Piloto de drone relata como foram as buscas por vítimas em Brumadinho

Grupo de startups auxiliou autoridades após rompimento de barragem de resíduos de mineração

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O rompimento de uma barragem de resíduos de mineração da Vale, em Brumadinho, no dia 25 de janeiro, resultou em centenas de mortos e desaparecidos, além de danos inestimáveis ao patrimônio e ao ecossistema. Diante desta tragédia, um grupo de startups se reuniu para auxiliar nas buscas por vítimas. Entre eles, estavam pilotos de drones que sobrevoaram o Rio Paraopeba à procura de indícios de corpos.

Um desses foi Nereu Bastos, da Sky NeD Imagens Aéreas. Um dia após o incidente, ele e mais dez pilotos saíram de Belo Horizonte rumo à Brumadinho para oferecer seus serviços e tecnologias de forma voluntária. O empreendedor contou à StartSe como foi a ação do grupo para ajudar as autoridades em um episódio tão triste na história recente do Brasil.

Helicópteros e desespero

Os pilotos chegaram à Brumadinho no dia 26 de janeiro. Foram direto para a base da Vale no Córrego do Feijão, de onde saíam os voos de helicópteros que buscavam vítimas. O local fica a cerca de 500 m do leito do rio na região onde havia a maior concentração de corpos.

Neste primeiro momento, não foram autorizados voos de drone. Diversos helicópteros já sobrevoavam a região, além de um balão de reconhecimento. “Acredito que, se tivesse uma boa coordenação, poderíamos ter realizado voos baixos, em locais onde os helicópteros não chegassem, para auxiliar a busca pelas vítimas já desde o primeiro dia. Mas, naquele momento, o comando nos explicou que não era possível. E compreendemos”, diz Nereu Bastos. Os pilotos cadastraram suas máquinas em caso de necessidade futura.

Startups falam: como evitar novos desastres

“O que pudemos ver foi muito triste. Helicópteros decolavam vazios e voltavam cheios de gente morta. Cerca de 30 pessoas da região que estavam ali queriam saber se os corpos eram de seus parentes, buscavam informações, desesperadas”, relata o piloto.

Nereu chegou a entrar em contato com a defesa civil de Brumadinho para tentar autorizar os voos com drones. Muitos destes tinham amigos e parentes desaparecidos na lama e estavam desesperados por qualquer ajuda nas buscas. Ainda assim, naquele momento, os veículos não tripulados ficaram no solo.

O rio de lama

Os pilotos retornaram à Belo Horizonte e lá ficaram durante quase uma semana. Neste período, o grupo de startups dava todo suporte possível à distância. Isso incluiu mapeamento geográfico por fotos de satélite, softwares preditivos de localização de objetos levados pelo rio, entre outras tecnologias.

No dia 1 de fevereiro, seis dos onze pilotos foram convocados para voltar à Brumadinho. Além de Nereu, estava André Santos, da PL4NAR, Saulo Santana, da Verde Drone, Samuel Rocha, da Drone Olhar de Cima e Marden Lopes, da Air Drone Tech. O ponto de encontro, dessa vez, era a Faculdade ASA. Lá, foram reunidas todas as pessoas focadas nas buscas – entre voluntários, bombeiros, oficiais do exército, da aeronáutica e outras autoridades competentes.

“Fomos autorizados a voar em uma área restrita do Rio Paraopeba, de cerca de 3 km de leito do centro de Brumadinho até uma distância segura antes da zona quente (onde havia maior concentração de corpos, buscas e helicópteros)”, explica Nereu. “O objetivo, passado pelo comando de operações aéreas, era voar bem baixo, no leito do rio, perto das margens, tentando localizar destroços ou indicadores de onde pudesse haver vítimas. O rio fica entre mata fechada, então não tem uma área acessível na margem, o que dificulta o acesso sem ser por vias aéreas”.

No mesmo dia, o grupo de drones foi responsável por encontrar um carro praticamente imerso na lama. As imagens e a localização foram prontamente passadas às autoridades, que enviaram um helicóptero dos bombeiros ao local. “O bombeiro fez um rapel para descer ao rio, mergulhou na lama, e constatou que não havia vítimas ali”, conta Nereu.

No dia seguinte, outro indício de possíveis vítimas foi localizado pelo grupo de drones. Em determinado ponto, havia uma grande concentração de urubus ao redor de destroços. “Não sei se chegaram a encontrar algum corpo por ali”, revela o piloto.

“Ficou evidente que os drones são essenciais para localizar objetos no rio”. Os bombeiros não conseguiam acessar as margens dos rios a pé ou de carro, e dos helicópteros não era possível avistar objetos afundados à distância.

Morte e esperança

Depois dos dois dias de ação, vieram as chuvas. “E, com chuva, o drone não sobe”, explica Nereu Bastos. A equipe retornou ainda na noite do último dia 2 à Belo Horizonte e, pelas condições climáticas, não retomou as buscas. Entretanto, ainda estão no aguardo para novos chamados. “Essas chuvas fortes movimentam muito o leito do rio. Isso significa que podem surgir novos objetos, corpos e sejam necessários novos voos de busca. Ficamos de prontidão”.

O que viram – e filmaram – nos dois dias que estiveram sobrevoando o Rio Paraopeba não vai sair dos pensamentos tão cedo. “Infelizmente, a gente vê que o rio está morto. A cor da lama é muito escura. Nós vimos que o ecossistema está prejudicado. Em algumas filmagens, notei que tem muitos pássaros buscando comida na região do rio e não estão encontrando. Não sei o que vai acontecer com esses animais. É realmente preocupante”, lamenta o piloto.

Por outro lado, a movimentação voluntária para ajudar nas buscas encheu o empreendedor de esperança. “Eu vi pessoas de diversos estados e países colaborando. Gente da Amazônia, do México, do Chile, helicópteros do Rio de Janeiro e de São Paulo. Também havia os jipeiros, que fizeram um trabalho impressionante, e voltavam no fim do dia inteiro sujos de lama, como também ficavam os bombeiros. Fora os que a gente não vê e estavam trabalhando remotamente com informação, como é o caso de muita gente no grupo das startups”, relata.

Fotos e vídeo: SkyNeD / Nereu Bastos

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