Enquanto oferece até US$ 1,5 bilhão por um pesquisador de elite, a empresa demitiu 8 mil pessoas e transferiu outras 6.500 para rotular dados. O CTO admite: o clima é o pior em 20 anos.
6.500 engenheiros passam o dia escrevendo quebra-cabeças para treinar máquina.
, redator(a) da StartSe
8 min
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19 jun 2026
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Atualizado: 19 jun 2026
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A Meta acabou de oferecer US$ 1,5 bilhão por um único pesquisador de IA. Na mesma empresa, 6.500 engenheiros foram realocados sem escolha para uma divisão que eles apelidaram de "gulag", onde passam o dia escrevendo quebra-cabeças para treinar máquina. O próprio CTO, Andrew Bosworth, admitiu internamente que o clima é dos piores em 20 anos de casa. Esse é o retrato de uma empresa que decidiu vencer a corrida de IA comprando computação e queimando o ativo que a corrida mais exige: gente boa disposta a ficar.
Por que isso importa. Para qualquer líder tocando uma transformação de IA, a Meta virou o aviso de que dá para ganhar a corrida do gasto e perder a do talento ao mesmo tempo. O gargalo de uma aposta de IA quase nunca é o orçamento. É a pessoa que decide ficar ou sair.
A aposta da Meta criou dois mundos dentro do mesmo prédio. No topo existe uma bolha de 50 a 100 cientistas no Superintelligence Lab, com GPU praticamente ilimitada, zero burocracia e mesa colada na do Zuckerberg. É para essa bolha que vão os pacotes de nove e dez dígitos.
No andar de baixo está todo o resto. Os 8 mil que foram cortados, e os 6.500 que sobraram na divisão Applied AI, transferidos por e-mail sem direito a recusar: aceita ou pede demissão. O trabalho deles é gerar problemas de código e quebra-cabeças para alimentar os modelos. Muitos se chamam de "alistados". Um deles resumiu a unidade à Wired como o gulag. Outro disse que a maioria acha o trabalho destruidor.
Por cima de tudo isso roda um programa de vigilância. Desde abril, a Meta grava cliques, teclas e prints das telas dos funcionários nos EUA para treinar agentes de IA. Quando perguntaram como desligar, a resposta foi que não há opção em laptop corporativo. Mais de 1.500 pessoas assinaram uma petição contra.
Aqui está o ponto que inverte o senso comum. A corrida promete uma inteligência que supere o ser humano, mas para treinar essa inteligência a Meta precisou gravar humano e conscrever humano. A máquina não gera o próprio dado de treino bom o bastante. Logo, quanto mais "all in" a empresa vai, mais ela depende da mão humana. Só que de uma mão rebaixada e infeliz.
A contradição não para na base. Yann LeCun, cientista-chefe de IA da Meta por 12 anos e uma das maiores autoridades técnicas do mundo, deixou a empresa depois de afirmar publicamente que essa rota é um beco sem saída. No mesmo período, a linha Llama 4 teve recepção morna e o time responsável por ela foi dissolvido. A Meta está apostando bilhões numa direção que seu próprio cérebro técnico considerava errada, e perdeu esse cérebro no caminho.
E o dinheiro, sozinho, não está segurando ninguém. Vários dos melhores pesquisadores recusaram os US$ 100 milhões. Quem aceita pela grana, segundo relatos de dentro, já entra calculando a saída. Você compra o capex. Não compra a permanência.
A Meta tem caixa para errar por mais alguns trimestres. Faturou US$ 201 bilhões em 2025 e gera dezenas de bilhões em caixa livre por ano. A maioria das empresas não tem esse colchão. Quem copiar o método sem copiar o cofre vai descobrir rápido que comprou máquina e perdeu gente, e que a segunda conta é a que não se paga com capex.
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