Enquanto o debate público gira em torno de chips, o limite concreto da inteligência artificial passou a ser energia barata e armazenável
Célula de bateria de íon de sódio em teste de carga: a química abundante que entrou no centro da disputa por energia.
, Redator
8 min
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29 jun 2026
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Atualizado: 29 jun 2026
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A inteligência artificial tem um problema que poucos comitês executivos colocam na pauta: ela consome eletricidade num ritmo que a infraestrutura atual não acompanha. Segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo de eletricidade dos data centers deve praticamente dobrar até 2030, saltando de cerca de 485 TWh em 2025 para algo perto de 945 TWh, com a demanda dos data centers focados em IA crescendo ainda mais rápido, triplicando no período. Para dar dimensão: até o fim da década, os data centers americanos devem consumir mais energia do que toda a produção de alumínio, aço, cimento e químicos somada. É nesse gargalo que as baterias de sódio deixaram de ser curiosidade de laboratório e viraram peça de estratégia industrial.
A pressão não vem só do volume. Vem da volatilidade. Cargas de treinamento e inferência produzem picos bruscos de demanda, e atender essas oscilações com geração a gás no próprio local exige, segundo a IEA, superdimensionar a planta entre 30% e 70% em relação ao consumo. Some a isso filas de conexão à rede que travam projetos por anos. O resultado é direto: o armazenamento em baterias no próprio site virou tecnologia crítica para a próxima geração de data centers de IA, capaz de absorver os picos e devolver energia quando a operação aperta.
Quem decide onde e como construir capacidade de IA está, na prática, decidindo um problema de energia. O capex das cinco maiores big techs ultrapassou US$ 400 bilhões em 2025 e deve crescer mais 75% em 2026, em boa parte puxado por data centers. Esse dinheiro só vira capacidade real se houver eletricidade firme para alimentá-lo. Armazenamento barato em escala deixou de ser item de rodapé na conta.
O sódio resolve três coisas que o data center valoriza: custo, estabilidade térmica e independência de minerais concentrados em poucos países. O relatório do Morgan Stanley batizado de "Sal: o novo petróleo" estima que as baterias de sódio oferecem vantagem de custo de 30% a 40% sobre as baterias de lítio-ferro-fosfato (LFP), hoje dominantes no armazenamento. O banco projeta um ciclo de investimento de cerca de US$ 800 bilhões até 2035 e enxerga o sódio abocanhando perto de 20% do mercado de baterias até 2030 e até 37% em 2035, com armazenamento estacionário como principal vetor.
Há ainda um detalhe técnico que conversa diretamente com infraestrutura crítica: o desempenho em temperaturas extremas. As células de sódio operam bem onde o lítio sofre, o que reduz custo de refrigeração e amplia o leque de locais viáveis para instalação. Para um data center, cada ponto de eficiência térmica é dinheiro que não vira calor desperdiçado.
A teoria virou contrato. Em junho de 2026, a CATL lançou em Munique o TENER Sodium, descrito como o primeiro sistema de armazenamento de íon de sódio validado em campo, com mira explícita em armazenamento de utilidade e em data centers. As células trazem mais de 15 mil ciclos de vida, eficiência de 97% e operação de -40°C a 70°C. Meses antes, a mesma CATL fechou o maior contrato comercial de sódio do mundo, 60 GWh, com a HyperStrong.
O movimento não é só chinês. Nos Estados Unidos, a ESS Tech anunciou em junho que vai redirecionar recursos para infraestrutura de IA e mercados de data center, citando interesse de clientes acima do esperado depois de entrar no segmento de sódio. Quando fabricante de bateria realoca capital com base em demanda de data center, o sinal é de mercado se formando, não de aposta tecnológica isolada.
A liderança, porém, tem endereço. A China concentra desenvolvimento, escala e os primeiros grandes contratos de sódio, enquanto Estados Unidos e Europa avançam em estágio mais inicial. Para empresas que dependem de capacidade de IA, isso adiciona uma camada geopolítica à decisão de fornecedor, sobretudo com restrições comerciais americanas a fabricantes chineses previstas para 2027.
A leitura prática para quem lidera é desconfortável: a estratégia de IA da empresa tem um componente energético que quase nunca aparece no slide. Localização de data center, contrato de energia, custo de armazenamento e dependência de cadeia de suprimentos passam a influenciar diretamente o que é tecnicamente e economicamente viável fazer com IA. Quem trata isso como detalhe de engenharia terceiriza uma decisão estratégica.
O primeiro passo não é escolher química de bateria. É incorporar energia ao mapa de risco e de planejamento de IA, com a mesma seriedade dedicada a talento e a modelo. Entender essa camada física, que sustenta o boom de software, é parte do repertório que a AI Journey coloca diante de executivos que precisam decidir sobre IA com os olhos abertos para o que a torna possível.
O sódio não resolve o gargalo sozinho. Mas tirou da mesa a desculpa de que armazenamento barato em escala era promessa distante para enfrentar a fome energética da inteligência artificial.
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