O desafio das empresas familiares não é escolher entre família e profissionalização. É construir uma governança capaz de fazer as duas coisas coexistirem sem colocar o negócio em segundo plano.
Empresas familiares: sucessão ainda é um assunto delicado e intocado por maioria.
, Redator
10 min
•
28 ago 2026
•
Atualizado: 28 ago 2026
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Tem uma frase que costuma aparecer em empresas familiares quando a sucessão começa a ser discutida: “Aqui sempre funcionou assim.”
É justamente nesse momento que o conselho deveria prestar mais atenção.
Porque aquilo que funcionou para a primeira geração pode não funcionar para a segunda. E aquilo que funcionou para uma empresa de R$ 50 milhões pode ser completamente inadequado para uma organização de R$ 5 bilhões.
O problema não é a família.
O problema começa quando família, propriedade e gestão continuam misturadas mesmo depois que a empresa cresceu além da capacidade dessa mistura de funcionar.
A discussão é especialmente relevante no Brasil. Segundo a McKinsey, nove em cada dez empresas brasileiras são familiares e oito em cada dez ainda estão sob comando da primeira ou segunda geração. Muitas delas enfrentarão processos de transição nos próximos anos.
O desafio, portanto, não é distante.
Ele já está chegando à mesa de muitos conselhos.
Em empresas familiares, existe uma dificuldade particular: separar a pessoa que construiu a empresa da função que ela ocupa.
O fundador pode continuar sendo uma referência fundamental para a cultura, para a estratégia e para a família.
Mas isso não significa que ele precise continuar tomando todas as decisões.
Essa distinção é difícil porque, durante anos, a empresa funcionou justamente porque aquela pessoa concentrava conhecimento, relacionamento, autoridade e capacidade de decisão.
Só que crescimento muda essa equação.
O fundador que era a solução para uma empresa menor pode se transformar no gargalo de uma empresa maior.
E esse processo costuma acontecer silenciosamente.
O executivo não necessariamente toma decisões ruins. O problema é que decisões demais continuam dependendo dele.
Uma das maiores falhas das empresas familiares é tratar sucessão como um evento.
O fundador sai.
O filho entra.
O CEO se aposenta.
Alguém assume.
Mas sucessão não é troca de cadeira.
É construção de capacidade.
Dados compilados pelo IBGC a partir de pesquisas recentes mostram o tamanho do problema: apenas 23% dos entrevistados pela Deloitte afirmam ter um plano de sucessão para CEO sendo ativamente implementado. E 62% dos executivos que estão atrasados no planejamento sucessório dizem que o tema não é visto como uma prioridade crítica no momento.
Essa última informação é particularmente reveladora.
O problema da sucessão muitas vezes não é falta de consciência.
É falta de urgência.
Enquanto o fundador está saudável, o CEO entrega resultados e a empresa cresce, parece não haver motivo para mexer na estrutura.
Até que acontece alguma coisa.
Uma doença.
Uma morte.
Uma crise.
Uma disputa familiar.
Uma saída inesperada.
E aquilo que deveria ter sido uma transição planejada vira uma emergência.
Talvez uma das decisões mais difíceis em uma empresa familiar seja dizer isso em voz alta.
Ser herdeiro não deveria significar ser automaticamente executivo.
A próxima geração pode ter competência para assumir a gestão.
Pode não ter.
Pode ser excelente para o conselho.
Pode ser melhor como acionista.
Pode ser melhor em outra empresa.
Pode até não querer trabalhar no negócio.
Profissionalizar uma empresa familiar não significa retirar a família.
Significa definir onde cada membro da família cria mais valor.
É por isso que a discussão sobre sucessão precisa separar três círculos: família, propriedade e empresa.
São interesses diferentes.
E, quando todos são tratados como se fossem um só, qualquer decisão empresarial pode se transformar em uma discussão emocional.
É justamente aí que um conselho bem estruturado pode fazer uma diferença enorme.
Ele cria uma camada entre a família e a gestão.
Não para afastar os familiares da empresa, mas para permitir que decisões sejam tomadas com critérios diferentes dos afetivos.
O conselho pode perguntar:
Quem é o melhor CEO para o próximo ciclo?
Quais competências a empresa precisará daqui a cinco anos?
O sucessor está preparado?
Quais lacunas ainda existem?
É melhor um membro da família ou um executivo externo?
Como será avaliado o desempenho?
O que acontece se o sucessor não entregar?
Essas perguntas podem parecer duras.
Mas são menos dolorosas quando respondidas em uma sala de conselho do que durante uma crise familiar.
O IBGC destaca justamente o papel das estruturas de governança na organização das relações entre família, propriedade e empresa, além da prevenção de conflitos e apoio à evolução do negócio.
Existe outro equívoco.
Algumas famílias entendem profissionalização como substituição da família por executivos de mercado.
Não precisa ser assim.
Uma empresa pode continuar controlada pela família e ter um CEO não familiar.
Pode ter familiares no conselho e profissionais na operação.
Pode criar um conselho de família para tratar dos assuntos familiares e um conselho de administração para tratar do negócio.
Pode preparar a próxima geração para ocupar posições estratégicas sem colocá-la imediatamente na operação.
A profissionalização não elimina o legado.
Ela cria mecanismos para que o legado sobreviva às pessoas que o construíram.
Esse talvez seja o verdadeiro objetivo da governança familiar.
Não preservar o poder de uma geração.
Preservar a capacidade da empresa de continuar existindo quando aquela geração já não estiver mais no comando.
Antes de perguntar “quem será o próximo CEO?”, existe uma pergunta mais importante:
“Que empresa queremos entregar à próxima geração?”
Porque sucessão não deveria ser apenas sobre quem recebe a cadeira.
Deveria ser sobre qual empresa essa pessoa receberá.
Mais profissional?
Mais internacional?
Mais digital?
Mais diversificada?
Mais preparada para novos ciclos?
Talvez o maior erro seja preparar o sucessor para administrar a empresa que existe hoje, quando o verdadeiro trabalho é prepará-lo para liderar a empresa que existirá amanhã.
E isso muda completamente o papel do conselho.
O board não está ali apenas para acompanhar resultados.
Está ali para proteger a longevidade do negócio.
Em uma empresa familiar, governança não é o que separa a família da empresa. É o que permite que a família continue sendo dona da empresa sem precisar ser dona de todas as decisões.
Essa é uma das competências centrais para quem pretende atuar em conselhos: entender que governança exige muito mais do que experiência executiva. Exige repertório para lidar com interesses distintos, sucessão, estratégia, conflitos e decisões que impactam gerações.
É nesse contexto que o Board Program da StartSe ganha relevância: preparar profissionais para participar de decisões de alto nível e atuar de forma mais estratégica em conselhos de administração.
Porque uma boa sucessão não acontece quando alguém finalmente deixa a cadeira.
Ela acontece quando a empresa já está preparada para continuar crescendo sem depender dela.
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