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CEO da Apple tem o desafio de dar lucratividade com margem menor

A Apple faturou US$ 114,5 bilhões, acima do esperado, mas projetou margem bruta menor. É o primeiro teste de John Ternus como CEO, e vale para qualquer líder que herda uma empresa no auge.

CEO da Apple tem o desafio de dar lucratividade com margem menor

Reprodução Apple

Redação StartSe

, Redator

12 min

•

4 nov 2026

•

Atualizado: 4 nov 2026

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A Apple vendeu mais do que o mercado esperava, e mesmo assim as ações caíram 5,1% no after-market. O motivo cabe numa linha do balanço: a margem bruta vai encolher.

A empresa reportou receita de US$ 114,5 bilhões no quarto trimestre fiscal, encerrado em 26 de setembro, alta de 12% sobre o mesmo período do ano anterior. Os analistas consultados pela Bloomberg esperavam cerca de US$ 113,5 bilhões. O lucro por ação foi de US$ 2,10, contra estimativa de US$ 2,00. Os números estão na reportagem de Mark Gurman publicada pela Bloomberg Línea.

O problema veio na projeção para o trimestre de dezembro. A Apple prevê margem bruta entre 45% e 46%, abaixo dos 47% que Wall Street esperava. No trimestre de junho, ela ficou acima de 50%.

Por que a margem da Apple está caindo?

A margem cai porque o custo de fabricar e entregar os produtos está subindo mais rápido do que os preços. A própria Apple atribuiu a pressão a dois fatores: o encarecimento dos chips de memória e as despesas ligadas à nova Siri, a assistente reformulada com inteligência artificial.

Os dois fatores pesam de formas diferentes. A memória é custo de insumo, sujeito a um mercado global em que a demanda por data centers de IA disputa a mesma capacidade de produção. A Siri é custo de estratégia: um investimento que a empresa escolheu fazer para não ficar para trás na corrida da IA.

Para quem lidera, essa diferença importa. Custo de insumo se negocia, se troca de fornecedor, se absorve ou se repassa. Custo de estratégia é aposta, e o conselho e os acionistas querem saber quando ela começa a se pagar.

Os analistas Anurag Rana e Josh Christensen, da Bloomberg Intelligence, resumiram a preocupação do mercado: a deterioração da margem bruta dos produtos segue como a principal questão de curto prazo.

Um CEO novo herda as expectativas antes de herdar os resultados

John Ternus assumiu o comando da Apple em 1º de setembro de 2026. Pegou apenas o último mês do trimestre reportado.

Sob sua supervisão, a empresa lançou ou apresentou o iPhone Duo (o dobrável), um MacBook Pro com tela sensível ao toque e o hub doméstico HomeView. Nenhum desses produtos chegou às lojas dentro do trimestre que acabou de ser divulgado. O iPhone Duo, por exemplo, foi lançado em 23 de outubro e só entra nas contas do próximo período.

Ou seja: o mercado já está julgando Ternus por números que ele ainda não teve tempo de mudar. Essa é a regra de qualquer sucessão no topo de uma empresa grande. As expectativas chegam no primeiro dia, e os resultados das próprias decisões levam trimestres para aparecer.

O contexto aumenta a pressão. Segundo a Bloomberg, a reputação da Apple como porto seguro em meio à volatilidade das empresas de IA ajudou a impulsionar uma alta recente que adicionou cerca de US$ 1 trilhão ao valor de mercado da companhia. Quem herda uma empresa nesse momento herda também a obrigação de justificar esse preço.

O que os números por produto mostram sobre o mix

A receita total esconde uma divisão interessante entre o que acelerou e o que decepcionou.

O iPhone faturou US$ 57,6 bilhões, alta de 17% e acima da estimativa de US$ 56,5 bilhões, mesmo com apenas o iPhone 18 Pro lançado em setembro. O Mac surpreendeu ainda mais: US$ 10,8 bilhões, crescimento de 24%, bem acima dos US$ 9,7 bilhões esperados. Serviços, que inclui App Store, iCloud e streaming, somou US$ 31,6 bilhões, alta de 9,8%, em linha com o previsto.

Do outro lado, o iPad ficou em US$ 6,23 bilhões, abaixo dos US$ 6,9 bilhões estimados. Wearables, casa e acessórios recuaram 7,9%, para US$ 8,3 bilhões. E a China, apesar de crescer 21% e chegar a US$ 17,5 bilhões, ficou mais de US$ 1 bilhão abaixo das projeções.

Há uma lição de gestão nesse desenho. Receita total crescendo não significa que a empresa está saudável em todas as frentes. Linhas de produto com atualizações tímidas (a Bloomberg descreve as novidades em AirPods e relógios como relativamente pequenas) perdem tração, e o crescimento fica concentrado em poucos motores. Quanto mais concentrado, mais frágil.

Crescer receita e crescer lucro são objetivos diferentes

A Apple projetou crescimento de receita entre 7% e 10% para o trimestre de dezembro, acima dos 6,1% que o mercado esperava. Em qualquer outra empresa, seria motivo de comemoração.

Ainda assim, as ações caíram. O mercado está dizendo, com dinheiro, algo que muitos executivos esquecem na hora de montar metas: vender mais com margem menor pode significar lucrar o mesmo ou menos, com mais esforço operacional, mais capital de giro e mais risco.

A própria desaceleração já aparece. O crescimento de 12% do trimestre veio depois de 16% no período anterior. E a Apple avisou que restrições de oferta vão dificultar o aproveitamento da nova leva de produtos. Demanda sem capacidade de entrega também corrói resultado.

Para um CEO, o dilema se traduz em escolhas concretas. Vale repassar o custo da memória ao consumidor e arriscar volume? Vale cortar investimento em IA para proteger a margem e arriscar relevância daqui a três anos? Vale priorizar os produtos de maior margem no calendário de lançamentos, mesmo que os de maior volume fiquem para depois?

Nenhuma dessas perguntas tem resposta de manual. Todas exigem que o líder saiba ler o próprio negócio por mais de uma métrica ao mesmo tempo.

O custo da IA entrou na linha de margem

O caso da Apple deixa visível uma tendência que vai atingir empresas de todos os tamanhos: a inteligência artificial deixou de ser só linha de investimento e passou a aparecer no custo do produto.

A Apple cita explicitamente as despesas com a nova Siri como um dos fatores que pressionam a margem. E o encarecimento da memória tem relação direta com a demanda gerada pela própria corrida da IA.

Na prática, toda empresa que embute IA no que vende passa a carregar um custo variável que antes não existia, seja de infraestrutura, de licenças ou de computação. Quem não tiver clareza sobre quanto cada funcionalidade de IA custa por cliente, e quanto ela gera de receita ou retenção, vai descobrir o efeito no balanço, como a Apple descobriu, e não no planejamento.

O que esse trimestre ensina para quem lidera

A Apple está longe de uma crise. Bateu receita, bateu lucro por ação e projeta crescimento acima do mercado. O que mudou foi o tipo de pergunta que o mercado está fazendo, e isso vale para qualquer executivo.

A primeira lição é sobre métricas. Uma liderança que olha só para receita está olhando para metade da história. A margem diz se o crescimento é saudável ou comprado.

A segunda é sobre tempo. Um novo líder precisa separar, com transparência, o que herdou do que construiu. E precisa comunicar ao conselho e aos investidores quando suas próprias apostas devem começar a aparecer nos números.

A terceira é sobre escolhas. Proteger margem e investir no futuro raramente cabem no mesmo trimestre. A liderança que se recusa a escolher acaba tendo a escolha feita pelo mercado.

Sua empresa sabe quanto custa cada ponto de crescimento?

Se a Apple, com toda a sua escala e poder de barganha, sente a margem apertar quando custos de insumo e de IA sobem ao mesmo tempo, empresas menores vão sentir mais cedo e mais forte. A pergunta para qualquer C-level não é se a margem vai ser pressionada, e sim se a liderança vai estar preparada para decidir o que proteger quando ela for.

Ler o negócio por várias métricas, fazer escolhas difíceis de alocação e sustentar essas escolhas diante do conselho é exatamente o tipo de repertório que o Executive Program da StartSe desenvolve em executivos que precisam entregar crescimento e lucratividade ao mesmo tempo.

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