A empresa que construiu o maior ecossistema de redes sociais do mundo está se reconstruindo por dentro: menos camadas, menos interações humanas desnecessárias, mais agentes autônomos.
Mark Zuckerberg, dono da Meta (Foto: Anthony Quintano/Flickr)
, redator(a) da StartSe
9 min
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23 mar 2026
•
Atualizado: 23 mar 2026
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Durante anos, o debate sobre inteligência artificial nas empresas girou em torno de ferramentas. Quais usar, como adotar, quem treinar. O pressuposto implícito era que a IA ajudaria as pessoas a trabalhar melhor — mas que as pessoas continuariam sendo o centro do processo.
Zuckerberg está descartando esse pressuposto.
A Meta está desenvolvendo um assistente interno de IA para concentrar informações sobre projetos, planos e iniciativas da empresa em uma única ferramenta de conversa. A proposta é que funcionários consigam acessar, por meio de perguntas feitas à IA, dados antes dispersos entre diferentes equipes e departamentos.
Na prática, o sistema funcionaria como um assistente pessoal corporativo que reduz o número de interações humanas necessárias para encontrar uma informação, tomar uma decisão ou avançar em um projeto. Menos reuniões. Menos escaladas. Menos pessoas no caminho entre uma pergunta e uma resposta.
Isso não é otimização de processo. É uma reconfiguração de como o trabalho é organizado.
A lógica por trás do movimento
O movimento integra um pacote de mudanças internas com o objetivo de tornar a Meta mais ágil diante da concorrência com startups menores, já estruturadas em torno de ferramentas de IA.
Esse ponto merece atenção. Zuckerberg não está respondendo à pressão de outras big techs. Está respondendo à pressão de empresas pequenas que nasceram em um mundo de IA e que, por isso, operam com uma eficiência estrutural que organizações legadas simplesmente não conseguem alcançar com o modelo atual.
Uma startup de dez pessoas com agentes de IA bem configurados pode competir em produtividade com equipes de cinquenta. O que antes era uma desvantagem de escala — ser pequeno — virou uma vantagem de agilidade. E Zuckerberg sabe que a Meta, com seus dezenas de milhares de funcionários, precisa mudar a forma como opera internamente para não perder essa corrida para baixo.
"Estamos investindo em ferramentas nativas de IA para que os funcionários da Meta possam ser mais produtivos", disse o executivo, ao defender a valorização dos colaboradores individuais e uma operação mais enxuta.
Os sistemas já rodando dentro da empresa
O que chama atenção nessa história não é a intenção — é que parte disso já está em funcionamento.
Entre os sistemas já usados por funcionários estariam o My Claw, voltado à interação com agentes de outros colaboradores, e o Second Brain, criado por um empregado da Meta para facilitar o acesso a documentos internos. Hackathons e outras iniciativas ligadas a IA também têm sido usados para manter o aprendizado em circulação dentro da empresa.
O Second Brain é particularmente revelador. Foi criado por um funcionário, não pela liderança. E virou produto interno. Isso sugere que a cultura de construção com IA já está enraizada nas equipes — e que a empresa está formalizando e escalando o que surgiu de baixo para cima.
A aquisição que acelerou tudo
No fim de 2025, a Meta comprou a empresa Manus, de origem chinesa e sediada em Singapura, e integrou sua tecnologia ao Meta AI. A aquisição reforçou a tentativa da companhia de competir com Anthropic, OpenAI e Google no mercado de IA — e teria incorporado à Meta toda a equipe da Manus, incluindo seus fundadores.
Comprar tecnologia pronta e trazer o time completo é um sinal de urgência. A Meta não tem tempo — ou disposição — para construir tudo do zero enquanto os concorrentes avançam. A estratégia é adquirir, integrar e escalar. E usar o que foi comprado tanto nos produtos externos quanto na reorganização interna.
O paradoxo do modelo que ainda não chegou
Nada disso acontece em um vácuo de pressão. O modelo de codinome Avocado teve a estreia adiada para junho após resultados considerados fracos em testes comparativos com rivais.
A empresa que está reorganizando seus processos internos em torno da IA ainda está correndo para lançar o modelo que deveria ser o coração dessa transformação. É a tensão clássica entre o ritmo da mudança organizacional e o ritmo do desenvolvimento tecnológico — e a Meta está vivendo as duas ao mesmo tempo.
A empresa já teria direcionado centenas de bilhões de dólares para a construção de centros de processamento de dados, enquanto a projeção anual de investimentos ficaria entre US$ 115 bilhões e US$ 135 bilhões. O dinheiro está entrando. O produto que justifica o investimento ainda está sendo ajustado.
O que isso significa para quem lidera empresas hoje
A Meta não é uma empresa qualquer. É uma das organizações mais sofisticadas do mundo em termos de dados, produto e escala. Quando ela decide reorganizar sua estrutura interna em torno de agentes de IA, não está fazendo um experimento. Está dando um sinal ao mercado sobre o que vai ser padrão nos próximos três a cinco anos.
O executivo que interpretar esse movimento como "coisa de big tech que não se aplica à minha empresa" vai descobrir, tarde demais, que as startups e concorrentes menores já estavam operando com essa lógica enquanto ele esperava para ver.
A pergunta que cada liderança precisa responder agora não é se vai adotar IA. É o que vai mudar na estrutura da empresa quando a IA deixar de ser ferramenta e passar a ser membro do time. E quem dentro da organização está tomando essa decisão com urgência real.
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Bruno Lois
redator(a) da Startse
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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