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Como resolvemos uma sociedade sem trabalho?

...pelo menos isso é o que propõe Sam Altman em seu bombástico documento escrito ontem

Como resolvemos uma sociedade sem trabalho?

como resolvemos uma sociedade sem trabalho?

Piero Franceschi

, Partner na StartSe

25 min

9 abr 2026

Atualizado: 9 abr 2026

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1. Contexto: uma ruptura econômica-social indiscutível

Sam Altman divulgou ontem no site da OpenAI um documento intitulado “Industrial Policy for the Intelligence Age - ideas to keep people first” que representa um marco na discussões da sociedade sobre como seguimos em frente com o desenvolvimento de tecnologias sem deixar as pessoas pelo caminho.O texto parte de uma premissa tratada como inevitável: a evolução técnica da IA não é apenas contínua, mas cumulativa e acelerada. Em poucos ciclos, os sistemas deixaram de apoiar tarefas pontuais para executar blocos inteiros de trabalho, migrando de minutos para horas e, agora, para projetos que consomem meses de esforço humano . Essa progressão não é apenas quantitativa, é estrutural. Quando uma tecnologia passa a absorver unidades completas de trabalho e não apenas etapas, ela deixa de ser ferramenta de produtividade e passa a ser agente de substituição funcional. O ponto mais sensível aqui não é a capacidade em si, mas o fato de que essa leitura vem de quem está construindo a tecnologia. Não é uma projeção externa ou um cenário especulativo. É uma admissão interna de que a fronteira já foi cruzada.

O documento também rompe com a narrativa tradicional de risco tecnológico ao deslocar o eixo do problema para a distribuição de valor. Em vez de focar exclusivamente em falhas técnicas, segurança ou alinhamento, ele reconhece que o principal risco é econômico e político: a possibilidade de que os ganhos gerados pela IA sejam apropriados de forma altamente concentrada, ampliando desigualdade e reduzindo a capacidade de participação econômica da maioria . Esse é um ponto crítico porque altera a natureza do debate. A questão deixa de ser “o que a IA pode fazer” e passa a ser “quem captura o valor do que ela faz”. Em outras palavras, a tecnologia não é o problema central. O problema é o mecanismo de distribuição que se forma ao redor dela.

A implicação mais relevante está na forma como o documento posiciona o tempo dessa transição. Ao compará-la às grandes revoluções industriais, ele reconhece a magnitude da mudança, mas introduz uma variável que altera completamente a capacidade de resposta: a velocidade. Diferente de transições anteriores, que se desenrolaram ao longo de décadas, o texto indica que já estamos no meio do processo de substituição de atividades complexas. Isso reduz drasticamente o tempo disponível para adaptação institucional, regulatória e organizacional. A consequência direta é que as políticas propostas não têm caráter antecipatório. Elas são tentativas de reorganizar um sistema que já começou a se desestruturar. Não se trata de preparar o futuro. Trata-se de tentar estabilizar o presente enquanto ele muda. E o documento assume que esse é uma discussão inevitável e urgente.

 

2. As 11 propostas para sustentar uma Open Economy em um mundo com menos trabalho

A promessa colocada no documento é ambiciosa e, ao mesmo tempo, cuidadosamente construída: a IA seria capaz de transformar inteligência em um recurso abundante e, com isso, destravar ganhos reais em produtividade, ciência e qualidade de vida. Na narrativa, o custo de bens essenciais cai, barreiras de entrada desaparecem e o tempo humano é liberado para aquilo que importa de verdade. Até aqui, tudo parece positivo. O ponto é que existe uma premissa escondida nesse argumento: nada disso acontece sozinho. Essa abundância só vira benefício se existir um sistema capaz de distribuí la. Caso contrário, ela apenas se acumula.

E o próprio texto admite essa tensão. As mesmas capacidades que aceleram o progresso também desorganizam o trabalho e reconfiguram indústrias inteiras em um ritmo que não temos histórico para lidar. Essa transição não será uniforme. Ela tende a favorecer quem já está bem posicionado e deixar para trás quem não tem acesso a capital, tecnologia ou infraestrutura. O reconhecimento mais incômodo está explícito: trabalhadores podem se tornar mais produtivos e, ainda assim, não capturar nenhum ganho com isso. Ou seja, produtividade já não garante renda. Eficiência já não garante distribuição. Esse é o ponto de ruptura.

É exatamente aqui que entra a ideia de Open Economy. Não como conceito bonito, mas como tentativa de evitar que o sistema feche sobre si mesmo. Se o vínculo entre trabalho e valor está se desfazendo, alguém precisa reconstruir esse elo de outra forma. As onze políticas propostas por Altman seguem essa lógica. Não são um plano ideal, são um conjunto de mecanismos para reequilibrar um sistema que já começou a sair do eixo. Elas tentam ampliar acesso, redistribuir ganhos e criar algum nível de estabilidade em meio à mudança. No fundo, é isso: uma tentativa de manter a economia aberta em um mundo que, se deixado sozinho, tende naturalmente à concentração.

Vamos então as 11 propostas:

1. “Worker perspectives” - incorporar a perspectiva do trabalhador no desenvolvimento da IA

A incorporação da perspectiva dos trabalhadores não é uma agenda de inclusão, é uma correção de falha de informação. Quem projeta sistemas de IA trabalha com modelos simplificados do processo, enquanto o trabalho real é cheio de exceções, variações e dependências que não aparecem no desenho teórico. Ignorar isso leva a automações que parecem eficientes no papel, mas reduzem qualidade, aumentam risco e pioram as condições de execução.

Ao formalizar a participação dos trabalhadores, o objetivo é direcionar a IA para onde ela realmente gera valor: eliminar tarefas perigosas, repetitivas e de baixo impacto, sem comprometer autonomia, julgamento e qualidade do trabalho. É um mecanismo de controle para evitar que produtividade seja alcançada à custa da deterioração do próprio sistema produtivo.

2. AI first entrepreneurs - incentivar empreendedorismo humano via IA

Essa política parte de um ponto direto: a IA derruba o custo de montar e operar um negócio. Atividades que antes exigiam estrutura e capital como contabilidade, marketing e operação passam a ser automatizadas, deslocando a vantagem competitiva para o conhecimento aplicado e a capacidade de execução.

Nesse cenário, o papel do Estado e das instituições é acelerar a transição de especialistas para operadores econômicos independentes. Isso envolve micro-financiamento, infraestrutura compartilhada e modelos padronizados de operação que reduzem fricção na entrada. A lógica é simples: se o emprego formal encolhe, é preciso abrir um caminho alternativo de geração de renda. O empreendedorismo assistido por IA deixa de ser opcional e passa a ser mecanismo de inclusão econômica.

3. “Right to AI” - democratizar o acesso e aprendizado

O conceito de “direito à IA” reposiciona o acesso à tecnologia como pré condição econômica básica. Assim como alfabetização, eletricidade e internet definiram quem podia participar das economias anteriores, a IA passa a ser requisito mínimo para competir, produzir e gerar renda. Não se trata mais de vantagem competitiva. Trata se de condição de entrada.

A proposta busca evitar uma divisão estrutural entre quem opera com IA e quem fica fora do sistema. Isso exige mais do que acesso técnico. Envolve infraestrutura, conectividade e capacidade de uso. O objetivo não é nivelar resultados, mas garantir que todos tenham acesso às ferramentas que definem produtividade. Sem isso, a exclusão deixa de ser social e passa a ser estrutural.

4. “Modernize the tax base”- impostos para IA

A mudança na natureza do trabalho força uma mudança na lógica de arrecadação. Sistemas fiscais foram desenhados para tributar renda do trabalho, mas a IA desloca a geração de valor para capital, propriedade intelectual e automação. Se nada for ajustado, a base de financiamento do Estado começa a erodir justamente quando a demanda por proteção social tende a aumentar.

A proposta de modernização tenta corrigir esse descompasso. A carga tributária migra para onde o valor passa a ser gerado, como lucros corporativos e ganhos de capital associados à IA, enquanto incentivos são criados para empresas que mantêm e requalificam trabalhadores. A lógica é manter o sistema financiado sem bloquear a eficiência tecnológica, criando um equilíbrio mínimo entre produtividade e estabilidade social.

(Sim , ele esta dizendo para taxar mais a própria empresa dele.)

5. “Public Wealth Fund” - Fundo de riqueza social

O fundo público de riqueza parte de um ponto estrutural: se a IA desloca a geração de valor do trabalho para o capital, então os mecanismos de participação econômica também precisam sair do trabalho. Em um ambiente onde menos pessoas capturam renda via emprego, insistir em distribuir valor apenas por salários deixa de funcionar. O fundo surge como uma resposta direta a essa ruptura, criando um canal de acesso ao crescimento que não depende da posição do indivíduo no mercado de trabalho.

Na prática, ele transforma parte dos ganhos da economia de IA em ativos coletivos. Em vez de o valor ficar concentrado nas empresas que desenvolvem e operam a tecnologia, uma parcela desse crescimento é capturada e reinvestida em nome da sociedade, gerando retornos distribuídos à população. Isso muda a lógica de inclusão: não se trata mais de garantir emprego para todos, mas de garantir participação no resultado do sistema. Sem esse tipo de mecanismo, o efeito esperado é claro: produtividade cresce, riqueza se acumula e a base da sociedade fica progressivamente desconectada do próprio crescimento econômico.

6. Accelerate grid expansion - infraestrutura energética

A expansão da IA não é apenas um problema de software, é um problema físico. Modelos avançados exigem volumes massivos de computação, que por sua vez dependem de energia em escala. Isso cria um novo tipo de gargalo: não é mais a capacidade de desenvolver tecnologia, mas a capacidade de sustentá-la energeticamente. Se a infraestrutura não acompanha, o crescimento simplesmente trava.

A proposta de acelerar a expansão da rede elétrica parte dessa limitação concreta. Ao estruturar parcerias público privadas, busca destravar investimento, reduzir fricções regulatórias e expandir capacidade no ritmo exigido pela IA. Mas há um ponto crítico: esse crescimento não pode ser financiado pela sociedade sem retorno. A lógica é garantir que a infraestrutura que sustenta a nova economia também gere benefício econômico direto, evitando um cenário onde o avanço tecnológico pressiona custos e penaliza a população.

7. Efficiency dividends - dividendos de eficiência

Ganhos de produtividade raramente se traduzem, de forma automática, em melhoria para quem trabalha. Historicamente, eficiência adicional tende a ser absorvida pelo capital na forma de margem, não redistribuída como qualidade de vida. Com a IA, esse descolamento tende a se ampliar: menos esforço humano, mais resultado econômico, mas sem garantia de retorno direto para as pessoas.

Essa política tenta corrigir esse desequilíbrio criando um vínculo explícito entre eficiência e benefício. Redução de jornada, ampliação de benefícios e redistribuição do tempo passam a ser tratados como parte do ganho gerado pela automação. Na prática, funciona como um dividendo de produtividade: se a IA aumenta o resultado, parte desse ganho precisa voltar para quem opera o sistema, seja em forma de tempo livre, segurança financeira ou melhores condições de trabalho. Sem isso, a eficiência vira apenas concentração. Seria tipo um bônus a ser distribuído como resultados dos ganhos de eficiência que a IA trouxe.

8. Adaptive safety nets that work for everyone - gatilhos de proteção automáticos

A proposta de redes de proteção adaptativas parte de um descompasso estrutural: a economia passou a mudar em tempo real, mas os sistemas de proteção ainda operam em ciclos lentos, baseados em decisão política e revisão periódica. Isso funciona em crises pontuais, mas falha em cenários de disrupção contínua como o provocado pela IA, onde setores inteiros podem ser afetados em semanas, não em anos.

A ““lógica dos gatilhos é transformar esse sistema em algo automático e calibrado por dados. Em vez de esperar uma decisão central, o próprio sistema monitora indicadores objetivos como aumento de desemprego em uma região, queda de renda em um setor ou substituição acelerada de funções. Quando esses indicadores ultrapassam limites pré definidos, os mecanismos de proteção são ativados automaticamente: ampliação temporária de benefícios, liberação de suporte financeiro, acesso a requalificação ou seguros de renda. Quando os indicadores recuam, o sistema se ajusta e os benefícios são reduzidos ou encerrados.

Na prática, isso cria um modelo de proteção que acompanha o ciclo da disrupção. Ele entra forte quando necessário e sai quando o sistema estabiliza. A vantagem é dupla: protege rapidamente quem é afetado sem depender de resposta política lenta e evita a criação de estruturas permanentes que pressionam o sistema fiscal. É um modelo desenhado para instabilidade contínua, não para crises isoladas.

9. Portable benefits - portabilidade de benefícios

A fragmentação das trajetórias profissionais cria um problema direto: os benefícios foram desenhados para um mundo onde as pessoas tinham um único emprego estável. Quando esse vínculo se rompe ou se torna intermitente, a proteção também se rompe. Em um cenário de múltiplas fontes de renda, trabalhos temporários e ciclos curtos de atividade, o modelo atual simplesmente deixa de acompanhar a realidade.

A lógica dos benefícios portáveis é separar proteção de emprego. Em vez de depender de um empregador específico, os benefícios passam a estar vinculados ao indivíduo e a uma conta própria, que recebe contribuições de diferentes fontes ao longo do tempo, sejam empresas, projetos ou até o próprio trabalhador. Isso garante continuidade: a pessoa muda de trabalho, mas não perde acesso a saúde, aposentadoria ou capacitação.

Na prática, isso resolve um problema operacional do novo mercado. Permite que as pessoas transitem entre diferentes formas de trabalho sem abrir mão de segurança básica. E, ao mesmo tempo, reduz o custo e a complexidade para empresas, que deixam de carregar sozinhas a responsabilidade por benefícios. É um modelo desenhado para mobilidade, não para estabilidade.

10. “Pathways into human centered work” - trabalhos centrados em cuidado humano.

O deslocamento de trabalhadores pela IA cria um problema concreto de absorção econômica: pessoas saem de funções automatizadas, mas precisam encontrar novos espaços produtivos. Nem todos os setores têm essa capacidade. O documento identifica que atividades baseadas em cuidado, educação e serviços comunitários possuem uma característica específica que as torna mais resilientes: dependem de presença, contexto e interação humana, elementos que a IA ainda não substitui de forma completa.

A proposta, então, não é apenas incentivar esses setores, mas estruturá-los como destino viável de transição. Isso exige investimento em formação, melhoria real de condições de trabalho e aumento de remuneração para torná-los competitivos com outras opções econômicas. Na prática, trata se de criar um novo eixo de absorção de trabalho humano, direcionando força de trabalho para atividades onde a tecnologia não elimina o papel humano, mas o amplifica. Sem esse redirecionamento, o risco não é apenas desemprego, mas a incapacidade do sistema de reintegrar quem foi deslocado.

11. Accelerate scientific discovery and scale the benefits - acelerar descobertas científicas e escalar benefícios

A IA não apenas substitui trabalho, ela reduz drasticamente o tempo de geração de conhecimento. O que antes levava anos entre hipótese, teste e validação passa a acontecer em ciclos muito mais curtos. O risco é que esse ganho fique concentrado em poucos centros com infraestrutura e capital para operar nesse novo ritmo, criando uma nova forma de concentração de poder baseada em capacidade científica.

A proposta de laboratórios distribuídos integrados com IA tenta abrir esse sistema. Ao conectar geração de hipóteses, experimentação e aplicação em um fluxo contínuo, reduz o tempo entre descoberta e uso prático. Isso acelera a chegada de soluções concretas em áreas críticas como saúde, energia e produção de alimentos, ao mesmo tempo em que amplia o número de instituições capazes de participar desse processo.

O benefício direto é duplo: mais velocidade e mais distribuição. Descobertas deixam de ficar restritas a ambientes de elite e passam a gerar impacto econômico real em diferentes regiões. Isso fortalece cadeias produtivas locais, cria novos tipos de trabalho qualificado e transforma ciência em um motor direto de crescimento econômico, não apenas em produção de conhecimento abstrato

3. Conclusão: o modelo não está definido, mas não há tempo para esperar

O próprio Sam Altman reconhece no documento, de forma direta, que não existe um modelo pronto ou perfeito. As propostas apresentadas não são um plano consolidado e estruturado com viabilidade calculada, mas sim um conjunto de tentativas urgentes para lidar com uma transformação que já começou e ainda não foi totalmente compreendida. Nesse caso, a ausência de clareza não é uma falha mas sim um reflexo do momento. Estamos operando em um território sem precedentes, tentando construir estrutura enquanto o sistema já está em movimento.

A diferença em relação a outras revoluções tecnológicas está no tempo. Antes, havia décadas para adaptação, ajuste institucional e reorganização econômica. Agora, a própria base do trabalho e da geração de valor está sendo reconfigurada em poucos anos. O documento é explícito nesse ponto. Isso elimina a possibilidade de respostas lentas, incrementais ou excessivamente cautelosas. E é esse parece ser o maior risco que estamos lidando no momento : nossas instituições foram desenhadas para o consenso e alinhamento. E como isso toma tempo que parece que estamos ficando cada vez mais sem tempo.

E é aqui na minha visão que está a tensão central do contexto que vivemos: Não se trata apenas de definir boas políticas, mas de fazê lo no ritmo exigido pela transformação. O risco não é errar na direção, é não conseguir responder na velocidade necessária. A urgência não é apenas retórica, é estrutural. O sistema está mudando agora, e qualquer tentativa de esperar estabilidade para agir parte de uma premissa equivocada. Não haverá estabilidade antes da mudança. A estabilidade, se vier, será consequência das decisões tomadas durante o próprio processo de transformação.

Mais do que nunca vamos ter que errar bastante para acertar.
Mas se demorarmos muito para começar a errar, o erro final pode ser fatal.

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Experiente Diretor de Marketing, Inovação e Estratégia com um histórico comprovado em vários indústrias. Hábil em Gestão de Marketing, Planejamento de Mercado, Planejamento Estratégico, Customer Marketing, Inovação e Transformação Digital.

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