Greenpeople: de produção caseira de sucos a startup com receita de R$ 21 milhões

Entenda como Bianca Laufer criou uma empresa referência em alimentação saudável a partir do zero

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A Greenpeople é uma startup que vende sucos e snacks saudáveis. Os produtos da empresa estão nas principais redes de supermercado do Brasil e têm fatores tecnológicos que os diferenciam da concorrência, por conservarem nutrientes e vitaminas das frutas, sem aditivos. Em 2018, a Greenpeople faturou R$ 21 milhões e, neste ano, a expectativa é atingir quase o dobro deste valor: R$ 40 milhões.

No entanto, quando a carioca Bianca Laufer começou a fazer sucos em casa, em 2014, o cenário era outro. Ela estava há oito anos fora sem trabalhar, após sair de seu emprego no mercado financeiro para cuidar dos filhos. O mercado de alimentação saudável não era tão estruturado, ela não tinha sócios e tampouco a tecnologia de que dispõe hoje. Com uma máquina caseira que prensava os sucos a frio, a empreendedora era encarregada de toda a produção e também realizava a entrega das bebidas aos amigos, em um modelo de encomenda. “Na época, o suco só durava três dias, tem que ser refrigerado, então eu não tinha como ter um estoque”, recorda.

Alcançar resultados tão expressivos em apenas cinco anos requereu uma dedicação extraordinária, que Bianca chama de “obsessão”. “Quando eu quero fazer alguma coisa, eu boto na minha cabeça que tenho que ser a melhor”, revela a empreendedora.

Por que sucos prensados a frio?

Alimentação sempre foi um tema importante na vida de Bianca Laufer. Na juventude, ela lutou contra a anorexia e, desde então, pensa na nutrição equilibrada como prioridade. Em uma viagem ao Havaí, em 2013, tomou pela primeira vez um suco prensado a frio e ficou impressionada tanto pelo sabor quanto pelos benefícios à saúde. A partir dali, decidiu comprar uma prensa hidráulica caseira para trazer o produto ao Rio de Janeiro.

Segundo a nutricionista Alessandra Luglio, sucos prensados a frio são mais frescos, homogêneos e consistentes que os tradicionais. “No liquidificador ou na centrífuga, os ingredientes são triturados por lâminas em alta velocidade gerando maior atrito, formação de calor e contato aumentado com o oxigênio presente no ar, o que leva à oxidação, promovendo perdas nutritivas e de parte das enzimas”, explica.

No caso da Greenpeople, “a extração do suco de frutas, verduras e legumes é feita através de uma prensa hidráulica e moedores de baixa rotação e velocidade, para que não sejam criados atritos e nem gere calor”, afirma Alessandra.

Sociedade e tecnologia

Apesar do suco prensado a frio manter nutrientes e enzimas importantes para a saúde, ele precisa ser refrigerado e tem validade de apenas três dias. Isto era um impeditivo para expansão do negócio, já que a logística para entregar o produto a longas distâncias era inviável neste período. Uma solução de conservação, que seria a pasteurização – processo utilizado na grande maioria dos sucos do mercado – iria acabar com os benefícios da prensa fria.

A resposta foi buscar inovação tecnológica. Bianca Laufer pesquisou outras formas de conservar o produto, e descobriu uma máquina que utiliza alta pressão para manter sucos válidos por até 70 dias. O problema era que ela custava R$ 15 milhões.

Foi necessário, portanto, encontrar sócios com capital suficiente para importar a tecnologia. Bianca conseguiu chamar atenção de investidores de renome. Hoje, têm participação na Greenpeople nomes como Luciano Huck, a família Gouvêa Vieira (Eduardo e as filhas, Teresa e Lucilia) e Oskar e Nazaré Metsavaht.

“Hoje, temos duas máquinas de alta pressão. Para ter uma ideia, só existem cerca de 200 máquinas dessa no mundo todo”, diz a fundadora da Greenpeople.

Cliente Coca-Cola

Embora a alimentação saudável seja um mercado crescente no Brasil e no mundo, Bianca entende que, para cumprir o propósito da Greenpeople, é preciso ir além deste nicho.

“Antes de virar sócia, a Teresa (Gouvêa Vieira) era cliente”, conta a empreendedora. “É uma história interessante, porque, diferente de mim, ela não é o cliente mais óbvio da Green People. Ela toma Coca-Cola! E me ligava falando que o suco é uma delícia. Se a consumidora que não é natureba gosta do produto, é uma validação, mostra que tem escala, que não é algo segmentado”.

A motivação de escalar o produto vai muito além da sócia e amiga. Bianca Laufer revela que a realização pessoal e como empreendedora está vindo com as recentes parcerias que a Greenpeople firmou: “Estamos entrando em escolas e hospitais”.

Hoje, a startup tem parceria logística com a Danone para entrega refrigerada dos mais de 23 sabores de suco, que correspondem a 90% da receita – o restante vem de snacks saudáveis. A previsão é de faturar R$ 40 milhões em 2019, e R$ 70 milhões no ano que vem. Atualmente, os produtos estão disponíveis em redes como Walmart, Carrefour e Pão de Açúcar.

Diferenciais

De acordo com a fundadora, um dos fatores que alavancou o crescimento da Greenpeople foi a questão do timing. Em 2014, não havia tanta oferta de alimentação saudável no mercado. “Avaliando agora, acho que comecei a Greenpeople dois anos antes do movimento. Isto foi bom, porque deu tempo de errar bastante”, diz.

Até hoje, a prensa a frio e a conservação diferenciam os sucos da marca da concorrência. No entanto, Bianca Laufer acredita que ser a única startup com estas tecnologias não é necessariamente bom para o crescimento. Isto porque ela acaba sendo a única empresa que busca educar o consumidor sobre as vantagens para a saúde destes produtos.

Mas, no fim do dia, o que faz a diferença na Greenpeople são as pessoas. “Eu trabalho com o produto mais difícil do mundo. No começo, ele só tinha três dias de validade, tem que ser refrigerado o tempo todo, o que atrapalha toda a logística. Quem trabalhou na Greenpeople desde o início tem a capacidade de empreender em qualquer negócio”, afirma Bianca Laufer.

“Quando eu trabalhava no mercado financeiro, o meu chefe, um norte-americano, me dizia para não aceitar não como resposta. É o que eu tento passar para meus funcionários, tirar as pessoas da zona de conforto, fazer com que eles pensem fora da caixa. Para empreender no Brasil é preciso ser criativo. Todos os dias, vão aparecer cinco motivos para desistir, razões concretas mesmo, e você precisa superar todas elas para seguir em frente”, finaliza a empreendedora.

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