Em janeiro de 2026, o comércio varejista atingiu o ponto mais alto de toda a sua série histórica — superando expectativas, revertendo a queda de dezembro e revelando quem são os novos protagonistas do consumo no Brasil.
(Foto: GettyImages).
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12 mar 2026
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Atualizado: 12 mar 2026
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Quando o IBGE divulgou, na última quarta-feira (11/3), os dados de vendas do varejo referentes a janeiro de 2026, a notícia passou quase despercebida nos noticiários gerais. Mas os números escondem algo relevante para quem acompanha o ritmo da economia real: o varejo brasileiro atingiu, neste início de ano, o maior patamar de vendas desde que o IBGE começou a medir o setor, em 2000.
Isso não acontece com frequência. O próprio gerente da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) do IBGE, Cristiano Santos, reconheceu: renovações de pico histórico são eventos raros. A última vez havia sido em novembro de 2025 — e, antes disso, em março do mesmo ano.
"Apesar da variação baixa, a taxa positiva faz janeiro atingir o ponto mais alto da série da margem. Renovações do pico não são tão comuns assim." — Cristiano Santos, IBGE
O número que parece pequeno — mas não é
O crescimento de 0,4% na comparação com dezembro pode parecer modesto. E de certa forma, é. Mas o contexto muda tudo. Em dezembro de 2025, o varejo havia caído 0,4%. Janeiro, portanto, reverteu integralmente esse recuo — e foi além, alcançando novo topo histórico.
Na comparação com janeiro do ano anterior, a alta foi de 2,8% — bem acima da projeção de mercado, que apontava para 1,65%. Em 12 meses, o setor acumula expansão de 1,6%.
O varejo ampliado — que inclui veículos, materiais de construção e atacado de alimentos — cresceu 0,9% em janeiro, atingindo o décimo mês consecutivo de alta nessa base de comparação. Dez meses seguidos. Em um cenário de juros elevados e dólar volátil, esse número exige atenção.
Quem está puxando o crescimento
Nem todos os setores cresceram — e entender quem sobe e quem cai revela muito sobre o perfil do consumidor brasileiro no início de 2026.
Segmento | Var. Mensal | Var. Anual | Tendência |
Farmácias e Perfumaria | +2,6% | +5,1% | 🔼 Alta |
Vestuário e Calçados | +1,8% | +0,8% | 🔼 Alta |
Móveis e Eletrodomésticos | 0,0% | +6,1% | ➡ Estável |
Informática e Eletrônicos | -9,3% | +5,6% | 🔽 Queda |
Supermercados e Alimentos | +0,4% | +2,9% | 🔼 Alta |
O grande destaque positivo foi o setor farmacêutico. Farmácias, drogarias e produtos de higiene e beleza registraram alta de 2,6% — a maior entre todos os segmentos em janeiro. E não é fenômeno isolado: desde julho de 2025, o setor cresce quase ininterruptamente. A beleza e o autocuidado seguem como vetores sólidos de consumo no Brasil, independentemente do ciclo econômico.
Vestuário e calçados vieram logo atrás, com +1,8%. Após um período de contenção, o brasileiro voltou a comprar roupas — um sinal possível de que o mercado de trabalho aquecido e os programas de transferência de renda seguem sustentando a base da pirâmide de consumo.
No campo negativo, o grande vilão foi o setor de informática e eletrônicos: -9,3%. A queda parece dramática, mas tem explicação técnica: o segmento vinha de crescimento forte durante a Black Friday e o Natal de 2025, e os estoques das empresas — que foram repostos em momentos de valorização do real — aguardavam o momento certo de serem colocados à venda. O dólar volátil criou um ambiente de "espera estratégica" nos lojistas.
O mapa do varejo no Brasil: quem cresceu onde
O crescimento não foi exclusividade de São Paulo ou do Sul. Na comparação com janeiro de 2025, o varejo cresceu em 26 das 27 unidades da federação — com destaque para regiões historicamente consideradas periféricas no debate econômico:
Pernambuco: +11,4% | Rondônia: +11,2% | Distrito Federal: +6,9%
Pernambuco e Rondônia liderando o ranking nacional do varejo é um dado que merece análise. Em Pernambuco, a combinação de programas sociais federais, crescimento da renda formal e expansão do setor de serviços tem sustentado o consumo. Em Rondônia, a economia agropecuária aquecida e a expansão da fronteira de serviços criam uma base de demanda resiliente.
O único estado com resultado negativo foi o Piauí (-0,6%). No varejo ampliado, São Paulo (-1,9%) e Rio Grande do Sul (-1,9%) registraram retração em relação a janeiro de 2025 — no caso gaúcho, os efeitos da reconstrução pós-enchentes ainda mostram impacto nas estatísticas de consumo regular.
O que os economistas estão dizendo
A expectativa é que os efeitos defasados do aperto monetário — os juros mais altos dos últimos anos — sigam pressionando o consumo ao longo de 2026. O varejo está no topo, mas caminhando sobre terreno delicado.
O PIB brasileiro cresceu 2,3% em 2025 — mas terminou o ano quase estagnado, com alta de apenas 0,1% no quarto trimestre. O varejo, por ora, parece ter absorvido esse baque melhor do que o esperado. A questão é se esse fôlego vai durar.
3 tendências para ficar de olho em 2026
1. A farmácia como novo hub de consumo. O crescimento constante do setor farmacêutico não é só sobre remédios. É sobre beleza, wellness, suplementação e autocuidado. Marcas e varejistas que entenderem esse reposicionamento têm uma oportunidade clara.
2. O interior do Brasil como motor do crescimento. Pernambuco, Rondônia, Mato Grosso — o varejo cresce mais rápido onde a renda formal está chegando com mais força. Quem ainda olha apenas para os grandes centros pode estar perdendo a melhor parte do mercado.
3. Eletrônicos: queda temporária ou sinal de alerta? A retração de 9,3% no setor de tecnologia pode ser pontual — um ajuste após o boom do fim de 2025. Mas se o dólar permanecer alto e a renda real não acelerar, o consumidor pode postergar trocas de dispositivos por mais tempo do que o setor gostaria.
A fotografia de um País que consome, apesar de yudo
O recorde histórico do varejo brasileiro em janeiro de 2026 não é um sinal de que tudo vai bem. A inflação persiste, os juros estão altos e o crescimento do PIB desacelerou no fim de 2025. Mas é um sinal de que o consumidor brasileiro — pressionado de todos os lados — ainda encontra formas de manter o carrinho em movimento.
Para as empresas e líderes, o recado é claro: o mercado existe, a demanda está viva. O desafio agora é entender quais produtos, em quais regiões, para quais perfis de consumidor — e com qual estratégia de precificação em um ambiente de câmbio volátil e crédito caro.
Quem acertar essas respostas em 2026 vai surfar um ciclo que, por ora, ainda tem fôlego.
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Bruno Lois
redator(a) da Startse
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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