Uma reflexão necessária para RHs: por que os critérios de quem você contrata ainda são os mesmos?
Daniele Avelino - Colunista StartSe
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7 min
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17 mar 2026
•
Atualizado: 17 mar 2026
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Durante muito tempo, a gente acreditou que carreira era uma linha contínua, quase como um acordo silencioso: você estuda, entra em uma empresa, cresce aos poucos, acumula experiência e, lá na frente, colhe o resultado de tudo isso. Era previsível, estável e, por muito tempo, funcionou.
O problema é que esse modelo parou de fazer sentido. Não de forma teórica e sim na prática mesmo.
Segundo o LinkedIn, a média de permanência em uma mesma empresa caiu para menos de 3 anos em diversas áreas. As pessoas começaram a mudar de setor, de função, de modelo de trabalho com uma frequência que não existia há uma geração. Profissões inteiras deixaram de existir. Outras surgiram rápido demais. E o que antes parecia exceção virou regra.
Hoje, tentar explicar carreira como uma sequência linear chega a soar ingênuo. Porque não é mais, ela deixou de ser uma linha e virou um mosaico.
O mais curioso é que, enquanto tudo isso muda do lado de fora, dentro das empresas a lógica ainda é outra. A gente continua falando de planos de carreira como se fosse possível prever os próximos dez anos. Continua valorizando o tempo de casa como indicador de crescimento e continua organizando cargos como se o trabalho fosse estático, quando na verdade muda o tempo todo.
Existe um descompasso evidente. E está custando caro.
Profissionais que sentem que podem mais do que o cargo permite. Talentos que se expandem, mas não encontram espaço dentro da estrutura. Empresas que dizem buscar inovação, mas operam com modelos que limitam exatamente isso. Um profissional que passou por três setores, que empreendeu, que pausou a carreira para se requalificar, chega hoje com uma bagagem que os sistemas tradicionais simplesmente não sabem ler. Os algoritmos eliminam. Os gestores desconfiam. E um talento real fica de fora porque não cabe no modelo. E o que está acontecendo não é uma tendência, é estrutural.
A tecnologia redesenhou funções inteiras. A inteligência artificial começa a assumir partes relevantes do trabalho. E, pela primeira vez, não é só o trabalho que muda, é a lógica do que significa ser profissional. Hoje, uma pessoa pode mudar de área várias vezes, construir múltiplas fontes de renda, atuar como especialista e generalista ao mesmo tempo. Não se trata mais de subir degraus e sim de expandir repertório.
E talvez aqui esteja a parte menos óbvia e mais profunda dessa transformação.
Quando o caminho deixa de ser claro, surge uma pergunta inevitável: Quem eu sou profissionalmente quando não existe mais um caminho definido? Antes, a carreira ajudava a responder. Hoje, ela já não se dá conta sozinha. O colapso da carreira também é, em muitos casos, um colapso de identidade. E essa é uma conversa que muitas empresas ainda não estão prontas para ter mesmo já estando inseridas nela.
E o RH, onde entra nesse cenário? No centro. E sob pressão.
Porque o RH é a área que, ao mesmo tempo, sente o impacto dessa mudança e tem o desafio de criar as condições para que as organizações respondam a ela. Mas para isso, precisa primeiro repensar seus próprios modelos.
Processos seletivos desenhados para carreiras lineares continuam eliminando perfis não convencionais que carregam exatamente o repertório que o momento exige. Trilhas de desenvolvimento rígidas continuam tentando encaixar trajetórias fluidas em caixas que já não existem. E avaliações de desempenho continuam medindo o profissional de hoje com os critérios de ontem.
O RH que vai fazer diferença nos próximos anos não é o que melhor administra o presente. É o que consegue criar arquiteturas de carreira mais abertas, critérios de avaliação mais contextuais e uma cultura organizacional que vê na não linearidade um ativo e não um risco.
Isso exige coragem. Exige reverter processos que foram construídos ao longo de décadas. E exige, acima de tudo, uma mudança de narrativa interna: parar de gerir carreira como se o futuro fosse previsível e começar a desenvolver pessoas para operar bem justamente quando ele não é.
O que está acontecendo não é uma evolução. É uma substituição. E, no meio disso tudo, o maior risco não é a mudança, a mudança já aconteceu. O maior risco é a insistência. Insistir em caminhos previsíveis em um contexto imprevisível. Insistir em estruturas rígidas em um mundo fluido. Insistir em critérios antigos para avaliar realidades novas.
“O colapso da carreira não é o problema. É o sinal.”
De que o trabalho mudou. De que o valor mudou. E de que talvez seja hora de repensar não só como construímos carreiras, mas como o RH lidera essa transformação dentro das organizações, antes que ela aconteça sem ele.
Fica uma pergunta final que todo RH deve se fazer: se a carreira linear acabou, por que os critérios de quem você contrata ainda são os mesmos?
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Daniele Avelino
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LinkedIn Top Voices. Conselheira na área de Pessoas e especialista em Recursos Humanos e Diversidade & Inclusão. Palestrante, Mentora e Consultora. Atua com propósito no desenvolvimento de líderes e na construção de culturas mais humanas, diversas e sustentáveis.
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