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Google perde dois gigantes da IA em 48 horas

A saída do Nobel John Jumper para a Anthropic e de Noam Shazeer para a OpenAI custou US$ 250 bilhões em valor de mercado e expôs uma falha de retenção que dinheiro não resolve.

Google perde dois gigantes da IA em 48 horas

John Jumper recebeu o Nobel de Química de 2024 pelo AlphaFold, sistema de IA que já mapeou mais de 200 milhões de proteínas.

Victor Hugo Bin

, redator(a) da StartSe

9 min

23 jun 2026

Atualizado: 24 jun 2026

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A perda de um pesquisador de elite costuma ser lida como problema de talento. Quando dois saem em 48 horas para concorrentes diretos, vira problema de tese. Foi o que aconteceu com a Alphabet entre os dias 18 e 19 de junho de 2026, e o mercado cobrou a conta na segunda-feira seguinte com a maior queda da empresa em um ano.

O que de fato aconteceu na saída de talentos do Google

Dois nomes, dois dias, dois rivais. Noam Shazeer, vice-presidente de engenharia e co-líder do Gemini, anunciou em 18 de junho que iria para a OpenAI. O detalhe que dói: ele tinha voltado ao Google havia menos de dois anos, num movimento que custou US$ 2,7 bilhões via aquisição da Character.AI. Shazeer não é um engenheiro qualquer. É coautor do artigo de 2017 "Attention Is All You Need", que introduziu a arquitetura Transformer, base de praticamente todo grande modelo de linguagem em produção hoje, incluindo os do próprio Google, da OpenAI, da Meta e da Anthropic.

No dia seguinte, John Jumper, VP e Engineering Fellow do Google DeepMind, anunciou no X que sairia rumo à Anthropic depois de nove anos. Jumper dividiu o Nobel de Química de 2024 com Demis Hassabis, CEO do DeepMind, pelo AlphaFold, a IA que prevê a estrutura tridimensional de proteínas. O sistema já foi usado por mais de dois milhões de cientistas em 190 países e acelerou pesquisas em vacinas contra malária, tratamentos de câncer e bactérias resistentes. Nascido em 1985, Jumper foi o mais jovem laureado em Química em mais de 70 anos.

A simultaneidade é o que torna o episódio raro. O co-inventor do Transformer e um Nobel saindo para concorrentes na mesma semana não tem precedente claro na indústria.

Por que a saída de talentos derrubou a ação da Alphabet

A reação foi brutal e cirúrgica. As ações da Alphabet caíram cerca de 7% na segunda-feira, 22 de junho, pior pregão em um ano, chegando a 7,2% no intradiário. O movimento apagou perto de US$ 250 bilhões em valor de mercado num único dia, com o papel recuando para a casa dos US$ 347. O setor de tecnologia subiu no mesmo dia, o que isola o tombo como evento específico da empresa, não tendência de mercado.

Um agravante entrou na conta. No domingo anterior, Satya Nadella deu uma entrevista ao Wall Street Journal em que argumentou que a dependência de provedores dominantes de IA deveria encolher e descreveu o mercado como cada vez mais comoditizado. Caiu como sal na ferida de quem já estava nervoso com o Google.

Wall Street se dividiu. Dan Ives, da Wedbush, foi direto: perder Jumper é uma grande perda e não dá para adoçar. Gil Luria, da D.A. Davidson, foi além e disse que a corrida na fronteira da IA agora parece ser entre Anthropic e OpenAI, apesar dos 82% de crescimento reportados pelo Google no trimestre. O contrapeso existe e importa: a maioria dos grandes bancos, de Morgan Stanley a Goldman Sachs, manteve recomendação de compra, e nenhum analista relevante rebaixou a ação em resposta à notícia.

O detalhe que reenquadra tudo

A parte mais reveladora quase passou batida. Nos meses finais no DeepMind, Jumper teria sido deslocado para a equipe de ferramentas de coding, uma linha de produto que o Google tem penado para vender a clientes corporativos. Um Nobel da biologia computacional realocado para tocar produto comercial de programação. Esse fato sozinho diz mais sobre a gestão de talento da Alphabet do que qualquer pacote de retenção.

E é aqui que o caso vira aula para qualquer liderança. Shazeer saiu apesar de um acordo avaliado em bilhões. Jumper saiu levando um Nobel que carrega o nome do DeepMind. Se nem prestígio nem dinheiro seguram quem construiu as conquistas mais celebradas da empresa, o problema deixou de ser remuneração. Passou a ser autonomia, propósito e proximidade com o trabalho que importa. Gente de elite não fica onde sua melhor competência é desperdiçada, por mais alto que seja o cheque.

O que a Anthropic ganhou, e o que o mercado leu nisso

Para a Anthropic, a contratação é estratégia e símbolo na mesma jogada. A empresa vinha se posicionando como o laboratório de fronteira focado em segurança, mas suas credenciais científicas fora de modelos de linguagem eram mais magras que as do DeepMind. Trazer o arquiteto do AlphaFold muda esse cálculo de uma vez e ancora a aposta dela em ciências da vida e biologia computacional.

O contexto da decisão de Jumper torna o gesto ainda mais expressivo. A Anthropic está numa disputa legal com o governo dos Estados Unidos, o tipo de nuvem que costuma espantar talento. Mesmo assim, um Nobel que poderia escolher qualquer lugar escolheu ali. O mercado leu o recado: a empresa negocia a um valuation próximo de US$ 1 trilhão, e traders da Polymarket precificam cerca de 74% de chance de um IPO ainda neste ano.

O pano de fundo financeiro amplifica o desconforto do Google. A Alphabet elevou a projeção de capex de 2026 para a faixa de US$ 180 a 190 bilhões, seis vezes o que gastou em 2022, e captou quase US$ 85 bilhões em junho para bancar a expansão. Quando os cérebros por trás dos projetos mais avançados começam a sair, a pergunta sobre o retorno desse gasto colossal fica mais barulhenta. Vale o registro de que os fundamentos seguem fortes: receita do trimestre 22% maior, Google Cloud crescendo 63% e receita de IA generativa avançando quase 800% ano a ano.

A lição para conselhos e altas lideranças não está no Vale do Silício, está na própria cadeira. Capital humano de fronteira é o ativo mais escasso e o mais móvel da economia atual, e nenhuma empresa está imune ao erro de alocá-lo mal. Entender como talento, tecnologia e estratégia se conectam na mesa de decisão é exatamente o tipo de competência que o Board Program da StartSe desenvolve em conselheiros e executivos que precisam ler esses sinais antes que o mercado os precifique.

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