As Big Techs sabiam. Mas ignoraram.
Gemini
, redator(a) da StartSe
9 min
•
9 abr 2026
•
Atualizado: 9 abr 2026
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O homem que derrubou a indústria do cigarro nos anos 90 acaba de apontar o dedo para Meta, Google e TikTok — e a comparação é mais precisa do que parece.
Por que isso importa: Jeffrey Wigand, o bioquímico que denunciou as práticas da indústria do tabaco e ficou mundialmente conhecido pelo filme O Informante (1999), afirma que as redes sociais são projetadas para gerar dependência — especialmente em adolescentes. Não é uma opinião isolada. É um padrão que a Justiça americana acabou de confirmar na prática.
Em março de 2026, doze jurados de um tribunal federal em Los Angeles decidiram: as redes sociais têm mecanismos que levam ao vício. Meta e Google foram condenadas a pagar US$ 3 milhões em indenizações a uma jovem que começou a usar as plataformas aos 6 anos e desenvolveu depressão, ansiedade e pensamentos suicidas durante a adolescência.
A indenização total foi fixada em US$ 3 milhões, sendo 70% atribuídos à Meta e 30% ao Google.
O ponto central do julgamento não foi o conteúdo das plataformas. Foi o design delas.
O caso reconheceu que elementos estruturais das plataformas — como a rolagem infinita, notificações constantes e sistemas de recomendação — não são neutros, mas projetados para manter o usuário conectado pelo maior tempo possível.
Wigand foi direto: "A indústria do tabaco — assim como as empresas de redes sociais — viciava as pessoas intencionalmente, especialmente crianças, para usá-las como fonte de renda."
A lógica é a mesma: criar dependência cedo, monetizar por décadas.
Na década de 90, fabricantes de cigarros foram acusados de esconder informações sobre os danos que o fumo causa. Em 1998, as empresas concordaram em pagar uma indenização de US$ 206 bilhões a 40 estados americanos e a parar de fazer marketing dirigido a menores.
A história está se repetindo — com outro produto, outro público, outro tribunal.
O júri identificou nove mecanismos de dependência deliberada usados pelas plataformas: rolagem infinita, reprodução automática de vídeos, notificações push projetadas para atrair o usuário de volta, algoritmos de recomendação que criam ciclos de conteúdo progressivamente mais extremo — entre outros. Todos eles ainda estão ativos.
Os advogados dos peticionários se apoiaram em documentos internos da Meta e do YouTube — emails trocados entre funcionários e relatórios de pesquisas encomendadas pelas próprias empresas — como provas de que os executivos tinham conhecimento dos efeitos negativos de seus produtos sobre crianças e adolescentes.
Mark Zuckerberg testemunhou no processo. Questionado sobre a suspensão da proibição temporária de filtros de beleza — recurso que alertas internos apontavam como prejudicial a adolescentes — Zuckerberg afirmou que a medida visava garantir a liberdade de expressão dos usuários.
Essa decisão não é só uma notícia jurídica. É um aviso regulatório global.
Ao menos 42 países estão considerando ou já aprovaram restrições de idade para redes sociais. A Austrália proibiu crianças menores de 16 anos em dezembro de 2025. A França aprovou proibição para menores de 15 anos. O Parlamento Europeu votou a favor de uma idade mínima de 16 anos em toda a União Europeia e da proibição de recursos como rolagem infinita e reprodução automática.
No Brasil, a regulação avança na mesma direção — e o marco regulatório de proteção de crianças e adolescentes online foi aprovado em 2025.
Mais de 2,4 mil ações semelhantes tramitam nos EUA, movidas por pais, procuradores-gerais e distritos escolares. Os advogados acreditam que, se continuarem ganhando casos suficientes, as big techs chegarão à conclusão de que é mais simples redesenhar seus produtos do que continuar brigando na Justiça.
Se você tem uma empresa que anuncia em redes sociais: A regulação que vem aí não vai atingir só as plataformas. O escrutínio sobre quem financia esse modelo de negócio também vai crescer. Marcas que anunciam para públicos jovens precisam começar a auditar suas estratégias de mídia paga agora — antes que a regulação force uma mudança de última hora.
Se você tem filhos ou lideranças com filhos: O debate sobre tempo de tela vai sair dos grupos de pais e entrar formalmente na agenda corporativa de benefícios e saúde mental. Empresas que se anteciparem a isso constroem cultura e retêm talentos.
O maior risco para empresas brasileiras: Não é a multa de US$ 3 milhões — que para Meta e Google é ruído contábil. É o precedente. A cada condenação, a barra regulatória sobe. E quando o mercado publicitário digital for forçado a se reestruturar, quem não tiver alternativas vai pagar o preço.
O resultado poderá influenciar milhares de casos semelhantes contra as empresas de tecnologia. Ao menos metade dos adolescentes norte-americanos usa YouTube ou Instagram diariamente, segundo o Pew Research Center. O mercado potencial de ações é enorme.
A questão não é se as plataformas vão mudar. É quando — e quem vai estar posicionado quando isso acontecer.
A indústria do cigarro levou 40 anos para ser regulada. A indústria de redes sociais pode não ter esse tempo.
(Para saber mais: TecMundo | CNN Brasil | Brasil de Fato)
Se as redes sociais estão viciando a próxima geração, a pergunta mais urgente para quem lidera empresas é: como vamos preparar as pessoas que vão trabalhar para nós nos próximos 10 anos?
Os jovens que hoje vivem colados ao feed vão entrar no mercado de trabalho com hábitos de atenção fragmentada, dificuldade de foco e baixa tolerância a processos longos. Isso não é julgamento moral — é uma realidade operacional que vai bater na sua empresa.
A StartSe acredita que a resposta está em repensar como se aprende — e como se ensina. A Tomorrow Learning é uma imersão em São Paulo focada em jovens de 15 a 20 anos para colocá-los no ambiente real do mercado de trabalho. Visitações a algumas das empresas mais inovadoras do Brasil, projeto de AI, conversa com executivos e novas perspectivas de carreira, tudo com acompanhamento dos experts da StartSe.
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