Reino Unido, Brasil e China leram o mesmo dado e responderam em três velocidades. O Brasil acelerou o lado errado.
Reino Unido, Brasil e China leram o mesmo dado e responderam em três velocidades. O Brasil acelerou o lado errado.
, Redator
11 min
•
7 ago 2026
•
Atualizado: 7 ago 2026
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Cortar a vaga de entrada é decisão de trimestre. Recompor o funil que ela alimenta leva meia década. Reino Unido, Brasil e China atravessaram julho de 2026 provando isso, cada um no seu relógio, e nenhum dos três relógios está sincronizado.
Por que isso importa: a empresa que deixa de contratar júnior neste ano não sente nada no resultado deste ano. Sente em 2032, quando o sênior que ela não formou estiver sendo disputado por todo mundo que também não formou.
O mercado britânico não está demitindo em massa. Está deixando de contratar, e a ponta que sente primeiro é a mais barata de não contratar. Estágio, trainee, sazonal.
O pano de fundo é fiscal. A contribuição previdenciária patronal subiu de 13,8% para 15% em abril de 2025, e o limiar a partir do qual ela incide caiu de £9.100 para £5.000 por ano. Contratar ficou estruturalmente mais caro em um país onde mais de um milhão de jovens de 16 a 24 anos já estão fora da escola, do trabalho e de qualquer treinamento.
O governo respondeu em 28 de julho. O primeiro-ministro Andy Burnham anunciou rotas técnicas a partir dos 14 anos, escrevendo no The Times que o país passará a valorizar o capacete tanto quanto o capelo. A implantação começa em setembro de 2028. Quem entrou na universidade este ano se forma antes de a solução existir.
O movimento brasileiro é mais silencioso e chega mais rápido. A Portaria 5.921, publicada em 24 de julho, criou seis perfis novos de referência para a terceirização de TI federal, entre eles o especialista em infraestrutura de inteligência artificial. O cargo não desenvolve modelo. Sustenta o que roda o modelo: clusters de GPU, pipelines de MLOps, bases vetoriais, mecanismos de inferência.
As entrelinhas: a mesma norma revogou o dispositivo que usava o custo salarial do quadro mínimo como parâmetro para barrar propostas inexequíveis. Traduzindo, a fornecedora agora pode entregar com equipe menor por conta da automação, desde que demonstre antes como mantém o nível de serviço. O maior comprador de TI do país passou a pagar por entrega, não por cabeça.
Um detalhe da tabela diz mais que o cargo novo. O maior reajuste percentual da portaria, cerca de 68%, não foi para o especialista em IA. Foi para o técnico júnior em manutenção de equipamentos, que subiu de R$ 1.424,34 para R$ 2.391,38 na referência de custo. O Estado encareceu o degrau de entrada no papel e, no mesmo texto, liberou o fornecedor de precisar dele.
A resposta chinesa começou cinco anos atrás e já terminou. O Ministério da Educação publica anualmente uma lista obrigatória de cursos a eliminar, com base no acompanhamento de empregabilidade dos egressos. Saíram artes, humanidades, línguas e administração. Entraram inteligência incorporada, interfaces cérebro-computador, robótica agrícola. Nove das principais universidades do país abriram graduações em campos que não existiam como curso formal em 2021.
Não é elogio ao modelo. Dentro da China, o pesquisador Chu Zhaohui, da Academia Nacional de Ciências da Educação, aponta que boa parte dos cursos cortados havia sido criada poucos anos antes e não teve tempo de amadurecer. O desemprego entre jovens chineses de 16 a 24 anos, excluindo estudantes, fechou junho em 14,9%. O problema não foi resolvido. Mas foi a única das três respostas que já rodou o ciclo inteiro.
Comparar países dá pouco. Comparar relógios dá o argumento.
A remoção do degrau é rápida, barata e reversível no papel. Uma linha revogada em portaria. Um limiar tributário rebaixado. Um orçamento de contratação cortado no meio do ano. A reconstrução exige currículo, professor, laboratório, parceria com empregador e uma safra inteira de alunos atravessando o sistema. Cinco anos na China, com mecanismo centralizado. Dois anos até o piloto britânico começar.
O Brasil é o único dos três que mexeu na demanda antes de mexer na formação. Autorizou equipe menor em setembro de 2026 sem nenhuma cadência equivalente de requalificação do outro lado. A defasagem entre as duas pontas é o passivo que fica.
Para empresários e CEOs: o quadro júnior é ativo de longo prazo contabilizado como despesa de curto prazo. Vale checar quantas contratações de entrada a empresa fez nos últimos 18 meses e cruzar com a projeção de saída sênior até 2030.
Para altos executivos e diretores: quem fornece TI para o governo federal precisa ler a Portaria 5.921 antes de 1º de setembro. A precificação por headcount perdeu a proteção regulatória que tinha.
Para empreendedores e empresas menores: o caso britânico mostra a arbitragem. Talento júnior bom fica disponível quando as grandes param de contratar, e empresa pequena tem velocidade para absorver e treinar dentro de casa.
Para lideranças de RH: a competência que mais cresce nos anúncios é justamente a que nenhum diploma certifica. Trilha interna de IA deixou de ser benefício e virou infraestrutura de contratação.
Os três países leram o mesmo dado. Um marcou a correção para 2028, outro já entregou a dele, e o terceiro liberou o corte sem ter marcado nada. A diferença entre esses calendários não aparece em nenhum balanço deste ano. Aparece na disputa por gente formada daqui a cinco.
Checagem dos fatos
Para ir mais fundo: levantamento do Indeed Hiring Lab, via Reuters · Portaria SGD/MGI nº 5.921, no Ministério da Gestão · a reforma que trocou 12 mil cursos na China
Para a liderança que precisa traduzir esse descompasso em decisão de quadro e de orçamento, o AI Journey trabalha o redesenho de funções e estruturas diante da IA.
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