Estudo da Jabra com 6 mil profissionais mostra que quem mais usa IA passa mais tempo em tarefas administrativas e de coordenação. A agenda engoliu a economia.
Homem usando agenda no notebook (foto: @zanilic/Unsplash)
, Redator
7 min
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28 out 2026
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Atualizado: 28 out 2026
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A promessa era simples: a inteligência artificial faria o trabalho chato e sobraria tempo para o que importa. Os funcionários confirmam a primeira parte. Segundo o relatório de adoção de IA da Wharton com a GBK Collective, 84% dos profissionais que usam IA dizem que ela economiza tempo.
A segunda parte é que ninguém encontra esse tempo.
Um estudo encomendado pela Jabra e feito pela Toluna com mais de 6 mil profissionais do conhecimento em seis países, reportado pela Digital Reviews Network, mostra que 85% passaram a dedicar mais tempo a pelo menos uma categoria de trabalho nos últimos 12 meses. Só 35% passaram a dedicar menos tempo a alguma.
Não, segundo a pesquisa, está trabalhando em mais coisas. Entre os usuários intensivos de IA, 57% dizem passar mais tempo em trabalho administrativo e de coordenação. Entre quem usa pouco ou nada, são 38%.
O padrão se repete em outras frentes. Criação de conteúdo: 56% contra 30%. Planejamento estratégico: 56% contra 35%. Até tarefas rotineiras de execução, justamente as que a IA deveria absorver: 45% contra 33%.
O próprio estudo faz uma ressalva honesta: os dados são autodeclarados e não provam que a IA cause o aumento de trabalho. Quem usa mais IA também pode ser quem tem cargos mais complexos. Mas, para quem lidera, a falta de causalidade não muda o retrato: a economia de tempo prometida não está aparecendo nas agendas.
Porque produzir ficou barato, e coordenar continua caro. Quando cada pessoa consegue gerar um relatório, uma análise ou uma apresentação em minutos, o volume de material circulando explode. Alguém precisa ler, revisar, alinhar, decidir. Isso vira mensagem, reunião, comentário em documento.
A pesquisa da Jabra mostra o efeito colateral: 64% dos usuários intensivos de IA dizem colaborar mais com colegas do que há um ano, contra 25% dos usuários leves.
Colaborar mais pode ser ótimo. O mesmo estudo mostra que 63% de quem usa IA várias vezes ao dia sente a conexão com o time melhorar. Mas colaboração sem critério tem outro nome: agenda lotada.
Em boa parte, a própria empresa, por desenho. O Relatório Global da Força de Trabalho da Workday, divulgado em outubro, mostra que 40% dos líderes esperam que a IA ajude a “extrair mais” dos funcionários atuais.
Não há nada de errado nisso, desde que o “mais” seja mais valor, e não só mais volume. A Wharton mostrou que equipes que medem a IA apenas por horas economizadas têm resultados bem piores do que as que medem crescimento: 13% contra 35% relatam retorno muito positivo.
Tempo economizado que vira mais reunião não é ganho de produtividade. É transferência de custo de uma coluna para outra.
Não. A pesquisa da Jabra mostra um fosso entre o topo e a base. Na alta gestão, 30% são usuários intensivos de IA, contra 8% dos colaboradores individuais. E 47% dos altos executivos dizem que a IA mudou de forma significativa ou fundamental o próprio trabalho, contra 18% dos colaboradores.
O risco está aí. Executivos que usam muito a ferramenta produzem mais material, pedem mais análises e disparam mais alinhamentos. A agenda de quem está abaixo absorve o impacto. O líder sente que ficou mais produtivo, e o time sente que ficou mais ocupado.
Primeiro, tratar a agenda como recurso escasso, com o mesmo rigor de um orçamento. Cada reunião tem um custo, em horas de pessoas caras, e esse custo raramente aparece em algum relatório.
Segundo, redesenhar os rituais e não só as tarefas. Se a IA gera o resumo, a reunião de alinhamento pode virar um documento assíncrono. Se o relatório fica pronto em minutos, a revisão precisa de um dono, e não de cinco comentaristas.
Terceiro, decidir explicitamente para onde vai o tempo liberado. Clientes, estratégia, desenvolvimento do time ou descanso: qualquer resposta é melhor do que deixar a agenda decidir sozinha.
Faça a conta da última semana. Some as horas em reuniões, alinhamentos, revisões e mensagens, e compare com as horas em que você de fato decidiu, criou ou falou com um cliente. Se a IA entrou na sua rotina e essa proporção piorou, o tempo economizado foi parar no lugar errado. Medir esse custo e reorganizar a agenda da liderança para 2027 será o tema da Master Talk de IA, no dia 5 de novembro. Não vai ter replay. Mas você pode garantir o seu acesso gratuito aqui.
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