Paulo Silveira, CVO da Alura, trouxe dados, provocações e um mapa prático para quem quer ser ampliado pela IA, mesmo que não queira virar engenheiro
Paulo Silveira, CVO da Alura: vivemos a era dos Citizens Developers
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8 min
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14 mai 2026
•
Atualizado: 14 mai 2026
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Paulo Silveira subiu ao palco do AI Festival 2026 com uma das perguntas mais fortes do evento: qual é o custo atual de uma linha de código? A resposta implícita na pergunta é o que guiou a palestra. Quando o custo de uma linha de código tende a zero, o que sobra de valor para quem trabalha com tecnologia? Como medir?
A provocação não é nova. Em 2016, uma frase já circulava no mercado: "você não é pago para escrever código." Silveira a trouxe de volta, mais urgente do que nunca. Se antes era uma reflexão sobre foco e estratégia, hoje é uma realidade operacional.
A IA escreve código. O dev é pago pra resolver problemas.
Os dados que derrubam a narrativa do apocalipse
Antes de qualquer tese sobre o futuro, Silveira foi aos números. Entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, segundo dados do Indeed compilados pelo FRED, as vagas para desenvolvimento de software nos EUA cresceram 10%. No mesmo período, o total de vagas em todas as outras áreas caiu 5,8%. A narrativa do "fim dos desenvolvedores" não encontra respaldo nos dados — ao contrário, o mercado está pedindo mais pessoas que saibam construir com tecnologia, não menos.
Para reforçar o argumento, Silveira exibiu manchetes do Financial Times, Wall Street Journal, Bloomberg e New York Times, todas questionando a narrativa catastrofista — e uma publicação de Andrew Ng que resume o ponto: a história do trabalho mostra que novas ferramentas ampliam os melhores profissionais, não os substituem.
Quando a calculadora chegou, bons matemáticos ficaram mais valiosos. Quando o Canva chegou, grandes designers ficaram mais valiosos. Quando a IA escreve código, engenheiros que realmente entendem o que estão fazendo ficam insubstituíveis. Porque quando os sistemas quebram, prompts não salvam ninguém. Entendimento salva.
O problema real: decidir o que construir
Silveira trouxe ao público uma citação de Fred Brooks, do clássico The Mythical Man-Month: "A parte mais difícil de construir um sistema de software é decidir precisamente o que construir." A frase tem décadas — e nunca foi mais verdadeira do que agora. Quando a execução técnica se democratiza, a escassez migra para a clareza sobre o problema. Quem sabe o que construir, e por quê, vira o recurso mais raro.
É nesse ponto que Silveira posiciona o conceito central da palestra: o Builder.
Não o engenheiro especialista, não o dev tradicional — mas o profissional que combina domínio do negócio com capacidade de construir soluções usando tecnologia. A Alun, através da plataforma Alun, enxerga 1 bilhão de profissionais no mundo em 2030 organizados em camadas concêntricas: engenheiros especialistas no núcleo, devs com IA numa camada intermediária, profissionais de negócios usando tecnologia numa camada mais ampla, e os Builders — profissionais de qualquer área que conseguem criar soluções — como a maior e mais nova fronteira.
Os três níveis do Builder
Silveira estruturou uma escala prática para orientar quem quer se posicionar nessa nova realidade, sem necessariamente virar engenheiro:
O Nível 1 é o Citizen Automator: você, sozinho, na sua rotina. Planilhas, e-mails, briefings, relatórios. A ferramenta indicada é o Lumina. É o ponto de entrada — automatizar o próprio trabalho antes de automatizar o dos outros.
O Nível 2 é o Operador de Agentes: seu time híbrido. Protótipos internos, MVPs, fluxos de IA na operação. Aqui o profissional já não apenas usa ferramentas — ele orquestra agentes para entregar produtos e processos.
O Nível 3 é o Builder T-shaped: entendimento amplo do negócio além da especialização. É o profissional que transita entre domínios, usa IA para construir onde antes precisaria de um time inteiro, e enxerga o problema antes de pensar na solução.
A crise da narrativa — e o que o líder precisa ser
Um slide chamou atenção pela profundidade: um trecho do livro Humanos, de Piero Franceschi, sobre liderança na era da IA. "O líder que apenas informa não lidera. Ele administra fluxo de dados. Ser narrador do trabalho é assumir uma função esquecida e decisiva da liderança contemporânea. O narrador não se limita a repassar metas ou distribuir tarefas. Ele traduz motivos. Conecta atividades a intenções."
A escolha do trecho deixa o recado de que num mundo onde a IA executa, o diferencial humano é a narrativa. Ou seja, dar sentido ao trabalho, conectar as pessoas ao propósito, explicar por que aquele projeto existe e qual o papel de cada um naquela construção. Mobilizar.
A pergunta que ficou no palco
Silveira encerrou com uma questão endereçada diretamente a quem estava na plateia e sabe que não vai virar engenheiro: "Mas eu, que não vou virar engenheiro, posso ser ampliado?" A resposta da palestra inteira foi sim, mas com uma condição. Não basta usar IA. O futuro pertence a quem consegue pensar sem ela. Quem entende o problema profundamente o suficiente para saber quando a IA está certa, quando está errada, e o que fazer quando ela falha.
O Citizen Developer, conceito apresentado por Silveira como a democratização da educação em tecnologia para que qualquer pessoa possa criar soluções, tem quatro zonas de atuação: a Zona Segura (ponto ideal, com autogovernança), o Suporte (co-criação com desenvolvedores e governança flexível), o Perigo (requer acompanhamento de TI antes da liberação) e Fora dos Limites (restrito à área de TI). O mapa existe para orientar — não para limitar.
A fronteira entre as profissões caiu.
O que diferencia quem aproveita isso de quem se perde nessa fronteira é exatamente o que sempre diferenciou os melhores profissionais: saber o que estão construindo, e por quê.
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Bruno Lois
, Editor
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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