Enquanto executivos debatem qual modelo de IA adotar, uma questão mais fundamental está sendo decidida nos bastidores: quem vai fornecer a energia para alimentar essa revolução?
Qual o modelo de energia mais eficiente para alimentar a AI?
, redator(a) da StartSe
19 min
•
6 jan 2026
•
Atualizado: 6 jan 2026
newsletter
Start Seu dia:
A Newsletter do AGORA!
OpenAI, Google e Microsoft estão dobrando ou triplicando suas capacidades de data centers. A Microsoft reativou parte de Three Mile Island, a usina nuclear que sofreu o acidente mais grave da história dos EUA, para alimentar seus sistemas de IA. A demanda por energia não crescia nesse ritmo há décadas - e isso está forçando países a fazerem apostas estratégicas radicalmente diferentes sobre o futuro.
O que parece ser apenas uma questão de política energética é, na verdade, uma disputa silenciosa sobre quem vai controlar a infraestrutura da próxima economia global. E as escolhas que China, Estados Unidos e Brasil estão fazendo agora vão determinar muito mais do que suas matrizes energéticas.
Todo debate sobre IA foca em chips. Nvidia, TSMC, a corrida por semicondutores mais avançados. Mas o verdadeiro limitante não está nos processadores - está na tomada.
Um data center de IA de grande escala consome energia equivalente a uma cidade de porte médio. Quando o ChatGPT foi lançado, especialistas estimaram que uma única consulta consumia cerca de 10 vezes mais energia que uma busca no Google. Multiplique isso por bilhões de interações diárias e você tem um problema de escala energética sem precedentes recentes.
A conta já chegou. Nos Estados Unidos, após décadas de estabilidade, o preço da energia começou a subir novamente - impulsionado em grande parte pela explosão de data centers. Empresas de tecnologia estão competindo por capacidade energética como se fosse um recurso escasso em zona de guerra.
Mas enquanto alguns países correm para construir mais usinas, outros já perceberam que essa corrida não é apenas sobre quantidade de energia. É sobre autonomia, custo e controle de cadeia produtiva.
A China não tem petróleo suficiente. Na década de 1970, mais de 80% da energia chinesa vinha do carvão. Essa dependência era uma vulnerabilidade estratégica óbvia - especialmente para um país que planeja em horizontes de décadas.
Hoje, a história é radicalmente diferente.
No primeiro semestre de 2025, a China construiu mais painéis solares do que todo o resto do mundo somado. Quase três quartos de todas as turbinas eólicas instaladas globalmente estão sendo erguidas em território chinês. Entre 2015 e 2025, o país adicionou à sua matriz energética mais capacidade solar e eólica do que o Brasil produz de energia - de todas as fontes - somadas.
Mas o movimento chinês vai muito além de construir usinas. É uma estratégia integrada de dominação tecnológica:
Controle total da cadeia produtiva
A China não apenas instala painéis solares - ela os fabrica. Em 2024, exportou mais de R$ 200 bilhões em painéis fotovoltaicos. Os Estados Unidos, que inventaram a tecnologia nos anos 1950, exportaram R$ 400 milhões no mesmo período. Uma diferença de 500 vezes.
O mesmo vale para baterias de lítio, turbinas eólicas e carros elétricos. Mais de 70% dos veículos elétricos produzidos no mundo em 2024 saíram de fábricas chinesas. Esses carros usam baterias chinesas, feitas com terras raras refinadas na China, alimentados por energia solar excedente gerada por painéis chineses.
O ciclo virtuoso da independência
Cada carro elétrico chinês vendido globalmente não é apenas uma receita de exportação. É um cliente a menos para petróleo americano, russo ou brasileiro no futuro. É uma redução permanente na dependência de combustíveis importados. É, fundamentalmente, uma aposta de que energia solar e eólica - cujos custos só caem - vão vencer a batalha econômica contra combustíveis fósseis - cujos preços oscilam conforme geopolítica.
E funcionou. Na China, energia solar e eólica já são mais baratas que combustíveis fósseis. Não por subsídio governamental agressivo, mas por escala industrial e avanço tecnológico continuado.
Para alimentar seus data centers de IA, a China não precisa importar petróleo nem negociar com países produtores. Ela constrói mais painéis, instala mais baterias para estabilizar a rede, e expande capacidade energética com tecnologia que ela mesma domina. Soberania total.
Isso já representa mais de 10% do PIB chinês. Não é política ambiental. É estratégia industrial e geopolítica disfarçada de transição energética.
Enquanto a China construía sua independência energética, os Estados Unidos fizeram uma escolha diferente - e surpreendente para quem conhece a história.
Os americanos inventaram praticamente todas essas tecnologias. A primeira célula solar foi criada nos Bell Labs em 1954. A primeira turbina eólica de grande escala conectada à rede elétrica começou a operar em 1941. Em 1900, carros elétricos dominavam as ruas americanas - antes de serem abandonados em favor da gasolina.
Durante o governo Biden, houve um movimento de retomada. Investimentos significativos em energia limpa, incentivos para produção doméstica de painéis e baterias, tentativa de reduzir a dependência chinesa na cadeia de renováveis.
Esse movimento durou pouco.
Com a "Big Beautiful Bill" do governo Trump, os Estados Unidos cancelaram mais de R$ 100 bilhões em investimentos em energia limpa. Reverteram incentivos para produção de carros elétricos. Reduziram metas de geração de energia renovável para as próximas décadas.
A aposta americana voltou a ser explicitamente nos combustíveis fósseis: petróleo e gás natural.
Por que abandonar tecnologias que desenvolveram?
A resposta não é técnica - é econômica e política. Os Estados Unidos são um dos maiores produtores e exportadores de petróleo e gás do mundo. Essa indústria gera empregos, receitas, poder de barganha geopolítico. Abrir mão disso em favor de uma transição energética de longo prazo significa sacrificar ganhos imediatos por apostas futuras incertas.
É o dilema clássico de empresas que desenvolvem tecnologias disruptivas mas as abandonam porque ameaçam seu modelo de negócios atual. A Kodak inventou a câmera digital mas a negligenciou porque ameaçava o negócio de filmes fotográficos - e acabou falindo. A Xerox criou o primeiro computador pessoal mas o abandonou por considerá-lo irrelevante para seu core business - e perdeu um mercado trilionário para Apple e Microsoft.
Agora, os Estados Unidos repetem esse padrão em escala nacional.
A questão da Venezuela e a pressão por petróleo
Recentemente, os EUA intensificaram pressões diplomáticas e econômicas sobre a Venezuela - país com uma das maiores reservas de petróleo do mundo. O discurso oficial fala em democracia e direitos humanos. O substrato econômico é garantir acesso a fornecimento estável de petróleo para alimentar uma economia que voltou a depender dele.
Enquanto isso, cada data center novo aumenta a conta de energia. A reativação de usinas nucleares como Three Mile Island é sintoma disso: a demanda por energia de IA cresceu mais rápido que a capacidade de geração, e agora empresas americanas precisam improvisar soluções emergenciais.
O paradoxo é cruel: quanto mais os EUA apostam em combustíveis fósseis, mais fortalecem a estratégia chinesa de oferecer alternativas renováveis ao mundo. Cada país que adota painéis solares e carros elétricos chineses é um comprador a menos de petróleo americano.
O Brasil está numa posição única - e contraditória.
Temos vocação histórica para energia limpa. A matriz energética brasileira é uma das mais limpas do mundo, sustentada por décadas de investimento em hidrelétricas. Temos capacidade eólica crescente no Nordeste e potencial solar continental ainda pouco explorado.
Ao mesmo tempo, somos cada vez mais dependentes economicamente do petróleo. A Petrobras é uma das maiores empresas do país. Receitas de exploração de pré-sal são fundamentais para as contas públicas. A indústria de óleo e gás gera empregos, divisas e poder político.
Resultado: estamos paralisados entre duas narrativas.
O problema do curtailment
Quando a produção de energia solar ou eólica excede a demanda e não há infraestrutura suficiente para armazenar ou distribuir esse excedente, é preciso desligar usinas. Isso se chama curtailment - e está se tornando cada vez mais comum no Brasil.
A pergunta é simples, mas a resposta é estratégica: quando isso acontece, o que desligamos? Usinas a gás e termelétricas ou painéis solares e turbinas eólicas?
Se priorizamos fósseis, garantimos receita imediata e empregos no curto prazo - mas travamos a expansão das renováveis e perdemos competitividade futura. Se priorizamos renováveis, aceleramos a transição energética e nos posicionamos melhor para a economia de IA - mas confrontamos interesses econômicos consolidados.
A janela da IA
Aqui está a oportunidade - e o risco.
Data centers de IA precisam de energia abundante e barata. O Brasil tem potencial para ser um hub regional de processamento de IA justamente por causa da nossa capacidade energética renovável. Empresas globais de tecnologia poderiam instalar infraestrutura aqui, gerando empregos qualificados e receita em dólar, se conseguíssemos oferecer energia limpa, estável e competitiva.
Mas isso exige decisão. Exige investir em transmissão, em baterias para estabilizar a rede, em eliminar gargalos regulatórios. Exige escolher entre ser fornecedor de petróleo (commodity volátil, competitiva, finita) ou fornecedor de energia e processamento (infraestrutura, recorrente, escalável).
A China já fez essa escolha. Os Estados Unidos fizeram a oposta. O Brasil ainda não decidiu - e a janela está se fechando.
Essa não é apenas uma discussão sobre política energética ou sustentabilidade corporativa. É uma questão estratégica de custos, fornecedores e posicionamento competitivo.
Custos operacionais de IA
Se sua empresa está adotando IA generativa em escala - seja para atendimento, análise de dados, desenvolvimento de produtos - o custo energético vai pesar significativamente. Onde você processa esses modelos? Em data centers nos EUA, onde a energia está encarecendo? Em servidores chineses, onde energia é mais barata mas há questões de soberania de dados? Localmente no Brasil, se conseguirmos infraestrutura competitiva?
Cada uma dessas escolhas tem trade-offs de custo, latência, segurança e dependência de terceiros.
Dependências de cadeia
A transição energética global está criando novas dependências. Baterias, painéis solares, terras raras, carros elétricos - a China domina todas essas cadeias produtivas. Empresas que dependem dessas tecnologias (de montadoras a operadoras de data centers) estão, na prática, dependentes de fornecedores chineses.
Ao mesmo tempo, combustíveis fósseis ainda dominam logística, transporte pesado e geração de energia de base. Empresas que apostam exclusivamente em eletrificação podem enfrentar custos de transição maiores que o esperado se a infraestrutura não acompanhar.
A questão não é ideológica - é de gestão de risco. Quão diversificada está sua cadeia de fornecimento energético? Quão exposto você está a volatilidades geopolíticas em energia?
Compromissos ESG vs. viabilidade econômica
Muitas empresas assumiram metas agressivas de carbono neutro. Mas e se a energia renovável disponível não for suficiente? E se o custo de transição for maior que o orçado? E se fornecedores críticos não conseguirem acompanhar suas metas?
Executivos estão sendo forçados a tomar decisões difíceis: cumprir metas ESG mesmo que isso signifique custos mais altos, ou priorizar viabilidade econômica e renegociar compromissos públicos?
Não há resposta universal. Mas há um padrão: empresas que entendem as dinâmicas energéticas globais estão fazendo escolhas mais informadas. Sabem quando vale a pena pagar mais por energia limpa (porque vai ficar mais barata). Sabem quando faz sentido diversificar fornecedores (porque dependência de um único país é arriscado). Sabem quando apostar em tecnologias emergentes (porque o momentum está acelerando).
Planejamento em múltiplos cenários
A grande lição dessas três estratégias nacionais é: não há consenso sobre qual caminho vence.
A China aposta que renováveis + controle de cadeia = autonomia e vantagem competitiva. Os EUA apostam que fósseis + pressão geopolítica = pragmatismo econômico no curto prazo. O Brasil ainda não decidiu - e isso, paradoxalmente, pode ser tanto risco quanto oportunidade.
Executivos precisam planejar para múltiplos futuros:
O erro não é escolher um caminho. O erro é não entender as forças que estão moldando cada um deles.
Enquanto manchetes falam sobre GPT-5, modelos multimodais e regulação de IA, a verdadeira guerra está acontecendo nos bastidores: quem vai controlar a energia que alimenta tudo isso.
A China entendeu isso há décadas e construiu sistematicamente sua posição. Os Estados Unidos entenderam, desenvolveram as tecnologias, mas optaram pelo pragmatismo de curto prazo. O Brasil tem as cartas na mão, mas ainda não decidiu como jogá-las.
Para líderes empresariais, a mensagem é clara: a revolução da IA não depende apenas de algoritmos melhores ou chips mais rápidos. Depende de quem consegue alimentar esses sistemas de forma estável, barata e sustentável.
E essa batalha já começou.
Gostou deste conteúdo? Deixa que a gente te avisa quando surgirem assuntos relacionados!
Assuntos relacionados
redator(a) da Startse
Sócio da StartSe
Leia o próximo artigo
newsletter
Start Seu dia:
A Newsletter do AGORA!