Pequim lança uma organização internacional para regular inteligência artificial com um discurso que nenhuma outra instituição ocidental usa: inclusão, não exclusividade
Imagem: ChatGPT
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9 min
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14 jul 2026
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Atualizado: 14 jul 2026
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A China prepara, para esta semana, o lançamento formal da Waico — Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial —, sua aposta mais ambiciosa para ocupar o centro da governança global sobre IA. Os detalhes da nova entidade devem ser apresentados durante a Waic (Conferência Mundial de Inteligência Artificial), que acontece em Xangai entre 17 e 20 de julho, com a participação inédita do presidente Xi Jinping no evento.
O movimento chinês entra em um terreno já disputado, mas ainda sem um dono claro. Desde 2019, ao menos 13 entidades ou instrumentos internacionais diferentes já foram lançados para discutir o futuro e as regras da inteligência artificial. Nenhum deles, até agora, conseguiu se firmar como o fórum definitivo de governança da tecnologia — e é exatamente essa lacuna que a China está mirando ocupar.
A Waico não nasce do zero: ela institucionaliza a Iniciativa Global de Governança de IA, lançada pela própria China em 2023 como uma declaração de apelo à colaboração internacional para desenvolver, compartilhar conhecimento e disponibilizar tecnologias de IA de forma ampla. A diferença agora é o salto de declaração política para estrutura formal, com sede definida em Xangai — cidade escolhida por já concentrar um ecossistema denso de empresas de IA e multinacionais, o que funciona como ambiente de teste para qualquer proposta de governança que a organização venha a defender.
A urgência dessa disputa geopolítica em torno de regras de IA tem, no fundo, uma justificativa econômica concreta: o Fórum Econômico Mundial estimou, em janeiro deste ano, que a inteligência artificial pode contribuir com até 14% do PIB global até 2030 — o equivalente a cerca de US$ 15,7 trilhões. Liderar o fórum que define as regras desse jogo significa, na prática, influenciar a distribuição de uma fatia econômica das maiores já projetadas para uma única tecnologia.
O ponto central da estratégia chinesa está em dois pilares que a distinguem deliberadamente das instituições ocidentais já existentes: abrangência e discurso de soberania para países menos desenvolvidos.
Hoje, as principais organizações internacionais de governança de IA — como a GPAI (Parceria Global sobre IA), os Princípios de IA da OCDE, a Convenção de IA do Conselho da Europa e o Processo G7 de Hiroshima — têm caráter mais restritivo, funcionando, na prática, como um clube fechado das economias mais desenvolvidas. A aposta chinesa é o oposto: construir a organização mais abrangente possível, aberta a países que ficaram de fora da primeira onda de desenvolvimento em IA, posicionando a Waico simultaneamente como plataforma de inclusão para o Sul Global e como palco central das discussões mais relevantes sobre o futuro da tecnologia.
Essa dualidade de propósito — acolher quem foi deixado para trás e, ao mesmo tempo, ser o centro de gravidade da governança internacional — é a peça central do discurso que a China deve reforçar durante a conferência, com Xi Jinping fazendo, pela primeira vez, comentários públicos sobre o nascimento da organização e posicionando o país como a liderança natural do futuro da IA mundial.
Para lideranças de empresas que operam com tecnologia de fronteira, ou que dependem de modelos de IA desenvolvidos fora do próprio país, esse movimento chinês adiciona uma nova variável ao mapa de risco regulatório internacional. Até aqui, a disputa por regras de IA se concentrava principalmente no eixo Estados Unidos–União Europeia, com abordagens regulatórias distintas mas dentro de uma mesma esfera geopolítica ocidental. A Waico introduz um terceiro polo de influência, com apelo direto a países que não se sentem representados nas estruturas existentes.
Isso significa que empresas com operação internacional, e governos de países em desenvolvimento que ainda não formalizaram sua própria política de IA, vão precisar decidir, nos próximos anos, a qual arquitetura de governança global desejam aderir — ou se vão tentar navegar entre múltiplos marcos regulatórios que não necessariamente convergem entre si. Essa fragmentação regulatória, se não for administrada com cuidado, pode se tornar tão relevante para o planejamento estratégico de uma multinacional quanto o próprio desempenho técnico dos modelos que ela usa.
O sucesso da Waico não está garantido apenas pelo anúncio. Organizações internacionais de governança de tecnologia dependem de adesão real de outros países, e não apenas de discurso inaugural — e o histórico recente mostra que múltiplas iniciativas semelhantes, lançadas desde 2019, ainda não conseguiram se consolidar como referência única do setor. O diferencial chinês, no entanto, é mirar exatamente o público que essas iniciativas anteriores deixaram de fora: os países que não têm cadeira à mesa nos fóruns dominados pelas economias mais ricas.
Entender essa disputa de perto — como a China constrói influência tecnológica global, quais empresas e setores estão por trás dessa movimentação, e como o mercado chinês de IA se organiza internamente para sustentar essa ambição — é justamente o tipo de leitura de terreno que a Missão China da StartSe proporciona a executivos e lideranças que precisam decidir sobre parcerias, fornecedores e estratégia de IA num mundo onde as regras do jogo já não são definidas apenas em Washington ou Bruxelas.
A pergunta que fica para qualquer empresa ou governo observando esse movimento não é mais apenas "quais regras de IA vamos seguir". É "quantas arquiteturas de governança concorrentes vamos precisar navegar ao mesmo tempo — e qual delas vai, de fato, definir o padrão que prevalece".
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Bruno Lois
, Editor
Jornalista e Copywriter. Escreve sobre negócios, tendências de mercado e tecnologia na StartSe.
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