Lawtech Linte cresce e prova que o mercado jurídico está sedento por inovação

Startup fundada pelo advogado mineiro Gabriel Senra usa inteligência artificial para automatizar e organizar documentos e dados, para clientes como Itaú, Accenture, 99, e Stone

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A Linte é uma lawtech, startup de tecnologia para o setor jurídico, que foi criada, em 2015, pelo advogado mineiro Gabriel Senra, hoje com 31 anos, para diminuir a burocracia e as ineficiências jurídicas de grandes corporações. No ano passado, a startup faturou R$ 5 milhões, segundo reportagem publicada pela Folha de S. Paulo. Gabriel, no entanto, afirma que a política da empresa é não divulgar o seu faturamento e nem os investimentos que recebeu do Valor Capital, Redpoint eVentures, 500 Startups e investidores anjo. O empreendedor confirma que a Linte dobrou de tamanho de 2017 para 2018. “Este ano, a previsão dobrar ou até triplicar nosso faturamento”, diz.

O crescimento da Linte mostra como o mercado jurídico está sedento por inovação. Hoje, o Brasil chega a ter mais de 100 milhões de processos ativos, sendo que algumas empresas recebem até 20 mil novas ações por mês. Nas grandes corporações, é comum a área jurídica receber muitas demandas judiciais ao mesmo tempo. Isso exige gerenciar várias equipes de advogados ao mesmo tempo, criar um fluxo inteligente de informações, além de administrar um grande volume de processos. A Linte surgiu para gerenciar este caos.

O software comercializado pela startup via SaaS (software as a service) oferece três principais serviços: gestão inteligente (organização e controle das atividades), automação e produtividade (sistematização e armazenamento dos dados) e insights e analytics (parte customizada do software, de acordo com as necessidades do cliente).

Mais do que aumentar a eficiência dos departamentos jurídicos, fazendo as grandes empresas economizarem com os processos, o que Gabriel e seu time querem criar é uma nova relação das pessoas com o trabalho. Segundo o empreendedor, o ambiente de trabalho jurídico é, tradicionalmente, conservador, ineficiente e burocrático. Para mudar isso, a Linte se propõe a abreviar as tarefas repetitivas e operacionais para que o trabalho desses profissionais gere valor. “Isso cria uma noção de propósito para estes profissionais”, diz.

Velocidade ou Controle

Atuar na área de automação de documentos partiu de uma reflexão muito pragmática de Gabriel, ao observar um conflito de forças dentro das organizações: velocidade X controle. Para ele, os departamentos jurídicos têm dificuldades em manter essa relação harmoniosa, pois quando se prioriza uma frente, se perda na oura. “Nossa finalidade é permitir que os advogados produzam com mais agilidade e qualidade, mantendo riscos baixos”, diz.

“Um dos fatores que nos diferencia é a flexibilidade de atender o cliente com seu próprio conteúdo. Não fornecemos qualquer tipo de consultoria jurídica, automatizamos o conteúdo já previsto ou que está sendo criado pelos advogados de cada organização, dentro do próprio escopo. E a edição do usuário é feita na própria interface, sem necessidade de qualquer conhecimento em programação”, ressalta.

Outro fator tão ou mais importante do que simplesmente a automatização dos documentos é a organização dos dados jurídicos dos contratos e petições, que geralmente são menosprezados. “No momento em que vivemos, a coisa mais importante que se tem são os dados. O volume produzido pelas organizações é enorme, mas desperdiçado, geralmente colocado em uma gaveta. A Linte se propõe a organizar todos esses dados, não só aqueles que supostamente seriam interessantes em um determinado momento”, diz.

Um dos clientes da lawtech é a consultoria global Accenture. Senra relata que conseguiram reduzir em 80% o custo de horas e de envolvimento de profissionais com a automação de documentos em sete países. Outros clientes são Itaú, 99, Stone, Basf, Grupo Tereos.

Um jovem advogado inquieto

Gabriel é mineiro de Belo Horizonte e diz ter a veia empreendedora desde pequeno, quando vendia etiquetas. Aos 18 anos, ele trabalhava com eventos relacionados ao mundo jurídico, quando então resolveu fazer Direito.

Tão logo se formou, foi trabalhar no Sacha Calmon Misabel Derzi, um dos maiores escritório de Direito Tributário do país, de onde saiu para trabalhar na Vale. Em 2014, ele deixou a Vale para se dedicar a projetos pessoais, atuando como consultor. “Eu já queria construir algo próprio, mas não sabia o que. Então utilizei aquele ano para pensar no que fazer”, diz.

Uma das pessoas que foi determinante para a trajetória empreendedora de Gabriel foi seu primo Igor Senra, cofundador do Moip Pagamentos. Igor disse a Gabriel para que viesse para São Paulo, pois iria lhe abrir a cabeça. Gabriel trabalhou durante um período na Moip, estruturando a área jurídica e foi lá que fez o primeiro piloto do software, que um ano depois se tonaria a base da Linte.

Logo no primeiro mês de vida, a Linte foi selecionada em um programa de aceleração da 500 Startups, no Vale do Silício, onde o jovem empreendedor foi morar. “Eu costumo dizer que esse foi um marco importante, porque, apesar do DNA empreendedor, eu era um advogado de empresa, com todo o formalismo e burocracia que essa profissão às vezes carrega”, diz Gabriel.

Oportunidades no ecossistema de lawtechs

Gabriel é enfático em dizer que, desde 2015, o mercado de lawtechs e legaltechs no Brasil mudou positivamente, e que ainda existem muitas oportunidades para melhorar a eficiência e produtividade do meio jurídico. “Existia um ceticismo e desconfiança das empresas em relação ao potencial transformador das lawtechs, que hoje é uma realidade. É interessante também observar um apetite maior dos investidores por esse mercado. Eu e outros empreendedores temos sido consultados por fundos de investimentos, sendo que antes era muito difícil sequer conversar com representantes de alguma empresa.”

O potencial para atração de novos talentos também se alterou, já que antes as lawtechs eram como o ‘patinho feio’ das startups. Gabriel percebe que há dois perfis de advogados liderando as mudanças na área jurídica: jovens profissionais que estão há pouco tempo no mercado de trabalho, com habilidades para além da formação jurídica; e profissionais com larga experiência e carreiras consolidadas, que querem se reinventar.

“O advogado não precisa saber programar, mas acho que o profissional do Direito precisa pensar melhor em dados, de forma crítica e estruturada, e ser mais criativo e empático com o cliente. As startups sozinhas não vão resolver nenhum problema do mundo. É importante o esforço humano, a colaboração, a empatia e a dedicação. Todo processo de inovação, sobretudo no mundo jurídico, precisa colocar as pessoas no centro da estratégia”, diz Gabriel.

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