O maior IPO da história perdeu quase metade do valor de pico em pouco mais de um mês — e a queda tem menos a ver com o negócio em si do que com mecânica de mercado
Ações em baixa: o foguete está dando ré?
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17 jul 2026
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Atualizado: 17 jul 2026
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Na quarta-feira, 15 de julho, as ações da SpaceX caíram abaixo dos US$ 135 — o preço fixado no IPO da empresa, realizado em 11 de junho — pela primeira vez desde a estreia em bolsa. A queda prolonga um tombo que já havia sido sinalizado dias antes: a CNBC noticiou no domingo que o papel estava "se aproximando" desse piso após sessões consecutivas de perda, incluindo recuos de 4,51% na sexta-feira e 4,24% na segunda-feira. No fechamento de quarta, os papéis acumulam queda de aproximadamente 40% em relação ao pico pós-estreia de cerca de US$ 225.
Para uma empresa que, há pouco mais de um mês, protagonizou a maior oferta pública da história americana, essa reversão levanta uma pergunta que interessa a qualquer investidor: o mercado está reprecificando o negócio, ou apenas absorvendo o excesso de euforia da estreia.
A SpaceX precificou sua oferta a US$ 135 por ação em 11 de junho, vendendo mais de 555 milhões de papéis para arrecadar cerca de US$ 75 bilhões — número que, após o exercício da opção de sobre-alocação pelos bancos coordenadores, se aproximou de US$ 86 bilhões, consolidando o maior IPO já realizado nos Estados Unidos. As ações abriram a US$ 150 no primeiro dia de negociação, em 12 de junho, e chegaram a subir cerca de 50% acima do preço de oferta na primeira semana, levando a capitalização de mercado da empresa a superar US$ 2,25 trilhões — um patamar que outras gigantes trilionárias, como Nvidia e Apple, levaram anos para atingir.
A reversão começou no final de junho, quando uma queda de 16% em uma única sessão apagou aproximadamente US$ 400 bilhões em valor de mercado — segundo o Dow Jones Market Data, a segunda maior perda em um único dia já registrada por uma empresa americana. Desde então, o papel tem lutado para se recuperar, atingindo sucessivas mínimas históricas ao longo de julho.
Dois eventos específicos ajudam a explicar por que a queda se acelerou, além do simples esfriamento natural do entusiasmo de estreia. O primeiro foi a decisão da SpaceX de lançar uma oferta de títulos de dívida de US$ 20 bilhões em 22 de junho — apenas dez dias após o IPO —, posteriormente ampliada para US$ 25 bilhões, destinada a financiar infraestrutura de inteligência artificial e quitar empréstimos-ponte. Levantar bilhões em dívida tão pouco tempo depois de captar dezenas de bilhões em ações levantou, entre investidores, questionamento direto sobre a disciplina de alocação de capital da empresa: por que precisar de tanto financiamento adicional logo após uma captação recorde.
O segundo gatilho é mais estrutural e ainda não se materializou por completo: o calendário escalonado de lock-up. O primeiro lote de ações de insiders, referente ao período de restrição dos subscritores, deve ficar liberado para venda por volta de setembro de 2026, noventa dias após a listagem. Uma onda muito maior — cerca de 1,3 bilhão de ações — se torna elegível para venda depois da divulgação de resultados do terceiro trimestre, entre outubro e novembro. Segundo Steve Sosnick, estrategista-chefe de mercados da Interactive Brokers, uma ação cair alguns dólares abaixo do preço de IPO não é, isoladamente, uma tragédia — mas o mercado está de olho no volume de papel que pode ser despejado à venda quando essas travas expirarem, o que ajuda a explicar por que o preço já reage com antecedência a um evento que ainda não aconteceu.
Apesar da queda acumulada, o consenso de analistas que cobrem o papel segue majoritariamente otimista. O Morgan Stanley mantém preço-alvo de US$ 300. A Evercore ISI iniciou cobertura nesta semana com alvo de US$ 230, classificando a ação como "irresistível demais para ignorar". O Goldman Sachs adota postura mais conservadora, com alvo de US$ 205. A média das projeções de mercado gira em torno de US$ 242 — o que implica valorização de cerca de 77% em relação aos níveis atuais. Bancos como BTG Pactual, Citi e Bank of America também iniciaram cobertura com recomendação de compra, na mesma linha.
A tese por trás desse otimismo generalizado não está no ritmo de lançamento de foguetes, mas no que os analistas descrevem como o verdadeiro motor de valor da empresa: a geração de receita recorrente da Starlink, o potencial de posição quase monopolista da Starship no mercado de lançamentos orbitais, e a aposta da SpaceX em infraestrutura de inteligência artificial. Uma análise do Yahoo Finance, publicada em 13 de julho, classificou o papel como "manutenção", justamente por considerar que essa tese de longo prazo permanece intacta mesmo com a volatilidade recente do preço.
A divergência entre a queda no preço e a confiança mantida por Wall Street ilustra um padrão comum em IPOs de grande porte: o preço de curto prazo tende a refletir mecânica de oferta e demanda — volume de ação disponível, expectativa sobre lock-up, ruído em torno de decisões financeiras recentes — enquanto o preço-alvo dos analistas tenta capturar o valor fundamental do negócio ao longo de vários anos. Essas duas leituras não precisam coincidir no curto prazo, e frequentemente não coincidem logo após uma estreia marcada por euforia inicial seguida de correção.
Isso não significa que o mercado esteja errado e os analistas certos, ou vice-versa. Significa que o preço atual da SpaceX carrega, simultaneamente, um sinal genuíno de cautela sobre alocação de capital — a dívida levantada tão perto do IPO é um dado concreto, não especulação — e um efeito técnico esperado, ligado ao calendário de liberação de ações que ainda não terminou de se manifestar.
Para quem acompanha o papel, os próximos marcos relevantes são conhecidos com antecedência e não deveriam ser tratados como surpresa quando chegarem: a expiração do primeiro lote de lock-up em setembro, a divulgação de resultados do terceiro trimestre entre outubro e novembro, e a liberação da onda maior de ações logo depois disso. Cada um desses eventos tende a gerar pressão adicional de oferta sobre o papel, independentemente de qualquer notícia operacional da empresa nesse período.
O padrão histórico de IPOs de grande porte que caem abaixo do preço de oferta pouco depois da estreia — e depois se recuperam ao longo de meses, conforme o excesso de oferta é absorvido pelo mercado — é justamente o argumento usado pelos analistas mais otimistas para justificar preço-alvo tão distante da cotação atual.
Esse tipo de leitura — separar sinal de ruído numa queda de mercado, e diferenciar decisão de capital genuína de reação técnica de curto prazo — é exatamente o tipo de rigor analítico que o Board Program da StartSe leva a conselheiros e lideranças que avaliam decisões de capital, IPO e alocação de dívida com a mesma disciplina que qualquer conselho deveria aplicar antes de aprovar uma captação bilionária logo após outra.
Se esse padrão se repetir com a SpaceX, dependerá menos do próximo lançamento de foguete e mais da capacidade da empresa de comunicar, com clareza, por que precisou de US$ 25 bilhões em dívida adicional tão perto de uma captação de US$ 86 bilhões — e de o mercado absorver a próxima onda de ações liberadas sem gerar uma nova rodada de venda desordenada.
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Bruno Lois
, Editor
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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