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IA vai cortar tarefa, mas CEOs apostam em mais gente, não menos

O discurso mais repetido sobre inteligência artificial no mercado de trabalho, o de que ela vai substituir milhões de profissionais, não é o que a maioria dos CEOs está sinalizando.

IA vai cortar tarefa, mas CEOs apostam em mais gente, não menos

Pessoas trabalhando no escritório (Foto: Canva)

Redação StartSe

, Redator

10 min

5 ago 2026

Atualizado: 5 ago 2026

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A narrativa de corte generalizado simplifica um cenário que, na prática, é de reestruturação. Estudo da McKinsey revelou que a maioria dos profissionais prevê que a IA terá pouco ou nenhum impacto no tamanho das equipes que integram em 2026, e apenas 32% dos entrevistados apontam redução de pelo menos 3% do quadro, um percentual mais frequente entre trabalhadores de grandes organizações. Ao mesmo tempo, 13% dos profissionais ouvidos acreditam que a força de trabalho vai aumentar pelo menos 3% em 2026 por efeito direto da IA.

Analistas de mercado corroboram essa leitura de transformação, não de eliminação líquida de vagas. Partners da PwC apontam que, em 2026, é provável reestruturação, com setores mais automatizados precisando de menos mão de obra para atividades repetitivas, mas ao mesmo tempo maior procura por competências ligadas a tecnologia, inovação e gestão da mudança. A conclusão prática dos especialistas é direta: a tecnologia não significa necessariamente perda líquida de empregos, mas transformação dos mesmos.

O dado mais recente de CEOs globais reforça essa mesma direção, mesmo em um ano de cautela geral. Segundo o CEO Outlook 2025 da KPMG, 79% dos CEOs estão otimistas quanto às perspectivas das próprias organizações e projetam uma combinação de investimento em IA (71%) e retenção e requalificação de talentos com alto potencial (71%) para sustentar o crescimento futuro. Investir em IA e investir em gente aparecem juntos na mesma estratégia, não como escolhas opostas.

O que os CEOs realmente estão fazendo com o quadro de contratação

O comportamento concreto de contratação já mudou de perfil, não de volume. Levantamento da PwC no setor financeiro americano, com 1.004 executivos de empresas com faturamento superior a US$ 500 milhões, mostra que 62% das empresas planejam contratar profissionais que já tenham competências específicas em IA no próximo ano, enquanto 61% pretendem capacitar ou requalificar os funcionários atuais. A vaga não desaparece, ela muda de exigência.

Esse movimento também aparece na velocidade com que o mercado remunera quem já tem essa competência. A mesma pesquisa mostra que 91% das empresas afirmam estar aumentando a remuneração de funcionários com habilidades em IA, um sinal direto de que a escassez está em quem sabe operar a tecnologia, não em quem ocupa a função tradicionalmente.

Para o executivo que está desenhando esse quadro agora, sem um framework estruturado, a decisão vira aposta. É esse o motivo pelo qual vale antecipar essa conversa com quem já está aplicando esse tipo de reestruturação em outras organizações, um dos eixos do Executive Program, da StartSe, que reúne executivos para debater decisões de liderança como essa, com repertório prático e não apenas teórico, antes de a reestruturação da equipe ser feita sob pressão da concorrência.

Números que mostram a reestruturação, não o corte generalizado

A demanda por competência em IA já cresce em ritmo muito mais rápido do que o mercado de trabalho como um todo. Segundo a PwC, as vagas que exigem competências especializadas em IA cresceram 3,5 vezes mais rápido do que as vagas para todos os empregos, desde 2012. Esse não é um dado de curto prazo, é uma tendência estrutural que só se acelerou com a chegada da IA generativa.

O quadro internacional mostra o mesmo padrão de mudança em intensidade e tipo, não em eliminação. Estudo Talent Trends 2026 da Michael Page, que coletou a percepção de 60 mil profissionais em 36 países, incluindo o Brasil, mostra que globalmente 64% dos profissionais já usam IA no trabalho, e que a tecnologia deixou de ser tendência para se tornar parte da operação cotidiana de contratação.

Mesmo em um ano de confiança mais baixa entre CEOs, o investimento em capital humano segue como resposta preferencial à incerteza, não como corte de custo. Segundo a pesquisa global de CEOs da PwC de 2026, apenas três em cada dez CEOs estão confiantes no crescimento da receita neste ano, mas a IA se tornou um divisor de águas decisivo entre líderes e retardatários, com apenas um em cada oito CEOs afirmando ter capturado benefício tanto de custo quanto de receita com o investimento em IA até agora. Esse hiato entre quem investe e quem de fato colhe retorno é o que separa reestruturação bem-sucedida de corte de pessoal disfarçado de estratégia.

As competências que decidem quem cresce dentro dessa reestruturação

A competência mais valorizada nesse cenário não é operar uma ferramenta específica de IA, é a combinação entre fluência técnica e julgamento estratégico. Um profissional que sabe usar IA generativa, mas não sabe interpretar quando o resultado da máquina está errado ou incompleto, não substitui a lacuna que a reestruturação está tentando preencher.

A segunda competência é gestão da mudança dentro da própria equipe. O desafio real, segundo especialistas do setor, será atrair, reter e desenvolver talento qualificado, para que as empresas possam explorar plenamente as oportunidades que a tecnologia oferece sem comprometer a performance ou a motivação das equipes. Um gestor que trata a chegada da IA apenas como corte de vaga, sem cuidar da motivação de quem permanece, corre o risco de perder justamente os talentos que a empresa mais precisa reter nesse momento.

A terceira competência, cada vez mais citada por quem lidera esse processo, é capacidade de requalificação contínua. Empresas que tratam capacitação como projeto pontual, e não como rotina permanente de gestão de pessoas, tendem a ficar atrás justamente das organizações que mais rápido conseguem realocar talento interno para as funções que a reestruturação está criando.

Como transformar esse cenário em vantagem, e não em incerteza paralisante

O erro mais caro que um C-level pode cometer agora é tratar a chegada da IA no quadro de contratação como corte inevitável de gente, quando os dados mostram reestruturação de função. Empresas que fazem essa leitura errada tendem a demitir cedo demais e, meses depois, contratar de volta com um perfil de competência que a própria empresa já tinha, só que sem investir em requalificar quem já conhecia o negócio.

O caminho mais seguro é o oposto: mapear com precisão quais funções realmente perdem relevância operacional, quais ganham nova exigência de competência, e desenhar a estratégia de talento em cima dessa distinção, não de um discurso genérico sobre "o futuro do trabalho". Esse tipo de decisão, estrutural e de longo prazo, é exatamente o que separa liderança que captura a oportunidade da IA de liderança que só reage a ela.

A pergunta que fica para quem desenha o orçamento de pessoas de 2027 não é mais se a IA vai cortar vaga. É se a própria liderança está preparada para decidir onde crescer o quadro e onde requalificar, em vez de aplicar corte generalizado por medo de ficar atrás.

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