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Existe o conselheiro paz e amor e o conselheiro faca na bota: sua empresa precisa dos dois

Pesquisa clássica de gestão estratégica, publicada na Academy of Management Journal, mostra por que board sem atrito nenhum decide pior, não melhor.

Existe o conselheiro paz e amor e o conselheiro faca na bota: sua empresa precisa dos dois

Os diferentes perfis de conselheiro

Redação StartSe

, Redator

7 min

17 set 2026

Atualizado: 17 set 2026

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Todo board tem os dois personagens. Um prefere preservar o clima, evitar confronto direto, buscar consenso rápido para não desgastar relação com o fundador ou com a diretoria. O outro questiona premissa, pede a planilha de novo, faz a pergunta incômoda antes de aprovar qualquer coisa — mesmo que isso estenda a reunião em uma hora.

A tentação natural é achar que o segundo perfil "atrapalha" e que o primeiro "facilita". A literatura de gestão estratégica diz o contrário: um estudo seminal do pesquisador Allen Amason, publicado na Academy of Management Journal, com evidência coletada em duas amostras diferentes de equipes de alta gestão, propôs justamente essa distinção — e ela mudou a forma como o campo entende conflito dentro de conselho e diretoria.

Conflito não é o problema. O tipo de conflito é que faz diferença

Amason separou o conflito em dois tipos: cognitivo e afetivo. O conflito cognitivo é sobre a tarefa — discordância legítima sobre número, premissa, estratégia. O conflito afetivo é sobre a relação — disputa de ego, mágoa pessoal, ressentimento acumulado. E o achado central do estudo é que esses dois tipos produzem efeitos opostos na qualidade da decisão.

Conflito cognitivo, quando bem administrado, melhora a qualidade da decisão estratégica. Ele obriga o grupo a testar a própria lógica antes de comprometer capital com ela. Conflito afetivo faz o oposto: desgasta a relação, reduz a vontade de cooperar depois da reunião, e frequentemente empurra o grupo para um consenso apressado só para acabar logo com o desconforto.

O conselheiro "paz e amor" não é ruim — ele é insuficiente sozinho

Esse personagem cumpre uma função real: ele mantém a coesão do grupo, evita que discordância vire mágoa pessoal, preserva a disposição de todos para continuar trabalhando juntos depois da decisão tomada. Um board sem ninguém nesse papel vira um campo de batalha onde toda diferença de opinião vira ferida.

O problema aparece quando esse é o único perfil na sala. Aí a "paz" deixa de ser um equilíbrio saudável e vira ausência de teste real da decisão. A empresa aprova o que é mais confortável de aprovar, não o que resistiria melhor ao escrutínio.

O conselheiro "faca na bota" também não basta sozinho

Esse personagem é quem exerce, na prática, o conflito cognitivo que Amason descreve como benéfico: questiona a projeção de receita, pede o racional por trás da estimativa de sinergia, não aceita "a gente sempre fez assim" como resposta.

Mas conflito cognitivo mal conduzido escorrega fácil para conflito afetivo. Basta o questionamento vir com tom de acusação, ou repetir sempre a mesma crítica sem propor caminho, para que a "faca na bota" vire fricção pessoal — e aí o board perde os dois benefícios de uma vez: a coesão que o primeiro perfil oferecia, e a qualidade de decisão que o segundo deveria estar entregando.

Board maduro não escolhe entre os dois perfis. Ele administra a mistura

A pergunta certa nunca foi "qual desses dois conselheiros eu prefiro". É: como esse board transforma a tensão entre os dois em processo, em vez de deixar virar disputa de personalidade?

Isso exige um presidente de conselho disposto a nomear a diferença explicitamente — dizer, em ata se preciso, que a discordância ali é sobre a tarefa, não sobre a pessoa. Exige também dar tempo para o questionamento acontecer antes da votação, em vez de tratá-lo como atraso ao processo.

O erro mais comum: recrutar conselho pela afinidade, não pela função

Muita empresa familiar ou em crescimento comete o mesmo erro na hora de montar o conselho: convida quem já é próximo, quem já concorda, quem não vai criar climão em reunião de família. O resultado é um board homogêneo — capaz de aprovar rápido, incapaz de testar a própria decisão antes que o mercado a teste por ela.

Board que funciona de verdade é desenhado com intenção: alguém para preservar a relação, alguém para pressionar o número, e um presidente com repertório para que essa tensão produza decisão melhor, não racha pessoal.

Seu conselho tem os dois perfis, ou só tem gente que já concorda com você?

Essa é a pergunta que separa um board decorativo de um board que realmente protege a empresa das próprias cegueiras. É esse tipo de maturidade — saber montar, equilibrar e presidir board com perfis diferentes de propósito — que o Board Program ajuda conselheiros e presidentes de conselho a desenvolver, antes que a próxima decisão importante passe sem o teste que ela precisava.

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