Três dias depois de lançar seu modelo mais avançado para o público, a Anthropic foi forçada a desativá-lo globalmente. Por trás do bloqueio, há uma disputa que revela muito mais do que uma briga entre empresa e governo.
Claude Mythos: EUA tirou o brinquedinho do mundo todo.
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9 min
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16 jun 2026
•
Atualizado: 16 jun 2026
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Na terça-feira, 9 de junho, a Anthropic lançou o Claude Fable 5 — a versão mais avançada de IA já disponibilizada ao público pela empresa, com capacidades que surpreenderam o mercado e rapidamente se tornaram referência nos principais benchmarks do setor. Na sexta-feira, três dias depois, o governo dos Estados Unidos bloqueou o acesso ao modelo para todos os usuários fora do país — e para todos os estrangeiros dentro dele.
Para entender o que aconteceu, é preciso entender o que estava em jogo.
O que são o Fable 5 e o Mythos 5 — e por que o governo se importa
A Anthropic opera com dois níveis de modelo nessa família. O Mythos é o modelo mais poderoso que a empresa já construiu — tão avançado que, desde abril, seu acesso estava restrito a um grupo seleto de organizações aprovadas pelo próprio Projeto Glasswing da Anthropic: AWS, Microsoft, Apple, CrowdStrike e alguns outros parceiros de defesa e cibersegurança.
O Fable 5 é a versão do Mythos com salvaguardas de segurança incorporadas — uma camada de restrições que impede usos sensíveis e torna o modelo viável para acesso público. É o que foi lançado na quinta-feira.
O problema, segundo o governo Trump, é que mesmo o Fable 5 — com suas salvaguardas — representa uma capacidade tecnológica avançada demais para circular livremente no mundo. E o Mythos 5, o modelo completo sem as salvaguardas, havia sido hackeado por usuários não autorizados no início do ano — um incidente que elevou o nível de alarme dentro das agências de segurança nacional americanas.
O que o Secretário de Comércio fez — e o que isso significa
O Secretário de Comércio Howard Lutnick enviou uma carta diretamente a Dario Amodei, CEO da Anthropic, colocando os dois modelos — Mythos 5 e Fable 5 — sob restrições de exportação para todos os destinos fora dos Estados Unidos e para todos os estrangeiros dentro do país.
Restrição de exportação é um instrumento legal que os EUA usam historicamente para tecnologias sensíveis — equipamentos militares, semicondutores avançados, tecnologia nuclear. Aplicar esse instrumento a um modelo de linguagem é algo novo, e é exatamente isso que torna esse caso relevante para além da Anthropic.
O argumento do governo é que modelos de IA de fronteira — os mais avançados disponíveis — têm capacidade de uso dual: servem tanto para aplicações comerciais legítimas quanto para operações cibernéticas ofensivas, desenvolvimento de armas biológicas, quebra de criptografia e outras aplicações de segurança nacional. Um modelo suficientemente poderoso nas mãos de um adversário estrangeiro representa um risco que o governo americano não quer correr.
A confirmação mais reveladora desse raciocínio veio do próprio Financial Times, que reportou em junho que a Agência de Segurança Nacional dos EUA — a NSA — estava utilizando o Mythos em operações cibernéticas ofensivas, com engenheiros da Anthropic alocados dentro de instalações classificadas. Se a NSA usa o modelo para operações ofensivas, o governo tem razões concretas para não querer que adversários tenham acesso ao mesmo nível de capacidade.
A relação turbulenta que explica o bloqueio
Para entender por que o governo Trump agiu dessa forma, é preciso recuar alguns meses e ver o padrão.
Em fevereiro deste ano, o presidente Trump determinou que todas as agências federais cessassem imediatamente o uso da tecnologia da Anthropic. O Secretário de Defesa Pete Hegseth classificou a empresa como um "risco à cadeia de suprimentos para a segurança nacional" — uma linguagem normalmente reservada a fornecedores de hardware estrangeiros, não a startups de IA americanas.
Em março, um juiz federal suspendeu temporariamente essas medidas punitivas. Em abril, a Casa Branca estava do outro lado da mesa — negociando com a Anthropic o acesso governamental ao Mythos. Em maio, o governo se opôs ao plano da empresa de ampliar esse acesso para cerca de 120 organizações.
É uma relação que oscila entre parceria e confronto, e que revela a tensão central da corrida de IA americana: o governo precisa da tecnologia das empresas privadas para manter vantagem estratégica, mas não quer que essas mesmas empresas distribuam livremente ao mundo o que foi desenvolvido com essa vantagem.
O que a Anthropic disse — e o que ela fez
A Anthropic não ficou quieta. A empresa contestou publicamente a medida, classificando-a como um mal-entendido e alertando que aplicar esse padrão "essencialmente interromperia todos os novos lançamentos de modelos por parte de todos os provedores de modelos de fronteira". É um argumento com peso: se o governo pode bloquear um modelo no momento do lançamento baseado em capacidades avançadas, nenhuma empresa de IA americana consegue lançar nada sem aprovação prévia do governo.
Na prática, porém, a Anthropic atendeu à exigência. Desativou o Fable 5 e o Mythos 5 para todos os clientes — incluindo os americanos. Os demais modelos da empresa, incluindo o Claude Opus 4.8, seguem disponíveis normalmente.
A administração indicou que o bloqueio pode durar semanas — um prazo que compromete diretamente o plano de negócio da Anthropic: a empresa havia planejado migrar o Fable 5 do acesso gratuito para créditos pagos em 22 de junho. Com o modelo desativado, essa transição fica suspensa.
Por que isso importa além da Anthropic
A decisão do governo Trump estabelece um precedente que vai muito além de uma empresa ou de um modelo específico.
Se modelos de IA de fronteira passam a ser tratados como tecnologia de exportação controlada — como mísseis, chips de última geração ou equipamentos de vigilância — o mercado global de IA muda fundamentalmente. Empresas americanas não poderiam mais lançar seus modelos mais avançados para o mundo sem aprovação governamental prévia. Clientes internacionais — empresas, governos, pesquisadores — ficariam bloqueados dos produtos mais poderosos, independentemente do uso que planejam fazer.
Isso acelera, inevitavelmente, o desenvolvimento de alternativas fora dos EUA. A China, que já tem o DeepSeek competindo nos benchmarks globais com fração do custo americano, ganha um argumento de vendas que nenhuma campanha de marketing produziria: "Nossos modelos você consegue usar. Os deles, não."
A corrida de IA sempre foi, em parte, uma corrida geopolítica. O bloqueio do Fable 5 tornou isso explícito para qualquer empresa, líder ou investidor que ainda acreditava que a tecnologia operava acima das fronteiras nacionais.
Ela nunca operou. E agora o governo americano fez questão de deixar isso claro.
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Bruno Lois
, Editor
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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