Personalização não convencional no prato das FoodTechs

Juliana Glezer

Por Juliana Glezer

10 de setembro de 2020 às 14:23 - Atualizado há 2 meses

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“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” Fernando Birri, citado por Eduardo Galeano in ‘Las palabras andantes?’ de Eduardo Galeano. Publicado por Siglo XXI, 1994.

Tenho acompanhado o ecossistema de FoodTechs há uma década, sempre refletindo sobre o que vem a seguir. Muitos modelos de negócio aparecem como revolucionários.  E logo perdem a força dando espaço para novas alternativas: de kits para fazer a refeição em casa à extrema conveniência do delivery; das cozinhas high tech aos restaurantes tecnogourmet (tecnologia aplicada a restaurantes que geram a melhor experiência de consumo).

Com tantas oportunidades no prato, vamos conversar sobre alguns caminhos que estão sendo trilhados com o recorte de personalização.

 

Fonte: elaborado pela colunista

Personalização por si só é tema pra muitos debates.  Aqui vamos falar daquela com o objetivo de se auto-otimizar, o chamado biohacking (dominar a nossa própria biologia com práticas não convencionais para modificar o corpo). Estranhou o “não convencional” na descrição? Isso vem justamente da origem do termo que remete ao conceito de se automensurar (quantified self) para obter resultados melhores no próprio corpo por vias nem sempre convencionais. Essa mensuração normalmente é feita por meio de um wearable.

Fonte: Technori

Os wearables ou “dispositivos vestíveis”, em tradução livre, são cada vez mais populares entre as pessoas. O relógio (um dispositivo vestível agarrado ao punho para informar as horas) é o primeiro wearable conhecido. Na evolução desse gadget, vemos wearables para auxiliar esportistas nos treinos, com contagem de distância percorrida, batimentos cardíacos e até calorias gastas durante uma atividade física. Hoje, com comandos de voz e maior acessibilidade, já é possível atender chamadas, enviar mensagens, controlar a agenda e até mesmo a luz ou geladeira através deles.

Em maio de 2020, cerca de 19% da população tinha acesso a esses dispositivos, segundo o Panorama Mobile Time/Opinion Box – Uso de Apps no Brasil. Além de controlarem atividades básicas do dia a dia do usuário, eles permitem compartilhar dados com profissionais, como os de saúde, por exemplo, para ajudar o indivíduo a obter melhores resultados em diversas áreas da vida.

Estes dispositivos estão ficando cada vez mais sofisticados. Hoje, temos o Lumen, que se autodenomina como o primeiro dispositivo para hackear seu metabolismo. O Lumen é uma espécie de bafômetro, que tem sensores de CO2 e indica como o seu corpo está gerando energia com um simples assopro. Com essa informação, ele consegue recomendar para você o melhor tipo de dieta para um determinado momento do dia. O Lumen é só um exemplo do amplo território de diagnóstico e automensuração.  Com as casas cada vez mais conectadas por meio do IoT (internet das coisas) poderemos sofisticar essa etapa da personalização e diminuir a fricção para obter esses dados.

Além dos wearables, outra maneira de fazer o diagnóstico e anamnese de nosso estado nutricional é monitorar isso por meio de algum fluído corporal. Segundo o New Nutrition Business Consumer Survey (2018), 31% dos entrevistados aceitariam fazer um teste de rastreio do microbioma para obter dados mais personalizados de sua dieta. Gente, isso muitas vezes significa mapearem até as fezes para identificar os alimentos que você mais precisa!

Uma vez diagnosticado nosso estágio atual (etapas 1 e 2 do fluxograma acima), entram em cena as FoodTechs que nos ajudam a endereçar essas necessidades particulares, seja com a finalidade de saúde, de estética ou simplesmente de performance. Na próxima década, essas mudanças relacionadas à alimentação são uma das faces de um movimento maior.

Expandiremos os limites conhecidos do que significa ser humano, com interferências em nossa própria atividade genética, para que possamos nos adaptar ao novo ambiente que nos cerca. Além disso, nossas possibilidades de conexão com o mundo também serão ampliadas. Reescreveremos nossas identidades, aumentaremos nossas percepções corporais, intervindo em nossos sentidos e saúde. Em meio a tudo isso, teremos que debater as questões éticas sobre o ponto de equilíbrio desta hiperconexão.

A evolução na próxima década provavelmente estará em dispositivos mais integrados, desde o diagnóstico até a entrega do produto alimentício já finalizado. Já existem alguns protótipos de robôs cozinheiros como o Bot Chef da Samsung e a caixa Do Seu Jeito da Nestlé, que foi o primeiro modelo de personalização das cápsulas de NESCAFÉ Dolce Gusto no mundo. Mas no futuro, estes dispositivos serão ainda mais acurados e acessíveis.

Tenho gostado de assistir o crescimento do setor de tecnologia de alimentos, ou FoodTechs, ao longo dos últimos dez anos, mas tenho certeza de que veremos um crescimento ainda mais significativo na próxima década. Acredito que a tecnologia provará ser o maior catalisador para a solução de problemas críticos em todo o ecossistema alimentar global e estou particularmente animada pelo crescimento contínuo de inovações e estruturas orientadas para a tecnologia em todo o setor de alimentos! Gostaria de ouvir seus pensamentos e reações sobre as tendências desse setor para os próximos anos.