Paul Accornero, o pesquisador que definiu o Agentic Commerce como disciplina, foi ao AI Festival mostrar por que o funil de marketing morreu — e o que as marcas precisam fazer antes de amanhã
Pesquisador em IA, Paul Accornero é o criador do conceito de AI Agentic Commerce
, Editor
7 min
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14 mai 2026
•
Atualizado: 14 mai 2026
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Em 1975, um jovem engenheiro da Kodak entrou numa sala de diretoria carregando o futuro nas mãos: a primeira câmera digital do mundo. O que aconteceu a seguir é uma das histórias mais instrutivas do capitalismo moderno. Os executivos olharam para o aparelho, acharam "fofo" — e mandaram o engenheiro não contar para ninguém. Três décadas depois, a Kodak quebrou exatamente por causa do que tentou esconder naquele dia.
Paul F. Accornero abriu sua palestra no AI Festival 2026 com essa história — não por nostalgia, mas por diagnóstico.
O mundo comercial está vivendo seu próprio momento Kodak. A câmera digital está sobre a mesa. A questão, nas palavras do próprio Accornero, é o que os líderes vão fazer com isso.
O paradigma antigo está se desintegrando
Durante décadas, a genialidade do marketing era simples: convencer um ser humano a escolher uma caixa de sabão em pó em vez de outra. O comprador era humano. O consumidor era humano. Eram a mesma pessoa. Toda a estrutura do varejo, da publicidade, do branding e da fidelização foi construída sobre essa premissa. Ela não é mais verdadeira.
Agentes de IA autônomos estão assumindo a função de comprador — pesquisando, comparando, negociando e executando a compra em milissegundos, sem que o consumidor humano precise apertar um botão. O consumidor ainda existe. O comprador mudou de natureza. Essa separação é o que Accornero chama de The Shopper Schism — a primeira ruptura permanente entre quem consome e quem compra na história do comércio.
Duas crises. Um mecanismo.
Accornero estruturou as consequências dessa ruptura em dois problemas urgentes que compartilham a mesma origem.
O primeiro é a morte do funil. O agente de IA comprime toda a jornada — da consciência à compra — num único evento computacional medido em milissegundos. Não existe meio do funil. Não existe fase de consideração. Existe uma consulta e um resultado. Se o playbook da sua empresa depende de nutrir um prospect ao longo do tempo, esse playbook já é obsoleto.
O segundo é a transferência de lealdade. A relação que o cliente valorizava era com a sua marca. Agora essa relação é intermediada — e a lealdade migrou para o agente, não para você. O programa de fidelidade que você construiu para um ser humano não pode ser resgatado por um software. Ambas as crises, ressaltou Accornero, são consequência de um único mecanismo: o que ele nomeia como Greta Value Sort — a lógica pela qual os agentes ordenam e selecionam produtos com base em fatores que as marcas ainda não aprenderam a gerenciar.
O agente não decide como você imagina
Um dos slides mais reveladores da palestra apresentou o Agent Decision Preference Stack — o mapa de como agentes de IA realmente tomam decisões de compra. Os dados, baseados em mais de 1.000 mercados simulados por Accornero (2025, 2026), são contraintuitivos: fatores operacionais pesam entre 30% e 70% a mais do que reputação de marca nas decisões de compra feitas por agentes.
Qualidade de dados, acesso via API e confiabilidade de entrega valem mais do que brand equity, storytelling criativo e capital de relacionamento — os pilares sobre os quais a maioria das empresas ainda está apostando.
A conclusão é direta: operações se tornam mais importantes do que marketing. A base competitiva inverteu.
O novo playbook: AIO
Se o SEO foi criado para ser encontrado por humanos em mecanismos de busca, e o GEO (Generative Engine Optimization) foi a adaptação para respostas geradas por IA — ambos ainda assumem que há um comprador humano no final do processo. O AIO — Agent Intent Optimisation, conceito proprietário de Accornero — parte de uma premissa radicalmente diferente: não há humano no loop. A otimização precisa ser feita para o agente, não para a pessoa.
No novo mundo, as vantagens competitivas que importam são excelência operacional, qualidade de dados e APIs, e confiabilidade sistêmica. Não criatividade. Não narrativa. Não relacionamento — pelo menos não da forma que as empresas conheciam.
O que fazer amanhã de manhã
Accornero encerrou com duas ações concretas que qualquer líder pode executar imediatamente.
A primeira é uma verificação: pergunte ao seu time qual percentual dos dados de produto da empresa está estruturado, verificado e acessível via API. A maioria das empresas, segundo ele, está abaixo de 40%. Esse número é o ponto de partida real da conversa sobre prontidão para a era agêntica.
A segunda é uma auditoria: o Algorithmic Readiness Audit (ARA) — desenvolvido ao longo de mais de três anos de pesquisa acadêmica — analisa marca, produto ou serviço e revela o que o AI Shopper enxerga quando toma uma decisão. Não o que a empresa acredita que comunica. O que o algoritmo efetivamente lê.
Paul conclui que agentes de IA por todo o mundo vão decidir quais marcas são convidadas para dentro dos lares das pessoas — e quais não são. Esse agente não precisa da sua permissão para tomar essa decisão.
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Bruno Lois
, Editor
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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