A pergunta que interessa a qualquer board não é se a aposta em IA vai dar certo, mas se alguém no colegiado tinha autoridade real para questionar o tamanho do cheque
Meta acumula queda de 91% no fluxo de caixa com gastos em IA
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7 min
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30 jul 2026
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Atualizado: 30 jul 2026
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Antes de qualquer análise sobre inteligência artificial, existe uma pergunta de governança que a maioria dos conselhos evita fazer: quem, dentro da companhia, tinha mandato para dizer não a esse volume de investimento? O caso Meta, divulgado nesta quarta-feira (29), é o retrato mais recente de uma dinâmica que qualquer conselheiro brasileiro deveria estudar de perto, e é exatamente esse tipo de leitura que o Board Program da StartSe foi desenhado para desenvolver: a capacidade de supervisionar apostas tecnológicas de alto risco antes que elas apareçam, tarde demais, no resultado.
A Meta Platforms reportou uma queda acentuada de 91% no fluxo de caixa livre do segundo trimestre, evidenciando a pressão financeira sobre a empresa devido ao seu dispendioso projeto de inteligência artificial, apesar da incerteza quanto ao retorno do investimento. A companhia controladora do Facebook registrou fluxo de caixa livre de US$ 784 milhões no trimestre encerrado em 30 de junho, uma queda em relação aos US$ 8,55 bilhões reportados um ano antes, o que derrubou as ações em 10% nas negociações após o fechamento do mercado. O colapso do fluxo de caixa da Meta refletiu o da Alphabet, que na semana anterior anunciou ter fluxo de caixa negativo pela primeira vez na história, após gastar US$ 5,9 bilhões no trimestre, um ritmo de gastos que surpreendeu até os investidores mais otimistas de Wall Street.
Isso não é um acidente contábil isolado. É um padrão que se repete entre as maiores empresas de tecnologia do mundo, e que revela algo estrutural sobre como decisões de capital em IA estão sendo tomadas hoje: com velocidade de mercado, mas sem o mesmo rigor de governança que qualquer outro investimento dessa magnitude exigiria.
A receita da Meta saltou 28%, para US$ 60,8 bilhões no trimestre, o ritmo de crescimento mais rápido desde o quarto trimestre de 2021, com exceção do primeiro trimestre de 2026. A empresa também elevou a extremidade inferior de sua previsão de despesas de capital para 2026, agora entre US$ 130 bilhões e US$ 145 bilhões, ante a previsão anterior de US$ 125 bilhões a US$ 145 bilhões, um valor que, no início do ano, era estimado entre US$ 115 bilhões e US$ 135 bilhões. O CEO Mark Zuckerberg afirmou, em teleconferência, que espera que parcela significativa da capacidade computacional da empresa seja destinada ao treinamento de modelos, ao crescimento dos negócios principais e à entrega de agentes pessoais e novos produtos.
O padrão de revisão sucessiva do orçamento de capital para cima, sempre justificado por otimismo estratégico, é precisamente o tipo de decisão que deveria passar por um filtro de governança mais rigoroso do que aprovação em teleconferência de resultados. Prevê-se que os gastos das grandes empresas de tecnologia com IA ultrapassem os US$ 700 bilhões neste ano, enquanto o Morgan Stanley estimou os gastos em mais de US$ 1 trilhão para o próximo ano.
Enquanto os investidores examinam de perto os gastos da Meta com IA, a empresa enfrenta riscos legais relacionados ao seu negócio principal: quatro estados americanos buscam indenizações de US$ 1,4 trilhão por acusações de que a empresa projetou Facebook e Instagram para viciar jovens usuários e enganar o público sobre a segurança das plataformas. A diretora financeira da companhia afirmou que o lucro operacional teria crescido 9% no trimestre, não fossem os custos legais e as indenizações rescisórias, mas, na prática, o lucro operacional caiu 8%.
Um conselho que aprova bilhões em capex de IA sem simultaneamente monitorar exposição jurídica de trilhão de dólares no negócio principal não está exercendo supervisão. Está reagindo a manchetes de trimestre em trimestre.
Antes de aprovar o próximo ciclo de investimento em tecnologia, qualquer conselho deveria responder três perguntas concretas: qual é o teto de queima de caixa que o colegiado está disposto a tolerar antes de exigir prova de retorno, quem tem autoridade formal para pausar ou revisar esse investimento no meio do caminho, e como riscos regulatórios e jurídicos paralelos estão sendo monitorados com o mesmo rigor do capex tecnológico.
É esse tipo de repertório de supervisão, que vai além de aprovar relatórios de inovação, que o Board Program da StartSe constrói em conselheiros e executivos que se preparam para essas cadeiras.
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Bruno Lois
, Editor
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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