Bingo corporativo: manual de não-uso

Juliana Glezer

Por Juliana Glezer

30 de junho de 2020 às 18:29 - Atualizado há 4 meses

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Vivemos em um paradoxo: bombardeados intensamente por dados e mais dados, temos a pressão social e profissional de nos mantermos sempre atualizados. Já teve essa sensação? Ao invés de nos aprofundarmos nos assuntos, consumimos breves manchetes de notícias, sem ao menos clicarmos para ver se o link era de alguma fake news. Nesse mundo de conteúdo aos baldes, seria curadoria o novo petróleo?

A superficialidade é uma constante dos tempos atuais. Impressionante que isso ocorra justo em um momento em que temos excesso de informação. Soma-se a isso a tendência de anglicismos nas empresas, o que dificulta ainda mais o consenso e a compreensão.

Pra você não dar nenhum fora ou para evitar ruído na comunicação, trago aqui alguns exemplos recorrentes de palavras da moda no escritório. E que comece o bingo corporativo! Desafio você a passar mais do que um dia sem ouvir alguma dessas palavras de forma equivocada e a completar sua cartela!

Pilotar x pivotar é um clássico do “startupês”. Pivotar é um termo derivado do inglês “pivot” (“mudar” ou “girar”) e significa uma mudança radical e estratégica no rumo do negócio, quando o empreendedor percebe que estava no caminho errado.  No caso de um pequeno ajuste no plano de negócios, como trocar um fornecedor ou adicionar uma nova funcionalidade secundária, o empreendedor não pivota, ele muda de ideia.

piloto é normalmente utilizado na primeira etapa da implementação de um serviço. Mais do que testar ou experimentar, o piloto já é “pra valer”. Em geral, é feito em um grupo de pessoas/clientes reduzido. Os pilotos ajudam a identificar e a ajustar problemas antes de expor o que está sendo desenvolvido a um grande público.

Não confunda piloto com Prova de Conceito (PoC), protótipo e MVP, que são outros métodos de testar e validar soluções de forma rápida e barata. Vou passar, abaixo, pela diferença entre esses métodos, tendo em mente  que não se trata de uma definição universal, pois  a abordagem pode mudar de acordo com a empresa.

Longe de mim ser a fiscal do léxico corporativo: mais importante do que usar o termo correto é alinhar o objetivo do teste para garantir que todos estejam falando sobre a mesma coisa.

Vamos continuar? Prova de Conceito envolve um pequeno exercício de teste no mundo real para medir o potencial de um projeto, cuja ideia ainda está incompleta. Aqui o objetivo é validar a viabilidade, e ela deve ser usada em etapas iniciais de um projeto.

protótipo é uma versão visível, tangível ou funcional de uma ideia. Ele pode ser usado no início de um desenvolvimento de projeto, mas serve para fazer um teste com o usuário para aprender com os retornos. Os protótipos normalmente são usados para testar uma hipótese sobre uma solução que tem alguma incerteza sobre como deve ser a aparência, experiência de uso e/ou funcionalidades.

O Mínimo Produto Viável (MVP) permite você acelerar aprendizados sobre uma possível solução com o mínimo de recursos possível. Aqui a empresa/startup une forças para fazer o mercado validar um conceito, antes de gastar baldes de dinheiro com um projeto.

Com este método é feito um recorte preciso do que é a parte mais essencial da solução ou conceito, além de testá-los, na prática, com usuários reais. O MVP é muito útil para validar se há demanda ou necessidade da solução. Isso significa que você poderá identificar o que funciona e o que não funciona e então pivotar sua solução com os retornos coletados.

Resumindo, as principais diferenças entre os métodos (veja ilustração logo abaixo) são:

– Estágio do projeto;
-Necessidade de mais ou menos recursos;
-Nível de complexidade;
-Escopo (se considera parte ou a solução como um todo).

Fonte: Livre tradução de nesta.org

Vamos à Inovação disruptiva? Só um spoiler, Uber não é um exemplo dessa categoria de inovação! Ela é mais uma expressão que foi esvaziada de significado.  O termo foi criado pelo professor Clay Christensen, da Harvard Business School. Segundo ele, toda companhia bem-sucedida será um dia ameaçada e superada por um concorrente novato e revolucionário.

Os disruptivos entram no mercado, silenciosamente, abocanhando pelas beiradas. No começo do ciclo de disrupção, muitas vezes, a inovação não é considerada boa o suficiente frente à demanda dos consumidores até que, em última instância, passa a cobrir o mercado principal, melhorando a qualidade.

Os disruptores são extremamente importantes para manter o mercado vivo e em constante desenvolvimento. De acordo com o professor Christensen, um negócio disruptivo ganha posição em um mercado que havia sido ignorado pelas empresas estabelecidas, que eram mais focadas em clientes rentáveis.

Os gigantes da indústria, em geral, se concentram na inovação incremental, atualizando os produtos existentes para atrair clientes que pagam mais. Eles podem complicar demais o produto, adicionando recursos sofisticados pelos quais ninguém deseja pagar, ignorando os clientes que querem apenas uma alternativa simples de baixo custo. Já os disruptores desenvolvem uma oferta básica para quem deseja um substituto simples. Assim, eles aprimoram o produto e avançam até assumirem o mercado. O caso da Uber não é aplicável a essas suposições. O aplicativo capturou pessoas que já usavam serviços de táxi e não criou um mercado totalmente novo.

No mundo dos alimentos, temos também nossas palavrinhas em alta. Hoje, a principal é FoodTech. Aqui temos um desafio, pois não há consenso no mercado sobre uma definição correta do termo.

Alguns consideram que FoodTechs são StartUps de alimentos ou ingredientes com algum caráter tecnológico em sua cadeia, com a premissa de produzirem algum produto físico (por exemplo, StartUps de comida de laboratório, como o hambúrguer feito à base de células de animais).

Já outros, consideram FoodTech tudo o que envolve a cadeia de alimentos, desde o plantio das sementes, até a mesa do consumidor, passando por produtos e serviços. Eu posso estar caindo em uma cilada, mas costumo acreditar nessa segunda definição.

Você não precisa ser um dicionário ambulante, mas é sempre bom que todos do time falem a mesma língua ao começarem um projeto, pois o alinhamento também passa pela comunicação.

E para finalizar, cuidado com a maldição do bingo corporativo, pois se você falar mais de três vezes a palavra mindset, corre o risco de virar um coach quântico.