Para a Presidente do Conselho do Magalu, diversidade nos times de inteligência artificial não é agenda de inclusão. É uma decisão técnica e estratégica que vai definir quem a tecnologia vai servir e quem ela vai prejudicar
Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho do Magalu
, redator(a) da StartSe
8 min
•
19 mar 2026
•
Atualizado: 19 mar 2026
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A inteligência artificial não é neutra. Ela aprende com dados. E os dados foram produzidos em um mundo historicamente desigual. Essa é a premissa central do alerta que Luiza Trajano, presidente do Conselho do Magazine Luiza e fundadora do Grupo Mulheres do Brasil, vem fazendo com crescente urgência: se as mulheres não estiverem dentro dos projetos de IA — programando, liderando, decidindo — a tecnologia vai sistematizar e escalar os mesmos preconceitos que já existem no mundo real.
Não é uma preocupação abstrata. É um risco concreto, com consequências mensuráveis para empresas, consumidores e para a sociedade inteira.
O problema está na origem
Modelos de inteligência artificial são treinados com base em padrões históricos. Quando esses padrões refletem décadas de sub-representação feminina no mercado de trabalho, na ciência, na liderança e na tomada de decisão, o algoritmo aprende que esse desequilíbrio é a norma. E passa a reproduzi-lo — em processos seletivos, em concessões de crédito, em diagnósticos médicos, em recomendações de conteúdo.
A solução não começa no algoritmo. Começa em quem está na sala quando o algoritmo é desenhado.
"Precisamos de mais mulheres programando, mais mulheres liderando projetos e participando das decisões sobre inteligência artificial", disse Trajano. A afirmação parece simples. O desafio de executá-la, não.
Tecnologia como ferramenta de emancipação — ou de exclusão
Trajano reconhece o potencial transformador da tecnologia para as mulheres. Vender pela internet, estudar online, criar um negócio digital, acessar mercados antes restritos — tudo isso representa uma abertura real de oportunidades. Mas esse potencial só se realiza com acesso e formação. Sem inclusão deliberada, a tecnologia não democratiza. Ela concentra.
"Tecnologia sem inclusão pode ampliar desigualdades. Com inclusão, ela transforma vidas." A distinção é precisa — e ignorada com frequência nas estratégias corporativas de inovação.
Desigualdade salarial: o problema que já tem solução
Em um ponto, Trajano é categórica e deixa pouco espaço para debate. A diferença salarial entre homens e mulheres que ocupam os mesmos cargos não é um problema estrutural sem saída. É uma decisão de gestão. Quando existe compromisso real da liderança, o ajuste acontece. O que falta, na maior parte dos casos, não é a solução. É a prioridade.
Essa clareza é reveladora. Muitas organizações tratam a desigualdade salarial como um tema complexo e de difícil resolução. Trajano desmonta esse argumento com uma frase.
Cotas: instrumento, não privilégio
A presidenta do Conselho da Magalu é adepta de cotas para mulheres em conselhos e cargos de liderança — e não tem dúvida sobre o enquadramento correto do tema. "Cotas não são privilégios. São instrumentos temporários para corrigir desigualdades históricas."
Pelo Grupo Mulheres do Brasil, ela atuou diretamente na aprovação da Lei 15.177/2025, que estabelece reserva mínima de 30% de vagas para mulheres nos conselhos de administração de empresas públicas e sociedades de economia mista. Para Trajano, o impacto vai além da representação: mais diversidade na liderança melhora a governança, enriquece a tomada de decisão e fortalece os resultados das organizações.
A lógica é empresarial, não apenas social.
Gestão com visão de longo prazo
Trajetória à frente do Magazine Luiza ensinou a Trajano algo que hoje virou conceito nas melhores escolas de negócios do mundo: empresa que cuida de gente constrói valor de longo prazo. Empresa que pensa apenas no resultado do próximo trimestre dificilmente constrói legado.
No Magalu, a cultura de proximidade, escuta e valorização das pessoas não nasceu de uma estratégia de ESG ou de uma consultoria externa. Era prática cotidiana, muito antes de esses termos existirem no vocabulário corporativo. E foi essa cultura que sustentou décadas de crescimento em um mercado predominantemente masculino.
Sobre assédio, a posição é igualmente direta: é absolutamente inegociável. No Magalu, resulta em demissão. Canais seguros de denúncia não são um benefício — são uma obrigação de qualquer organização que leva a sério o ambiente que oferece às suas pessoas.
O que está em jogo
O debate sobre mulheres na IA não é um desdobramento da agenda de diversidade. É o centro de uma questão estratégica sobre como a tecnologia mais poderosa da história vai ser construída — e para quem.
As decisões tomadas hoje, nos próximos meses e anos, vão definir os padrões que os sistemas de IA vão carregar por décadas. Quem estiver dentro dessas decisões vai moldar o futuro. Quem ficar de fora vai herdar um sistema que não foi pensado para ela.
Luiza Trajano entendeu isso. A pergunta é se as organizações vão entender a tempo.
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Bruno Lois
redator(a) da Startse
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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