O levante da China: como inovar em tempos de crise

Da Redação

Por Da Redação

27 de fevereiro de 2020 às 11:25 - Atualizado há 9 meses

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Por Caroline Zurakowski, da equipe StartSe China

Em outubro de 2018, me mudei para Xangai. Há tempos estudava o relacionamento entre Estados Unidos e China e chegara a hora de passar mais tempo neste país aprendendo o idioma, observando os chineses, descobrindo mais sobre as inovações, a cultura, a riqueza e as contradições do gigante asiático. Conheci a equipe da StartSe, me identifiquei com o propósito da empresa e entrei para o time. O resto é história.

Aqui em Xangai, uma das aulas de chinês Mandarim que mais me marcou até hoje foi quando aprendi o verbo Qǐlái (起来), que significa levantar-se. Para me ajudar a entender o significado desse termo, o professor começou a cantar, para meu espanto, o hino nacional chinês:

Levantem-se! Pessoas que não querem ser escravas!
Com nossa carne e sangue construiremos nossa nova Grande Muralha!
A nação chinesa chegou ao momento mais perigoso.
Todos foram forçados a dar seu rugido final.
Levantem-se! Levantem-se! Levantem-se!
Milhões de corações e uma só mente[…]”

Ele também mencionou a suposta frase de Mao Tse Tung com o mesmo termo, dita na Praça Tiananmen no dia 1/10/1949, data da Proclamação da República Popular da China: “O povo chinês levantou-se!”. Esse slogan é extremamente popular e se transformou quase em um “manifesto do sonho chinês”, a ideia de que o Partido Comunista traria de volta o poder e a prosperidade que o país historicamente já desfrutara por muitos séculos. Afinal, superioridade econômica e tecnológica da China sobre a civilização ocidental perdurou por quase um milênio antes do declínio chinês no século XIX.

Levantar-se durante a crise

Em um discurso, o ex-presidente norte-americano John F. Kennedy,  afirmou que, quando escrita em chinês, a palavra “crise” (Wéijī, 危机) é composta de dois caracteres: o primeiro representa perigo, e o segundo oportunidade. Vários sinólogos dizem, no entanto, que isso não é verdade. A tradução mais correta seria algo como “Wéi (perigo) + Jī (mudança nos tempos) = crise”.

Independente da etimologia correta, importante mesmo é entender a percepção chinesa de que é necessário encontrar um caminho em meio a crises e mudanças. Para os chineses, só enxerga oportunidades diante de uma crise quem compreende a mudança dos tempos como ciclos, igual à mudança das estações.

A crise do momento no país é o surto do coronavírus (Covid-19), que tem seu epicentro na cidade de Wuhan. Inclusive, a equipe da StartSe na China publica relatos da situação nas redes sociais, como este que gravei aqui de Xangai:

Nesta cobertura, reportamos como o espírito empreendedor chinês converge para a crença de que um modelo de negócios saudável deve ser capaz de atravessar ciclos. A varejista JD, por exemplo, iniciou suas vendas on-line em pleno surto do SARS, em 2003. O Alibaba também lançou o Taobao na mesma época.

Jack Ma, presidente aposentado do Grupo Alibaba, formulou cinco lições sobre como a presente situação apresenta uma oportunidade para os empreendedores se reequiparem e se prepararem para o crescimento que está à frente, quando o surto de Covid-19 for superado:

  1. Otimismo. O empreendedor precisa sempre se questionar qual problema pode resolver e como pode resolver de uma maneira diferente e melhor do que os outros.
  2. Trabalho em equipe. Nunca é demais reforçar que a colaboração entre times pode mudar o jogo.
  3. Sacrifícios. Preparação para resultados a longo-prazo e entrega total ao projeto.
  4. Diferenciação no mercado. “Seja único, pense como você poderá durar 10 anos no mercado enquanto alguns não duram nem 1 ano”.
  5. Não esperar o melhor momento ou as melhores circunstâncias para agir. Quando todas as políticas estiverem prontas e quando o mundo estiver pronto, a janela de oportunidade já estará fechada.

Tecnologia na crise

Como no surto do SARS, no início do século, o Covid-19 exigiu novamente do povo chinês isolamento, mas a economia digital chinesa hoje é certamente muito diferente daquela de quase duas décadas atrás. Por exemplo, WeChat Work, WeLink (Huawei), DingTalk (Alibaba) e Cotovia (ByteDance), entre outros serviços, aprimoraram suas plataformas de videoconferência. Com o aumento exponencial no número de usuários, tiveram que modificar o número máximo de participantes por reunião, fazendo com que educação e trabalho não sejam abandonados neste início de ano.

Ainda, sabe-se que a China é líder em Inteligência Artificial, e não são poucos os analistas que apontam como os avanços nessa área aliados ao controverso sistema de vigilância chinês se mostram muito úteis no gerenciamento da epidemia. Em estações de trem, por exemplo, os algoritmos identificam locais onde há maior aglomeração de pessoas e inclusive são capazes de medir a temperatura corporal de cada passageiro.

Na área da educação, são milhares de professores e alunos descobrindo as melhores ferramentas digitais para realizarem suas aulas on-line pela primeira vez. Talvez o campo mais promissor e que sairá mais fortalecido no momento pós-crise será o de Edtech.

Lições para o Brasil

A história da China é, antes de tudo, uma lição de esperança, porque nos mostra como, ao imaginar um propósito maior e à custa de muito esforço, este país alcançou o posto atual de segunda potência no mundo – e com fôlego para ir muito além. Por outro lado, é também uma lição de lucidez. Os sucessos da China foram frágeis, muitas vezes interrompidos por terríveis crises. Contudo, a ideia de que “tudo pode ser refeito” está enraizada na mentalidade do empreendedor chinês. O sonho chinês foi forjado no esforço pessoal, visão de longo prazo, resiliência, agilidade e capacidade de reinventar-se em alta velocidade.

E nós, brasileiros, empreendedores: será que vamos aprender com o que está acontecendo na China neste momento? Quando desconstruiremos nosso complexo de vira-lata e passaremos a inovar, principalmente em momentos de crise?

Não são poucas as pessoas que me perguntam: “Por que morar na China”? Como objeto de estudo, esse país me fascina. Alguns dizem que o formato do seu território parece com o de uma galinha, mas sua história e feitos me fazem enxergá-lo como uma nação mítica: ora um dragão, com todo seu poder e altivez, e ora uma fênix, ressurgindo das cinzas.