O número circula em apresentação de conselho como prova do que a inteligência artificial tornou possível, e nenhuma empresa brasileira deveria usá-lo como referência.
A Midjourney gera cerca de US$ 200 milhões por ano com aproximadamente onze funcionários. São US$ 18 milhões por pessoa.
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19 set 2026
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Atualizado: 19 set 2026
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A Midjourney gera cerca de US$ 200 milhões por ano com aproximadamente onze funcionários. São US$ 18 milhões por pessoa. O número circula em apresentação de conselho como prova do que a inteligência artificial tornou possível, e nenhuma empresa brasileira deveria usá-lo como referência. Receita por funcionário virou a métrica da vez sem que ninguém combinasse contra quem ela deve ser medida.
Por que isso importa: a métrica é útil e a comparação errada a torna inútil. Comparada ao outlier, ela produz meta impossível. Comparada à mediana do setor, ela produz conformismo. O que decide é saber em qual degrau a empresa está e qual é o degrau seguinte.
Os números acima parecem contraditórios e não são. Medem populações diferentes com réguas diferentes, e é exatamente aí que a métrica costuma ser mal usada.
O degrau de baixo é a mediana do software privado, perto de US$ 193 mil por funcionário. O segundo é o das melhores empresas de capital aberto, entre US$ 395 mil e US$ 500 mil. A Salesforce, décadas de execução considerada exemplar, gerou US$ 37,9 bilhões com 76.453 funcionários no último exercício fiscal, o que a coloca nessa faixa.
O terceiro degrau é o das nativas de IA, entre US$ 1 milhão e US$ 3 milhões. O quarto, dos laboratórios de fronteira, opera em outra ordem de grandeza.
A distância entre o segundo e o terceiro degrau não é ganho de eficiência. É outro modelo operacional. Empresas nativas construíram cada processo em torno de inteligência artificial desde o primeiro dia, sem sistema legado, sem estrutura de remuneração de décadas atrás e sem resistência política interna a mudar o jeito de trabalhar. Conselho que estabelece meta de terceiro degrau para uma operação de segundo está pedindo troca de modelo, não melhoria de produtividade, e normalmente sem dizer isso.
Em 7 de setembro, a StartSe abordou mais deste assunto no artigo "O organograma foi inventado para evitar colisões".
Vale uma ressalva sobre o caso mais citado dessa conversa.
A plataforma sueca Lovable chegou a US$ 400 milhões de receita recorrente anual em fevereiro de 2026 com 146 funcionários em tempo integral, o que dá cerca de US$ 2,77 milhões por pessoa. O número foi confirmado pela empresa e virou referência global de operação enxuta.
Quando ele começou a circular, a companhia já estava contratando. A reportagem que o divulgou registrava, no mesmo texto, que a empresa planejava ampliar o quadro, tinha cerca de setenta vagas abertas e havia inaugurado um escritório com capacidade para trezentas pessoas. Perfis de mercado publicados meses depois registram a empresa com quadro muito maior.
Isso não desmente o dado. Mostra o que ele é: a fotografia de um estágio específico, num momento em que a receita crescia mais rápido do que a estrutura conseguia acompanhar. Razão alta de receita por funcionário costuma marcar uma fase, e não um estado permanente. Usar a fotografia como modelo de organização é o erro que mais distorce a métrica.
Existe um número nessa discussão que quase ninguém repete e que é o único aplicável fora do software nativo.
Entre as empresas de software acompanhadas, a participação de pesquisa e desenvolvimento na receita caiu oito pontos percentuais, de 35% para 27%, com o quartil superior em 22%. A queda é atribuída ao ganho de produtividade em engenharia assistida por inteligência artificial.
Repare no que esse indicador faz de diferente. Ele não conta cabeças. Mede quanto de cada real de receita uma função consome. Uma empresa pode manter o mesmo quadro, crescer receita e melhorar esse número, o que é precisamente o movimento que a maior parte das companhias brasileiras consegue executar.
É também a métrica mais honesta para o público que não vai virar nativa de IA. Receita por funcionário premia quem começou pequeno. Participação de cada função na receita mede quem melhorou.
Para CEOs e conselhos. Antes de adotar receita por funcionário como indicador, vale definir o grupo de comparação por escrito: mesmo setor, mesma faixa de receita, mesmo modelo de entrada no mercado. Sem isso, a métrica vira instrumento de constrangimento.
Para C-levels e diretores. A alternativa aplicável é acompanhar a participação de cada função na receita ao longo do tempo. Ela responde à pergunta que interessa, que é se a estrutura está crescendo mais devagar que o faturamento.
Para donos de pequenas e médias. Empresa em crescimento acelerado terá razão temporariamente alta e vai cair quando estruturar. Isso é normal e não é fracasso. O que precisa ser observado é a tendência ao longo de trimestres, não o pico.
Receita por funcionário virou métrica de conselho porque é fácil de calcular e impossível de discutir. Também é fácil de usar errado, porque o número mais citado vem de empresas que não se parecem com quase nenhuma das que o citam. A pergunta útil não é quanto cada funcionário gera. É se a estrutura está crescendo mais devagar que a receita, e há indicador melhor do que esse para responder.
Crescer receita mais rápido do que a estrutura é a definição prática do que a inteligência artificial permite numa empresa que já existe. A Masterclass de IA da StartSe mostra por onde começar essa conversão e como medi-la sem depender de comparação com outlier.
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