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A IA está fechando ou abrindo a porta de entrada do mercado de trabalho?

Estudo de Stanford mostra que jovens de 22 a 25 anos nas funções mais expostas à IA têm emprego 19% abaixo dos pares. O primeiro emprego está mudando, e a conversa sobre carreira precisa mudar junto.

A IA está fechando ou abrindo a porta de entrada do mercado de trabalho?

Jovens no trabalho (Foto: Canva)

Redação StartSe

, Redator

9 min

•

4 nov 2026

•

Atualizado: 4 nov 2026

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Se você tem um filho entre 15 e 25 anos, a carreira que ele está escolhendo hoje pode não ter a mesma porta de entrada que a sua teve.

A IA não está demitindo em massa os profissionais experientes. Ela está deixando de contratar os iniciantes. É o que mostra a edição de agosto de 2026 do estudo “Canaries in the Coal Mine?”, de economistas da Universidade de Stanford, noticiada pelo Slashdot. Trabalhadores de 22 a 25 anos nas ocupações mais expostas à inteligência artificial têm nível de emprego 19% abaixo do de colegas em áreas menos expostas. Um ano antes, essa diferença era de 13%.

O que o estudo de Stanford descobriu sobre o primeiro emprego?

O achado central é que o impacto da IA sobre o emprego jovem aparece na contratação, e não nas demissões. As empresas não estão mandando os jovens embora. Estão simplesmente abrindo menos vagas de entrada nas funções que a IA consegue executar.

Segundo o estudo, o efeito se manifesta em menos gente empregada, não em salários menores. E os trabalhadores mais velhos, até aqui, praticamente não foram afetados.

A primeira versão do trabalho, assinada por Bharat Chandar, Erik Brynjolfsson e Ruyu Chen, foi publicada em 2025. Segundo o Stanford Digital Economy Lab, os resultados se mantiveram mesmo excluindo o setor de tecnologia, as funções de computação e os empregos que podem ser feitos remotamente. A queda apareceu só depois que os grandes modelos de linguagem se popularizaram.

Quais profissões estão mais expostas?

As mais expostas são as funções de entrada baseadas em conhecimento codificado, aquele que está em manuais, procedimentos e regras claras. Desenvolvimento de software, atendimento ao cliente e trabalho administrativo aparecem entre os exemplos citados pelos pesquisadores.

Usando dados do Anthropic Economic Index, o estudo aponta contadores e auditores, além de recepcionistas e atendentes de informação, como as ocupações mais suscetíveis à automação. Na outra ponta, CEOs e enfermeiros registrados estão entre os que mais usam a IA como complemento ao próprio trabalho.

A distinção entre automação e complemento é o coração da pesquisa. Onde a IA substitui tarefas, o emprego de entrada cai. Onde ela amplia a capacidade de quem trabalha, o emprego fica estável ou cresce.

O conhecimento tácito virou um ativo de carreira

O dado mais útil para quem está orientando um jovem vem de outra conclusão do estudo: profissionais experientes, em funções que dependem de conhecimento tácito, construído na prática, tiveram crescimento de emprego mais forte.

Conhecimento tácito é o que não está escrito em lugar nenhum. É saber ler um cliente insatisfeito antes que ele reclame, perceber que um paciente está pior do que os exames sugerem, entender por que uma negociação travou. A IA aprende com o que está documentado. O que só se aprende fazendo continua difícil de automatizar.

Isso cria um paradoxo cruel. Conhecimento tácito se adquire justamente nos primeiros anos de trabalho, em funções de entrada. Se essas funções encolhem, encolhe também o caminho tradicional para chegar ao nível em que a IA vira aliada, e não concorrente.

As empresas já estão planejando contratar menos jovens

O movimento não é só retrato do passado. Uma pesquisa da Wharton Human-AI Research com a GBK Collective, divulgada pela Fortune em outubro, mostra que cerca de um terço dos gestores ouvidos disse que seus departamentos desaceleraram ou congelaram contratações por causa da IA.

E 24% esperam contratar menos para posições de entrada nos próximos dois a cinco anos. Para cargos executivos, esse número é de 14%.

Os próprios jovens já sentem a mudança. Segundo pesquisa do Gallup com a Walton Family Foundation e a GSV, citada na mesma reportagem, o entusiasmo de americanos de 14 a 29 anos com a IA caiu 14 pontos em um ano. Entre os que trabalham, 48% acham que os riscos da IA no trabalho superam os benefícios, embora 56% digam que as ferramentas os ajudam a trabalhar mais rápido.

Ainda há controvérsia nos dados

Vale olhar o quadro inteiro. O próprio Stanford Digital Economy Lab registra que o estudo é observacional e que outros trabalhos encontram efeitos agregados pequenos sobre o emprego na economia como um todo. Uma pesquisa com dados da Dinamarca, de Humlum e Vestergaard, não encontrou diferença na contratação de jovens entre empresas que adotaram IA e as que não adotaram.

A leitura honesta é esta: o impacto ainda não é uma onda que varre o mercado inteiro, mas está concentrado exatamente no ponto mais sensível da carreira, que é a entrada. E está crescendo, de 13% para 19% em um ano.

O que pais e jovens deveriam discutir agora

A pergunta “qual profissão vai sobreviver?” é a errada. A certa é “qual tipo de trabalho, dentro de qualquer profissão, a IA complementa em vez de substituir?”.

Um contador que só lança dados está exposto. Um contador que interpreta números para orientar decisões de um empresário usa a IA a seu favor. Um programador que só escreve código padronizado disputa com a máquina. Um que entende o problema do negócio antes de escrever uma linha usa a máquina para entregar mais.

Na prática, isso muda a conversa em casa. Menos foco em escolher o curso “certo” e mais atenção a experiências práticas desde cedo, como estágios, projetos reais e trabalho com gente, que constroem o conhecimento tácito que as vagas de entrada costumavam oferecer. E fluência em IA como ferramenta de trabalho, não como ameaça abstrata.

Seu filho está se preparando para o mercado que existe ou para o que existia?

Muitos executivos estão redesenhando a própria empresa para a era da IA e, à noite, dando conselhos de carreira aos filhos baseados no mercado em que eles mesmos entraram. As duas conversas precisam usar o mesmo mapa.

Foi para isso que a StartSe criou o Tomorrow Talks, um encontro presencial para pais e filhos de 15 a 20 anos sobre as áreas que a IA mais está transformando, o mapa das profissões da próxima década e como conduzir essa conversa em família. A palestra é de Cristiano Kruel, CIO da StartSe, no dia 10 de novembro, em São Paulo.

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