Como a Rappi quer conquistar o coração e a mente de 700 milhões de consumidores

A startup de origem colombiana tem os recursos, a energia e o aval dos investidores, mas a pergunta é: a Rappi vai converter para o app os 700 milhões de consumidores da América Latina?

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“O sonho da Rappi é se tornar referência na América Latina como super aplicativo”, diz Ricardo Bechara, diretor de expansão e cofundador da Rappi no Brasil. Por super aplicativo entenda-se um aplicativo que oferece, na mesma plataforma, múltiplos serviços.

A Rappi está mirando um mercado consumidor na América Latina de aproximadamente 700 milhões de pessoas (quase metade da população da China), em que a penetração do e-commerce ainda é baixa, cerca de 3%, mas cresce rapidamente. Para efeito de comparação, a penetração do ecommerce nos Estados Unidos é de 20%. Na China, é de 15%.

Fundada na Colômbia em 2015 pelos empreendedores colombianos Felipe Villamarín, Sebastián Mejía e Simon Borrero, a Rappi tem hoje 6,5 milhões de usuários, considerando os sete países em que atua (Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Uruguai). No Brasil, onde a empresa aterrissou há 20 meses, está presente em 20 cidades, que respondem por cerca de 35% do total das vendas feitas por meio do aplicativo.

Somente no seu primeiro ano de atividade em solo brasileiro, os entregadores parceiros da Rappi percorreram mais de dois milhões de quilômetros, segundo os dados da empresa. A quilometragem equivale a quase 183 voltas na lua e 285 idas de Brasília até Bogotá – cidade de origem da startup. Mas são os planos de crescimento da Rappi que impressionam.

Em 2018, a Rappi fez sete vezes mais entregas no país do que em 2017. Agora, a Rappi planeja estar, em pouco tempo, em 100 cidades brasileiras. As capitais nordestinas devem ser as próximas cidades a contar com os serviços da Rappi.

1 novo produto a cada 20 dias

O volume de entregas no país tem crescido 30% ao mês, segundo Bechara, que comanda o escritório da Rappi no Brasil, cuja sede fica no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. Lá, trabalham pouco mais de 100 funcionários em um ritmo alucinante – quase sempre de mais de 10, 12 horas por dia.

No Brasil, a Rappi lança um novo produto a cada 20 dias. Os lançamentos vão de melhorias no aplicativo, anúncios de novas parcerias, até campanhas de engajamento para atrair novos usuários.

“A carreira em startup parece glamurosa, mas o dia a dia é feito de trabalho duro e muita renúncia”, diz Bechara, que começou a trabalhar em startups em 2011, quando as primeiras startups de ecommerce despontavam no Brasil. Antes de ir para a Rappi, Bechara era o líder da área de marketing da Mobly, primeiro e-commerce especializado em móveis do país. “Comecei na Rappi em 2017, fazendo os primeiros testes do produto no Brasil”, diz.

Os planos da Rappi, portanto, parecem audaciosos, mas o histórico da empresa sustenta seus objetivos. Em 2016, quando o aplicativo da Rappi começou a ser testado, o raio de abrangência da empresa era de seis quarteirões, em Bogotá.

O aplicativo da Rappi tinha apenas três botões: “supermercado”, “restaurante” e o enigmático, mas estratégico, “qualquer coisa”. Este botão permite solicitar entregas de unidades que ainda não fazem parte da lista de negócios da Rappi, bem como requisitar ao entregador que vá, por exemplo, ao shopping buscar um presente de última hora. “O botão permitiu conhecer as necessidades dos usuários”, diz Bechara.

Hoje, no entanto, o aplicativo da Rappi incorporou uma série de funcionalidades e recursos que tornam a compra de tudo mais fácil. As melhorias no aplicativo se deram por meio de:

Parcerias com empresas que fazem parte do dia a dia de seus usuários;

Desenvolvimento de e-commerce, no app, de médias e grandes marcas;

Meios de pagamentos desenvolvidos dentro do aplicativo;

Rappi Prime, serviço de assinaturas que cobra R$ 20 por mês do usuário e oferece isenção de frete – é um importante meio fidelização de clientes.

Para saber mais sobre cada uma dessas frentes leia:

Rappi se inspira na China e deseja ser um super aplicativo

Rappi faz parceria com Sanofi de olho em mercado digital da saúde

Rappi alugará patinetes elétricos

Conheça o RappiPay, sistema de pagamentos que funciona como uma e-wallet

Dinheiro para queimar

Tudo isso foi possível, pois a Rappi conseguiu atrair desde o início a atenção de investidores globais. Após o primeiro ano de fundação, a startup foi selecionada pela aceleradora americana Y-Combinator (famosa pelo seu histórico de formar empresas unicórnio, com valor de mercado acima de US$ 1 bilhão) para participar de seu programa de desenvolvimento de negócios.

A partir daí, as portas dos fundos de capital de risco se abriram para a Rappi. Hoje fazem parte do negócio pelo menos sete grandes fundos (no total são 34 investidores), que em oito rodadas de investimento aportaram mais de US$ 1,7 bilhão na empresa.

“O mais importante, no entanto, é que estes investidores estão alinhados com a visão estratégica da Rappi e toparam trocar eficiência por ganho de mercado”, diz Bechara. Em outras palavras, por hora, os investidores estão alinhados com a Rappi no sentido de que é necessário queimar dinheiro para crescer, abrindo novos mercados e conquistando mais usuários.

Fatores de sucesso

Na segunda-feira (27), Bechara recebeu StartSe para uma entrevista no escritório da Rappi, que foi conduzida por Mauricio Benvenutti. Durante uma hora de conversa, o executivo resumiu da seguinte forma o sucesso que a empresa teve até aqui:

Cultura de testar de tudo, de forma muito rápida. “Nós testamos o tempo todo algo novo, de muitos jeitos distintos. Por exemplo, para saber se determinada funcionalidade do app tem aderência com o nosso público, bolamos mais de 10, 15  jeitos diferentes de validar uma hipótese”, diz Bechara.

Produto com alto “market fit”. O termo em inglês é uma obsessão dentro da Rappi e explica a rápida penetração do aplicativo e o fato dele continuar nos smartphones dos usuários. “A Rappi está o tempo todo buscando entender a necessidade das pessoas e entregar a melhor experiência para o consumidor, atendendo ele no que for preciso, a qualquer momento do dia”, diz Bechara.

Comunicação é tudo. Não adiante ter um bom aplicativo se ninguém o conhece. A Rappi investe muito dinheiro nos canais digitais para comunicar as funcionalidades e atualizações do aplicativo. “A Rappi economiza tempo dos usuários oferecendo delivery de tudo”, diz Bechara, repetindo o bordão da empresa, comum nos anúncios na internet.

Pessoas como um diferencial competitivo. A Rappi busca profissionais super cursiosos, que sejam tenazes (duros para aguentar o dia a dia puxado, mas que tenham resiliência para entender que o jogo se ganha no médio e longo prazos) e com alto grau de energia.

Mentalidade Blitzscaling. O termo em inglês é título do livro escrito por  Reid Hoffman (cofundador de LinkedIn e investidor) e Chris Yeh (investidor). “O livro resume o nosso jeito de pensar e, mais importante, o nosso jeito de fazer”, diz Bechara. “O Blitzscaling é um conjunto de práticas para estimular e gerenciar o crescimento vertiginoso. O método prioriza a velocidade sobre a eficiência em um ambiente de incerteza e permite que uma empresa passe de ‘startup’ a ‘scaleup’ em um ritmo furioso que captura o mercado”, explica Hoffman, no livro.

Se a Rappi vai converter para o app os 700 milhões de consumidores da América Latina? Se depender da vontade de Bechara e do time da Rappi, a resposta é sim – pelo menos no que depender do Brasil. Mas quem vai dar mesmo a resposta final são os usuários e clientes em potencial. E, como toda empresa que cresce muito rápido, o sucesso da Rappi vai depender muito de sua capacidade de crescer com qualidade de serviço.

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