A criação do Alibaba Token Hub, nova divisão liderada diretamente pelo CEO Eddie Wu, é o sinal mais claro até agora de que a maior empresa de tecnologia da China quer saber exatamente como ganhar dinheiro com ela
Qwen: novidade da Alibaba
, redator(a) da StartSe
9 min
•
19 mar 2026
•
Atualizado: 19 mar 2026
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O Alibaba fez uma movimentação interna que diz mais sobre o momento da indústria de IA do que qualquer comunicado de produto. A empresa criou uma nova unidade de negócios chamada Alibaba Token Hub — a ATH — e concentrou dentro dela tudo o que tem de mais estratégico em inteligência artificial: a equipe de pesquisa responsável pelos modelos Qwen, a divisão de aplicativos voltados ao consumidor e os principais produtos de IA da companhia.
À frente da nova divisão está o próprio CEO, Eddie Wu. A mensagem é deliberada: isso não é um projeto secundário. É o centro da estratégia.
O que é o Alibaba Token Hub — e o que o nome revela
O nome da divisão não é acidental. "Token" é a unidade de computação cobrada dos usuários ao utilizar modelos de linguagem. Batizar a nova estrutura com essa referência é uma declaração de intenção: a ATH foi construída para monetizar. Para transformar pesquisa em produto, produto em adoção e adoção em receita.
"A ATH foi construída em torno de uma única missão: criar, entregar e aplicar tokens", escreveu Wu no memorando interno. "Liderarei a ATH diretamente, com a incumbência de coordenar estrategicamente nossos negócios de IA, incorporar a tecnologia à forma como trabalhamos e preservar a agilidade que nos permite avançar rapidamente."
Além das equipes de pesquisa e produtos de IA, a nova divisão passa a supervisionar também o DingTalk — aplicativo corporativo similar ao Slack — e os dispositivos da marca Quark, incluindo óculos inteligentes. A proposta é integrar da pesquisa ao hardware, passando pelo software, dentro de um único ecossistema com foco em resultado comercial.
O problema que a reorganização tenta resolver
A China tem um desafio que o Ocidente não enfrenta na mesma escala: consumidores e empresas chineses têm menor disposição a pagar por serviços de IA. A cultura de código aberto e gratuito é predominante no mercado local, o que comprime as margens e dificulta a construção de receita recorrente — justamente o modelo que empresas como OpenAI e Anthropic conseguiram desenvolver no mercado ocidental.
O Alibaba sentiu isso na prática. O aplicativo Qwen, mesmo após bilhões de yuans em promoções durante o Ano Novo Lunar, permanece atrás do Doubao, da ByteDance, em adoção entre consumidores. A empresa reconheceu o problema e está redirecionando a aposta: em vez de brigar pelo consumidor final em uma guerra de subsídios, vai intensificar o foco no segmento corporativo, onde a proposta de valor é mais clara e o ticket potencialmente mais alto.
O Wukong e a aposta nos agentes de IA para empresas
No mesmo dia em que a reorganização foi anunciada, o Alibaba lançou o Wukong — um serviço de IA agêntica voltado a empresas, desenvolvido sobre o modelo Qwen. O nome é uma referência ao Rei Macaco da mitologia chinesa, símbolo de agilidade e transformação.
O Wukong opera como um assistente capaz de executar tarefas complexas de forma autônoma. Pode ser acessado via web ou pelo DingTalk e deve se integrar progressivamente a outras plataformas como Slack, Microsoft Teams e WeChat, da Tencent. Também incorporará serviços comerciais próprios do ecossistema Alibaba, como o Taobao e a fintech Alipay.
O CEO do DingTalk, Chen Hang, demonstrou no evento de lançamento como profissionais individuais — advogados, donos de restaurantes, designers, empreendedores — podem operar negócios inteiros com o suporte da ferramenta. O argumento é direto: a IA agêntica não substitui pessoas, mas multiplica a capacidade de uma única pessoa operar com a eficiência de uma equipe.
O risco que paira sobre a estratégia
Toda reestruturação tem contexto. No caso do Alibaba, há uma sombra sobre o movimento: a saída recente de Junyang Lin, arquiteto principal dos modelos Qwen e figura central na transição da empresa para a IA. Lin liderou o desenvolvimento da série de modelos que sustenta os produtos de IA do Alibaba e que figura entre os mais bem avaliados globalmente. Sua saída gerou incertezas sobre a continuidade e a profundidade do pipeline de pesquisa.
Nos dias seguintes ao anúncio, o Alibaba buscou ativamente conter especulações sobre novas saídas na equipe técnica. O esforço em si é um sinal de que a preocupação existe e que a empresa está ciente do risco reputacional de perder talento em um momento de reorganização estratégica.
O que o mercado achou
As ações do Alibaba subiram 3,4% em Hong Kong no dia do anúncio, superando o mercado. O movimento indica que investidores receberam bem a sinalização de que a empresa está tirando a IA do laboratório e colocando dentro de uma estrutura com accountability de receita.
A leitura estratégica
O que o Alibaba está fazendo é o que toda grande empresa de tecnologia vai precisar fazer em algum momento: parar de tratar IA como projeto de inovação e começar a tratá-la como unidade de negócio. Pesquisa sem monetização é custo. Pesquisa com monetização é vantagem competitiva.
A criação da ATH, liderada pelo CEO, com nome que referencia a unidade básica de cobrança, é um sinal de maturidade estratégica. A China chegou tarde na corrida dos modelos de linguagem — mas chegou. E agora está resolvendo o problema que vem depois: como transformar tecnologia em negócio em um mercado que resiste a pagar por software.
A resposta do Alibaba é integração vertical, foco corporativo e velocidade de execução. Se vai funcionar, o mercado vai dizer nos próximos trimestres.
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Bruno Lois
redator(a) da Startse
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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