Zebras ou unicórnios? Uma discussão em torno do lucro das startups

Tainá Freitas

Por Tainá Freitas

7 de fevereiro de 2020 às 18:12 - Atualizado há 2 meses

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Um jargão tem ganhado cada vez mais relevância no ecossistema empreendedor: zebra. A palavra rivaliza diretamente com “unicórnio, que é utilizada para caracterizar as startups que alcançam o valor de mercado de US$ 1 bilhão. Enquanto essas empresas dependem de aportes de venture capital, as “zebras” se diferenciam por apostar no lucro e na sustentabilidade, desde o início, como um modelo de negócio.

Startups possuem, entre suas características, a escalabilidade e um crescimento acelerado. Para alimentar esta necessidade, elas dependem muito frequentemente de capital de risco. A promessa é que, em algum momento, o valor investido seja retornado com lucros exponenciais — o que nem sempre acontece.

Um dos exemplos mais recentes é a WeWork. A empresa de co-working viu seu valor de mercado despencar de forma avassaladora após uma tentativa de primeira oferta de ações (IPO) frustrada. A startup revelou um prejuízo de quase US$ 2 bilhões no ano passado. A companhia acabou tendo que recorrer ao seu maior investidor, o Softbank, que assumiu o controle.

Já a Uber, um dos maiores exemplos de startup não-lucrativa, anunciou nesta quinta-feira (6) que irá mudar seu posicionamento. “A era do crescimento a qualquer custo acabou”, disse Dara Khosrowshahi, CEO da companhia, na divulgação dos resultados do último trimestre da empresa. Com a mudança, a Uber começará a priorizar o lucro ao invés do crescimento. A companhia realizou um IPO neste ano e não obteve o resultado esperado.

Zebras unidas

O movimento “Zebras United” foi criado em 2017 pelas empreendedoras e CEOs Mara Zepeda, Aniyia Williams, Astrid Scholz e Jennifer Brandel. Elas publicaram um artigo no Medium para defender a tese. O artigo tem início com a frase “Zebras consertam o que unicórnios quebram”. Além da saúde financeira, as zebras são caracterizadas pela colaboração (pois andam sempre em grupo) e rentabilidade. Fundado nos Estados Unidos, o conceito é alvo de discussão em vários países — inclusive no Brasil.

Hoje, a maioria dos unicórnios do país são empresas que possuem as contas no vermelho. Fundadores do Nubank, por exemplo, respondem constantemente em entrevistas que o lucro não é o foco da empresa. Embora a fintech continue crescendo em receita, ainda possui prejuízos — e prefere utilizar o caixa para continuar adquirindo clientes e lançando produtos.

O déficit não é uma regra. Embora os investimentos e a atuação do venture capital no Brasil e no mundo tenha crescido, ainda há o método alternativo conhecido como “bootstrapping”, em que as startups financiam seu próprio crescimento. “A Microsoft é gigante e foi bootstrapping, nunca usou aportes. Essas companhias tendem a ser mais rentáveis porque serão elas quem irão pagar as próprias contas”, afirma Marília Cardoso, sócia-fundadora da consultoria de inovação PALAS, em entrevista excluvisa à StartSe.

“Existem muitas startups com problemas no modelo de negócios. Cada produto ou serviço novo precisa possuir três coisas: ser desejável, ser tecnicamente possível e financeiramente viável”, explica Cardoso. Para a executiva, é importante que a gestão seja bem executada — e é aí que entram as zebras.

“As zebras provêm a união entre o lucro e o propósito. Uma empresa que não dá lucro, na minha opinião, não deveria valer um bilhão de dólares. É prematuro, ela não se provou ser autossustentável, não viveu o suficiente para dar lucro”, comenta Cardoso. “É preciso ter um pouco mais de cautela, que os riscos sejam bem calculados, se não a queda é grande”.