Fabien Mendez, CEO da Loggi: "Quero fazer 5 milhões de entregas por dia até 2020"

Conheça a trajetória de Fabien Mendez, fundador e presidente da Loggi, e seus planos para resolver a logística do Brasil

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“Queremos permitir a qualquer um entregar qualquer coisa, em qualquer lugar do Brasil”. É assim que Fabien Mendez, fundador e presidente da Loggi, posiciona a startup do ramo logístico. A Loggi cria centros de distribuição estratégicos pelo país e otimiza rotas de tráfego a partir deles.

Com o uso de inteligência artificial, as encomendas são analisadas, coletadas e alocadas no modal adequado, até serem definitivamente enviadas por motofretistas, vans, carros e transferência aérea. O objetivo é sempre o mesmo: chegar no mesmo dia ou no máximo no dia seguinte.

“Queremos reinventar a logística com tecnologia”, diz Mendez. Ele complementa, destacando que 12% do PIB está ligado ao custo logístico, o que faz com que setores como e-commerce não decolem no país.

Concorrência e mercado

A empresa começou entregando apenas documentos entre 2013 e 2014. Dois anos depois, entrou no segmento de e-commerce. E desde 2017 tem atuado nas entregas de alimentos, com parcerias e clientes como Rappi e Ifood.

“Essas empresas não são nossas concorrentes. A nossa competição é com um mix de empresas tradicionais, como Correios, Jadilog, Total Express, de quem queremos ganhar todo dia. Somos B2B2C (business to business to consumer), no sentido de que ajudamos grandes marcas, grandes varejistas e grandes restaurantes a encantar seu consumidor final com uma boa entrega, rápida e barata”, ressalta Mendez. Entre estes, estão os gigantes McDonalds, Carrefour, B2W, Itaú, Pão de Açúcar.

A Loggi está presente em 33 cidades brasileiras com cerca de 100 mil entregas diárias – cerca de 3 milhões ao mês. A projeção é ainda mais ambiciosa: cobrir 95% dos consumidores brasileiros até 2020, com cinco milhões de entregas por dia.

O empreendedor usa como referência a JingDong (jd.com), e-commerce chinês que entrega 95% dos produtos em até 24 horas nos 9,5 milhões de quilômetros quadrados do país oriental. “Em comparação com a China, estamos 10, 15 anos atrasados [em logística]. Queremos ser um catalisador do novo varejo no Brasil”, diz.

A história do fundador

Mendez recebeu a reportagem da StartSe na Loggi Tower, conjunto comercial de 12 andares localizado na Alameda Santos, próximo à Avenida Paulista, em São Paulo, de onde ele lidera os 550 funcionários de sua companhia.

Esse número equivale a um sexto da população de Le Bosc, um pequeno vilarejo na Riviera Francesa, onde o fundador da Loggi nasceu e passou a infância. Na adolescência, ele se mudou para a Espanha, o que fez saltar seu cosmopolitismo e interesse pelo mundo dos negócios.

À época, o empreendedorismo já fazia brilhar os olhos do jovem francês, que gostava de ler livros e revistas sobre personagens icônicos como Steve Jobs – hoje sua referência maior é Elon Musk: “É um extraterrestre, um gênio em se tratando de resiliência”, define.

Como muitos fundadores de startups, Mendez é oriundo do mercado financeiro. Em 2009, após concluir a graduação em economia e direito e o mestrado em finanças na Sciences Po, em Paris – uma das principais universidades de estudos sociais e políticos da França –, ele iniciou a trajetória profissional como analista de fusões e aquisições no J.P. Morgan também na Cidade Luz.

Dois anos antes, Fabien fez um intercâmbio na FGV-SP, quando se apaixonou pela cidade e pelo país. “O que me fascinou foi como o Brasil está aberto para pessoas de fora, como aceita e abraça a diversidade. São poucos os países assim no mundo. Tente, por exemplo, montar um negócio na China, se você não for chinês”, compara.

Mais tarde, retornou ao Brasil em definitivo para trabalhar como executivo do BNP Paribas, o maior banco de investimentos da França. Cansado daquela realidade, a primeira experiência empreendedora no mundo digital foi com o GoJames, em 2012, um aplicativo semelhante à Uber, antes desta atuar no país.

O negócio durou pouco mais de seis meses e não sobreviveu à burocracia e à falta de regulamentação no setor – que veio a se alterar com a própria Uber anos mais tarde.

Uma constatação, entretanto, foi óbvia: se tinha dado errado empreender e tinha sido prazeroso, mesmo gerando dívidas financeiras, Fabien jamais retornaria ao mercado financeiro, independentemente das boas propostas que recebeu. Tampouco voltaria a ser um empregado convencional. Iria empreender de novo.

Empreendendo a Loggi

Em 2013, caminhando pela Avenida Nove de Julho, na capital paulista, veio a epifania para criar a Logg. Ouviu os intermitentes “bip, bip, bip, bip” dos motociclistas em trânsito, e passou a contar a batelada de profissionais munidos de baús de entrega em seus veículos.

“Às vezes, as coisas mais óbvias estão na nossa frente e não observamos por costume. Se eu não poderia transportar pessoas por um aplicativo de carros, então vou transportar produtos via motocicletas”, diz.

Na cidade-sede da Loggi, é quase impossível caminhar por mais de cinco minutos em uma grande via e não observar um motofretista de roupa e baú em cor azul claro, com um desenho de um coelho e o nome da empresa em letras brancas. São cerca de 10 mil motoboys autônomos que utilizam serviços pelo país.

Para o fundador, o empreendedorismo pode ser sintetizado em dois aspectos: curiosidade e vontade de resolver problemas “com elegância”, ambas para facilitar a vida das pessoas.

“O que me fascina como empreendedor é que eu aprendo um monte de coisas novas todos os dias. Se você tem humildade e iniciativa de dizer que não sabe nada, você tem de tudo para aprender. É um processo intelectual fascinante”, diz Fabien.

Claro que nem tudo são ou foram flores. Os desafios para o CEO são constantes e se atualizam a cada trimestre, seja na elaboração de um novo produto com marketfit, na formulação de uma cultura forte ou na tentativa de levantar capital.

“O maior desafio foi não fechar a Loggi nesses cinco anos. Empreender uma startup é correr o risco de morrer a todo momento, e isso aconteceu inúmeras vezes. E você tenta postergar o máximo possível. Por duas vezes ficamos com apenas uma semana de caixa. Não foram noites fáceis”, relembra.

Unicórnios e dragões

Fabien Mendez é avesso a falar sobre números relativos a investimentos e faturamentos. Durante a entrevista de uma hora, esse foi um dos poucos momentos que o descontraído francês, que vestia bermuda e camiseta como outros funcionários e gesticula bastante ao falar, recuou a entonação de voz.

Alguns dados, no entanto, são públicos. Em 2018, três meses depois de atingir o breakeven, a startup recebeu o investimento de 400 milhões de reais do Vision Fund, fundo do grupo japonês Softbank. Nos anos anteriores, a empresa já captou cerca de R$ 100 milhões em outras rodadas com fundos diversos como Monashees, Qualcoom Ventures, Dragoneer Investment Group.

A reportagem insistiu em conhecer o faturamento da Loggi no último ano, mas Fabien desconversou: “Eu não revelo esses dados, mas acho que saindo de 100 mil entregas diárias para 5 milhões em breve já é um bom número para ilustrar”, disse com sorriso discreto.

Para o mercado das startups, a Loggi desponta como uma das possíveis empresas que devem se tornar unicórnio em 2019. O fundador também é indiferente a essa questão e específico sobre o significado de tal categorização em sua posição de empreendedor.

“Eu nunca falei isso [da Loggi se tornar unicórnio]. O mercado de tecnologia se importa muito com unicórnios. Já eu prefiro comunicar sobre propósitos, impactos sociais. Tantas empresas se tornaram unicórnios e quebraram dois anos depois”, diz.

“O que me importa é que daqui a 10 anos as pessoas vejam que a Loggi resolveu o problema da logística no Brasil. Isso de ser um unicórnio, decacórnio ou um dragão, seja lá como quiserem chamar, será consequência do impacto social que a Loggi está tendo no Brasil”, complementa.

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