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O emblemático cavalinho da Ferrari agora precisa de um carregador

São novos e elétricos tempos no mercado automotivo mundial. Quem um dia diria que o ronco do motor Ferrari daria lugar a um silencioso, porém potente, motor elétrico?

O emblemático cavalinho da Ferrari agora precisa de um carregador

Ferrari Luce, o primeiro elétrico da Scuderia

Bruno Lois

, Editor

8 min

27 mai 2026

Atualizado: 27 mai 2026

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Quando a marca mais icônica do automobilismo mundial abandona décadas de resistência ao elétrico, algo fundamental mudou. Não só na Ferrari, mas no que significa fazer um carro de luxo no século XXI.

Havia uma promessa não escrita no DNA da Ferrari: o motor a combustão não era apenas uma opção técnica, era a alma da marca. O ronco do V12, o calor do V8, a mecânica exposta como arte — tudo isso compunha uma identidade que resistiu por décadas a pressões de mercado, regulações ambientais e tendências de consumo. 

A Ferrari era, deliberadamente, a última a ceder. Na última segunda-feira, essa promessa foi formalmente encerrada.

O novo modelo se chama Luce — palavra italiana para "luz" — e foi desenvolvido em colaboração com Jony Ive, o antigo chefe de design da Apple, e sua equipe LoveFrom. Não é um carro qualquer. A Ferrari iniciou um novo capítulo em sua história ao revelar o Luce, seu primeiro automóvel totalmente elétrico de produção, com mais de 1.000 cv de potência e autonomia superior a 500 quilômetros. E, pela primeira vez na história da marca, trata-se também do primeiro Ferrari com cinco lugares, concebido para atrair famílias com elevado poder de compra, oferecendo bancos de conforto, tecnologia avançada e uma bagageira com 600 litros.

Uma Ferrari. Com porta-malas de 600 litros. Beira o inacreditável. 

O que é, tecnicamente, o Luce

Os números impressionam por qualquer métrica. O Luce opera com quatro motores elétricos em tração integral, entrega 1.113 cavalos de potência, carrega uma bateria de 122 kWh com carregamento de até 350 kW e tem autonomia de 530 quilômetros. Tudo isso sobre uma plataforma de 880 volts desenvolvida exclusivamente para este modelo — arquitetura inédita, construída do zero em Maranello.

A fabricante afirma que o carro oferece respostas táteis e acústicas cuidadosamente calibradas para preservar parte da identidade Ferrari, mesmo sem os famosos motores V8 ou V12. Em outras palavras: a Ferrari passou cinco anos tentando criar a sensação de uma Ferrari sem o que sempre fez uma Ferrari ser uma Ferrari.

"É o resultado de cinco anos de trabalho", afirmou o presidente executivo Benedetto Vigna, perante mais de 200 jornalistas reunidos em Roma.

O paradoxo do momento

O lançamento ocorre em um momento em que algumas montadoras revisam seus planos de eletrificação diante da desaceleração da demanda em determinados mercados e da crescente concorrência das fabricantes chinesas. Rivais como Lamborghini e Porsche reduziram seus planos de expansão no segmento devido à demanda abaixo do esperado.

Mas a Ferraria é a Ferrari. E ela foi na direção contrária. O mercado financeiro respondeu na hora. E não gostou muito do que viu. As ações da Ferrari caíram 7,7% nas primeiras negociações de terça-feira, em Milão. As reações públicas ao design, observadas nas redes sociais, também foram desfavoráveis.

Para uma empresa que havia se tornado uma das ações mais valorizadas da Europa nos últimos anos tomar um sufoco de cair 7,7% é um sinal de que o mercado não está convicto de que a Ferrari elétrica é a Ferrari que as pessoas pagam meio milhão de euros para ter.

O preço e o público

O preço inicial na Europa parte de cerca de 550 mil euros, equivalente a aproximadamente R$ 3,5 milhões em conversão direta. As primeiras entregas estão previstas para o final de 2026.

O diretor de marketing da Ferrari, Enrico Galliera, avaliou que a demanda pelo novo veículo "está crescendo em várias partes do mundo e entre pessoas de todas as idades". Para ele, "o Luce também atrai clientes tradicionais da Ferrari porque é o primeiro carro elétrico da marca, quase um item de colecionador, além de apresentar tecnologia extraordinária".

Aqui está a estratégia nua: transformar a novidade em raridade, e a raridade em desejo. É o mesmo manual que a Ferrari usa há décadas — mas aplicado a uma categoria de produto que ainda não provou que funciona com essa lógica.

O que o Luce representa além do carro

Há uma leitura mais ampla e mais interessante neste lançamento. A Ferrari sempre foi o caso extremo de como uma marca pode se recusar a seguir tendências sem perder relevância. Ela disse não ao SUV durante anos, depois lançou o Purosangue e provou que estava certa ao esperar. Ela disse não ao elétrico durante anos, depois lançou o Luce — e aí a questão é: chegou na hora certa ou tarde demais?

A resposta virá no quarto trimestre de 2026, quando as primeiras unidades forem entregues. Virá nas filas de espera — ou na ausência delas. Virá nas conversas de quem sempre sonhou com uma Ferrari mas nunca caberia em dois lugares.

Porque é isso que o Luce tenta fazer: ampliar a família Ferrari para quem tem filhos, quem prefere um motorista, quem quer um carro que seja declaração de riqueza sem precisar ser declaração de adrenalina. É uma Ferrari para quem nunca compraria uma Ferrari — e essa pode ser exatamente a genialidade ou o erro fatal do projeto.

A Ferrari apostou que, com o Luce, ela está acendendo o futuro. A bolsa, por enquanto, preferiu apagar. Mas o mercado muda de rumo mais rápido do que uma troca de pneus de Lewis Hamilton. Vamos acompanhar.

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Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.

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