Pesquisa da Korn Ferry com 611 empresas na América Latina revela um descompasso preocupante: a tecnologia chegou antes do preparo — e os times sentem isso no dia a dia.
Inteligência Artificial (Foto: Pexels)
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6 min
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6 mai 2026
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Atualizado: 6 mai 2026
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Existe uma lacuna silenciosa crescendo dentro das empresas brasileiras. Não aparece nos relatórios financeiros nem nas apresentações para o board, mas está lá: a distância entre a velocidade com que a inteligência artificial foi adotada e a capacidade real das lideranças de operá-la com consciência.
Uma pesquisa da Korn Ferry, consultoria global especializada em estratégia organizacional e desenvolvimento de lideranças, deixou esse gap em números pela primeira vez com clareza.
O estudo ouviu 611 empresas na América Latina, sendo 319 no Brasil. O resultado central é revelador: 47% das organizações já utilizam alguma ferramenta de inteligência artificial generativa em processos de recursos humanos. Mas apenas 10% se consideram bem familiarizadas com o tema. Ou seja, quase metade das empresas está usando IA — e nove em cada dez não se sentem preparadas para isso.
Esse descompasso não é abstrato. Ele aparece no cotidiano das empresas na forma de decisões tomadas com base em recomendações automatizadas que os gestores não conseguem explicar, de algoritmos que influenciam contratações e avaliações de desempenho sem que as equipes compreendam os critérios por trás deles, e de lideranças que reconhecem o potencial da tecnologia mas relatam dificuldade para interpretar o que ela sugere e sustentar essas escolhas diante de times cada vez mais atentos à transparência dos processos. Quando a decisão vem de uma caixa-preta, a pergunta dos liderados não demora a aparecer: em que você baseou isso?
A Korn Ferry identifica esse cenário como um teste concreto de liderança. A inteligência artificial deixou de ser um tema de inovação para se tornar uma questão de governança, cultura e responsabilidade decisória.
Empresas que adotaram a tecnologia sem estruturar esse preparo tendem a ver iniciativas de IA fragmentadas, com impacto limitado e resistência crescente dos times — exatamente porque as pessoas sentem o desamparo antes que os indicadores mostrem o problema.
No campo da gestão de pessoas, os efeitos já são visíveis. Sistemas de IA conectam múltiplas fontes de dados para apoiar a tomada de decisão com analytics, prever necessidades de talentos e mapear lacunas de competências. Ferramentas generativas entram no desenvolvimento de lideranças, com análises de desempenho, recomendações personalizadas de aprendizado e apoio a processos de coaching.
Chatbots e interfaces inteligentes agilizam a experiência de candidatos e colaboradores. A tecnologia funciona. O problema é que ela funciona mais rápido do que as organizações conseguem absorvê-la.
Para enfrentar esse cenário, a Korn Ferry trabalha com dois conceitos centrais. O primeiro é o de AI-ready leader: líderes capazes de usar dados como apoio à decisão sem abrir mão do senso crítico, de questionar recomendações geradas por algoritmos, de formular as perguntas certas em contextos de incerteza e de assumir responsabilidade pelos impactos humanos das escolhas feitas — mesmo quando essas escolhas foram influenciadas por sistemas automatizados.
O segundo conceito é o de AI-ready organization: empresas que vão além da adoção de ferramentas e constroem, de forma integrada, a colaboração entre pessoas, tecnologia, processos e modelos de decisão. Isso inclui cultura organizacional, governança clara e definição de papéis alinhados à nova lógica de operação.
O dado da Korn Ferry chega em um momento em que o debate sobre IA nas empresas está finalmente amadurecendo. A fase do entusiasmo acrítico — a corrida para implementar qualquer ferramenta disponível e aparecer nas apresentações como "empresa inovadora" — está cedendo espaço a uma pergunta mais difícil: o que fazer com isso agora que está aqui?
A resposta que a pesquisa sugere é incômoda para boa parte das lideranças: antes de escalar a tecnologia, é preciso escalar o preparo humano para lidar com ela. Ignorar essa transformação amplia os riscos competitivos. Adotá-la sem preparo humano fragiliza as decisões. E entre esses dois erros, a maioria das empresas ainda está tentando encontrar o caminho do meio.
Este será o tema central de debates no AI Festival, da StartSe, nos dias 13 e 14 de maio de 2026. Se você quer estar por dentro dos rumos do mercado, garanta agora o seu ingresso.
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Bruno Lois
, Editor
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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