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A Ferrari fracassou com seu carro elétrico. E o diretor com 16 anos de casa pagou o pato.

O caso Enrico Galliera levanta uma das perguntas mais incômodas da liderança executiva: qual é o tamanho real do espaço para erro dentro das organizações?

A Ferrari fracassou com seu carro elétrico. E o diretor com 16 anos de casa pagou o pato.

16 anos de casa, um erro que custou caro: a empresa não confirma, mas o carro elétrico "atropelou" Enrico Galliera

Bruno Lois

, Editor

10 min

1 jul 2026

Atualizado: 1 jul 2026

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A Ferrari anunciou a saída de Enrico Galliera, diretor de marketing e comercial que ocupava o cargo havia 16 anos, poucas semanas após a reação negativa ao lançamento do Luce, o primeiro carro totalmente elétrico da fabricante italiana.

A estreia do veículo gerou uma onda de críticas e piadas na internet, não devido à sua motorização ecológica, mas sim pelas suas linhas estéticas irreverentes, desenhadas pela reputada agência LoveFrom, fundada por Jony Ive e Marc Newson. A reação negativa dos mercados foi imediata, com as ações da marca italiana a registarem uma queda abrupta de 8% em poucas horas.

Em comunicado, a montadora agradeceu a Galliera pela trajetória na companhia e afirmou que a decisão de deixar o cargo havia sido tomada em conjunto "há algum tempo", como parte de um novo capítulo profissional do executivo. A Ferrari não relacionou oficialmente a saída à recepção do novo modelo elétrico.

Não há qualquer menção ao Luce no comunicado. Mas é impossível não ligar os fatos.

Quem decide um projeto de US$ 640 mil?

O Luce, apresentado em maio, foi alvo de críticas nas redes sociais e gerou uma onda de memes por causa do design e do posicionamento da marca no segmento de veículos elétricos. O design disruptivo foi desenvolvido em parceria com o renomado estúdio LoveFrom, fundado pelo ex-designer da Apple, Jony Ive, apresentando linhas futuristas que se afastam da estética clássica da marca.

O modelo foi avaliado em US$ 640 mil. O estúdio contratado é um dos mais renomados do mundo em design. A decisão de eletrificar a Ferrari, de romper com décadas de estética e de posicionar o carro para cinco ocupantes em uso diário não foi tomada por um único executivo numa tarde de terça-feira.

Projetos dessa escala envolvem o CEO, o conselho, times de engenharia, design, marketing, estratégia e finanças. Envolvem aprovações em múltiplos níveis, pesquisas de mercado, análises competitivas e decisões que levam anos para se materializar. Galliera foi fundamental na consolidação do modelo de negócios exclusivo da Ferrari, baseado rigorosamente na manutenção de uma produção limitada de veículos para preservar o valor e o status de exclusividade.

Mas quando as ações caíram e os memes explodiram, o comunicado veio com o nome de um único executivo.

O espaço para erro que as organizações prometem e não entregam

Toda empresa de alta performance tem, em seu discurso, alguma versão da mesma frase: aqui valorizamos quem arrisca, o erro faz parte do aprendizado, queremos líderes corajosos que tomem decisões difíceis.

O caso Ferrari coloca esse discurso à prova com uma precisão incômoda. Galliera tomou decisões corajosas por 16 anos. Conhecido pelo apelido de "Dr. No", ele era uma das figuras mais influentes da fabricante: decidia pessoalmente quem podia comprar os modelos mais raros e exclusivos e chegou a barrar celebridades como Justin Bieber e Kim Kardashian por descumprirem os padrões da marca. Era exatamente o tipo de liderança que as organizações dizem querer: opinativa, criteriosamente apressada e convicta.

Quando o projeto mais ousado da história recente da empresa gerou reação negativa, o espaço para erro se revelou menor do que o discurso sugeria. E o executivo que carregava o título de marketing e comercial virou o rosto público da decisão que, na prática, pertencia à organização inteira.

Isso não é exclusividade da Ferrari. É o funcionamento padrão das grandes organizações diante de crises de imagem: encontrar um rosto, desconectar oficialmente o incidente da saída e seguir em frente. A narrativa corporativa é construída com cuidado. A realidade vivida pelo executivo é outra.

A liderança é, sobretudo, solitária no erro

Existe uma assimetria estrutural no exercício da liderança que raramente é discutida com honestidade durante os processos seletivos, as promoções e os discursos de posse: o sucesso tem muitos pais, o fracasso tem um endereço.

Quando o projeto vai bem, a organização compartilha o resultado. O CEO celebra a equipe. O conselho aprova o bônus. O time inteiro aparece na foto. Quando o projeto vai mal, o executivo que assina a área descobre que a responsabilidade tem uma concentração específica. O mesmo conselho que aprovou a estratégia na reunião de planejamento assiste, com silêncio confortável, à saída daquele que a executou.

Isso não significa que líderes não devam responder por seus resultados. Significa que há uma diferença significativa entre responsabilidade real e responsabilidade simbólica, e as organizações frequentemente confundem as duas, sobretudo quando precisam de um sinal para o mercado.

A ação subiu depois do anúncio da saída de Galliera? Esse é o dado que revela a função real da troca.

O que líderes precisam entender antes de aceitar o risco

O caso Enrico Galliera não é um alerta para que líderes evitem projetos ousados. É um convite para que entendam, com clareza e antes do contrato assinado, qual é o contexto em que estão operando.

Algumas perguntas que todo executivo deveria fazer antes de assumir um projeto de alto risco numa organização:

Quem mais tem responsabilidade formal sobre essa decisão, além de mim? O conselho está genuinamente comprometido com a estratégia ou está apenas aprovando para delegar o risco para baixo? Se o resultado for negativo, como essa organização historicamente trata o executivo responsável? Existe cultura real de aprendizado com erro aqui, ou existe cultura de gestão de narrativa pós-erro?

As respostas para essas perguntas raramente aparecem no organograma. Aparecem no histórico da empresa. E líderes que desenvolvem a capacidade de ler esse histórico antes de agir tomam decisões mais informadas sobre onde e como colocar sua reputação em jogo.

O Executive Program da StartSe foi desenhado para líderes que precisam desenvolver exatamente esse tipo de leitura: como navegar decisões de alto risco em organizações complexas, como construir alianças que distribuam "responsabilidade de dono" de forma real e como proteger sua trajetória sem abrir mão da coragem de decidir.

O comunicado que a Ferrari não vai emitir

A Ferrari seguirá em frente, lógico. O Luce provavelmente encontrará seu público, porque carros de US$ 640 mil têm mercado mesmo quando geram memes e um fracasso de vendas de uma linha específica não abalará o futuro da companhia. O novo diretor assumirá em julho e construirá sua própria narrativa.

Enrico Galliera iniciará um novo capítulo profissional, como o comunicado descreveu com elegância corporativa. E a pergunta que o caso deixa para qualquer líder que lê essa história com atenção permanecerá sem resposta oficial:

Quando a decisão foi coletiva e o erro acaba recaindo sobre o individual, quem de fato errou?

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Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.

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