, conclui o relatório do AIDE Institute. A tradicional porta de entrada para uma área de elevado crescimento tornou-se muito estreita.

O paradoxo que ninguém quer nomear

Existe uma tensão real entre o que Garman diz e o que as empresas fazem, e as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

Garman está certo no argumento de longo prazo: uma empresa que para de contratar iniciantes em 2026 não terá líderes seniores em 2036. A experiência não se importa em carreiras que não foram iniciadas. Segundo especialistas, a falta de renovação pode comprometer a formação futura de lideranças e gestores preparados para coordenar ambientes cada vez mais automatizados.

Mas o mercado também está respondendo a incentivos reais de curto prazo. As empresas estão procurando profissionais com experiência para ajudá-las a navegar o rápido crescimento da inteligência artificial. Num ambiente onde a pressão por resultado trimestral é constante, contratar alguém que precisará de dois anos de formação antes de operar com autonomia perde para contratar alguém que entrega na semana que vem.

O problema é que essa lógica de curto prazo, aplicada em escala e por tempo suficiente, produz exatamente o colapso que Garman descreve: uma indústria sem pipeline de formação, onde a próxima geração de seniores simplesmente não existe.

O que isso tem a ver com liderança organizacional

A decisão de contratar ou não iniciantes num ambiente de IA acelerada não é uma decisão de RH. É uma decisão estratégica que revela a visão de tempo da liderança de uma organização.

O CEO da AWS acrescentou que construir uma empresa exige planejamento de longo prazo. É preciso pensar a longo prazo sobre a saúde de uma empresa. Simplesmente dizer que nunca mais se vai contratar pessoas em início de carreira é inviável para qualquer pessoa que esteja tentando construir uma empresa de longo prazo.

Essa afirmação não é sobre tecnologia. É sobre como líderes tomam decisões quando o horizonte de recompensa e o horizonte de consequência estão em tempos diferentes. A IA que economiza custo hoje planta um problema de capacidade para daqui a dez anos. Mas os próximos dez anos raramente aparecem no próximo relatório trimestral.

Garman argumentou que a IA vai remodelar o trabalho, mas não eliminar sua necessidade por completo. A transformação exigirá novas funções e, embora alguns empregos possam mudar, o trabalho continua sendo necessário para manter a economia em movimento. A analogia que ele usa é precisa: a introdução do Excel eliminou a necessidade de trabalhadores fazerem cálculos manualmente, mas incentivou outros a se adaptar e aprender a usar a nova ferramenta. A planilha não acabou com o analista financeiro. Mudou o que ele faz.

Líderes que entendem essa distinção tomam decisões de força de trabalho diferentes das que tomam líderes que olham apenas para o custo imediato da linha de pessoas no balanço. O Executive Program da StartSe desenvolve exatamente essa capacidade: tomar decisões estratégicas com horizonte real, em ambientes onde a pressão de curto prazo é permanente e as consequências de longo prazo são invisíveis até que seja tarde demais para corrigi-las.

A pergunta que o setor ainda não respondeu

O CEO da AWS tem convicção. Os dados do mercado têm uma direção diferente. E os jovens profissionais de tecnologia estão no meio de uma disputa que não escolheram.

O nível júnior não está apenas diminuindo. Está sendo estruturalmente eliminado, aponta um profissional do setor de serviços que estuda o futuro do trabalho. O problema é que as tarefas frequentes e de menor risco que tradicionalmente eram atribuídas aos profissionais mais jovens, como primeiras versões de documentos ou processamento rotineiro, são precisamente aquelas que a IA executa melhor.

A questão que nenhum executivo respondeu ainda com clareza é: se a porta de entrada para as carreiras de tecnologia está sendo estruturalmente fechada, de onde virão os líderes técnicos de 2035?

A Amazon sabe sua resposta. Contratará 11 mil iniciantes este ano. 

O restante do mercado ainda está decidindo se acredita que a pergunta é real.

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Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.

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