Fazer tudo ao mesmo tempo deixou de ser eficiência e passou a ser risco organizacional
O que era visto como bom, passou a ser percebido como poder centralizado.
, Editor
9 min
•
19 jun 2026
•
Atualizado: 19 jun 2026
newsletter
Start Seu dia:
A Newsletter do AGORA!
Durante décadas, a capacidade de gerenciar múltiplas frentes ao mesmo tempo foi tratada como um diferencial executivo. Reuniões simultâneas, decisões paralelas, e-mails respondidos entre uma call e outra — tudo isso compunha a imagem do líder capaz. O problema é que a neurociência e os dados de performance organizacional apontam na direção oposta. A multitarefa não só reduz a produtividade como compromete a qualidade das decisões em exatamente o ponto onde o líder deveria ser mais preciso.
Pesquisas reunidas pela Harvard Business Review indicam que o excesso de multitarefa reduz a produtividade individual em até 40%. Estudos da American Psychological Association reforçam que o cérebro humano não executa tarefas cognitivas complexas em paralelo — o que ocorre, na prática, é uma alternância rápida entre focos, com um custo de reentrada a cada troca. Para um gestor que toma dezenas de decisões por dia, esse custo se acumula de formas que raramente aparecem nos relatórios de desempenho.
Por que o modelo chegou ao limite em 2026
O aumento da complexidade operacional e a aceleração tecnológica tornaram o ambiente de decisão mais exigente, não mais tolerante. O relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta que 39% das habilidades dos trabalhadores devem mudar até 2030 — e que 86% dos empregadores preveem que a inteligência artificial transformará seus modelos de negócio. Nesse cenário, o papel da liderança se torna mais estratégico, mais dependente de julgamento humano qualificado e menos compatível com a dispersão cognitiva.
O relatório SHRM 2026 State of the Workplace, que ouviu mais de 2.000 trabalhadores e 1.856 profissionais de RH nos Estados Unidos, confirma que a qualidade da liderança continua sendo o principal motor de resiliência organizacional. E qualidade de liderança, no contexto atual, significa decisões mais rápidas, mais assertivas e com menor margem de erro — o oposto do que a gestão dispersa produz.
A inteligência artificial acentuou essa exigência. Quando algoritmos processam dados com eficiência que nenhum humano alcança, o diferencial do executivo deixa de ser analítico e passa a ser decisório. O líder que ainda distribui sua atenção entre tarefas operacionais está competindo com ferramentas que sempre ganharão nessa comparação.
Uma das razões pelas quais o modelo de liderança multitarefa persistiu por tanto tempo é que seus custos raramente aparecem de forma direta. A perda de produtividade por context switching — a troca frequente entre tarefas — não gera um relatório mensal. O que aparece são sintomas: decisões revertidas, projetos entregues fora do prazo, reuniões que não chegam a conclusões, equipes que não recebem direcionamento claro.
Pesquisa da MIT Sloan Management Review sobre produtividade em ambientes de trabalho intensivos mostrou que há um ponto de inflexão claro: até um certo nível, trabalhar em múltiplos projetos simultâneos aumenta a produtividade. Acima desse limite, o resultado se inverte. O que chama atenção é que os profissionais que mais perdem com a multitarefa são, com frequência, aqueles que acreditam ser bons nisso.
Para as organizações, o custo mais silencioso é o impacto sobre o desenvolvimento de equipes. O líder que divide a atenção entre dez frentes raramente consegue dedicar qualidade ao acompanhamento de seus liderados. O resultado, documentado pelo Kestria Global Leadership Barometer 2025, é uma escassez crescente de lideranças intermediárias capazes de agir com autonomia — exatamente porque não foram desenvolvidas por gestores que tinham tempo e foco para isso.
A mudança não é sobre fazer menos. É sobre fazer o que importa com profundidade suficiente para gerar resultado. Líderes de alta performance estão redesenhando sua agenda com base em priorização real, não aparente. A diferença prática: em vez de 15 reuniões semanais com presença superficial, cinco reuniões com presença e decisão. Em vez de respostas imediatas para tudo, critérios claros sobre o que merece resposta imediata.
O modelo que está ganhando espaço nas empresas mais competitivas é o do líder facilitador — aquele que cria condições para que as equipes operem com autonomia e remove obstáculos com precisão. Não centraliza, mas direciona. Não resolve tudo, mas define o que precisa ser resolvido. Essa transição exige clareza sobre papéis, processos de delegação bem estruturados e, principalmente, uma revisão do que conta como trabalho de liderança.
Empresas que avançaram nessa direção reportam melhora em dois indicadores que costumam andar juntos: retenção de talentos e velocidade de execução. O dado do relatório SHRM 2026 ilustra a correlação: 91% dos trabalhadores em organizações onde a liderança é percebida como eficaz reportam satisfação no trabalho, contra 44% naquelas onde a liderança é vista como ineficaz. A liderança não é dado de RH. É dado de negócio.
A mudança começa por um diagnóstico honesto da própria agenda. Quantas horas semanais o executivo dedica a tarefas que outra pessoa poderia executar com o direcionamento correto? Qual percentual do tempo é reservado para pensamento estratégico sem interrupção? Quais decisões estão sendo postergadas por falta de foco, não por falta de informação?
A partir desse mapeamento, três movimentos práticos têm apresentado resultados consistentes: blocos de trabalho protegidos de interrupções para as decisões de maior impacto; critérios de delegação explícitos para que equipes avancem sem precisar de aprovação em cada etapa; e revisão periódica da agenda para eliminar reuniões e processos que consomem atenção sem gerar valor correspondente.
Para líderes que buscam desenvolver essas competências de forma estruturada, o Executive Program da StartSe oferece uma abordagem prática voltada para a agenda real do executivo — com foco em tomada de decisão, gestão de equipes e liderança em ambientes de alta complexidade. Para quem atua em conselhos ou aspira a essa posição, o Board Program estrutura as competências específicas para governança e influência estratégica.
O líder que ainda tenta fazer tudo ao mesmo tempo não está sendo mais produtivo. Está sendo menos estratégico. E em um ambiente onde a inteligência artificial avança sobre as tarefas operacionais com eficiência crescente, a atenção do executivo se torna o recurso mais escasso e mais valioso da organização.
Gostou deste conteúdo? Deixa que a gente te avisa quando surgirem assuntos relacionados!
Bruno Lois
, Editor
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
Leia o próximo artigo
newsletter
Start Seu dia:
A Newsletter do AGORA!