2.466 empresas entraram em recuperação judicial em 2025: o que esse número diz sobre o crédito no Brasil
Brasil bate recorde de recuperações judiciais em 2025 e o pior pode ainda estar por vir em 2026
, redator(a) da StartSe
9 min
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10 abr 2026
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Atualizado: 10 abr 2026
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O Brasil encerrou 2025 com o maior número de empresas em recuperação judicial da história: 2.466 CNPJs envolvidos em processos de reestruturação, alta de 13% sobre 2024 e o maior volume já registrado na série histórica da Serasa Experian. A combinação de juros elevados, crédito seletivo e dívidas acumuladas desde a pandemia criou uma tempestade perfeita para o caixa das empresas brasileiras — e os dados de inadimplência sugerem que 2026 pode ser ainda mais crítico.
Porque esse número não é apenas um retrato do passado. São 8,7 milhões de CNPJs negativados em janeiro de 2026, com dívida média de R$ 23.138,40 e cerca de sete restrições por empresa inadimplente. E, historicamente, inadimplência é o prelúdio das recuperações judiciais. O termômetro já está subindo.
Muitos leem "recorde de recuperações judiciais" e pensam em 2016, quando o Brasil estava em recessão aguda. Mas o cenário atual é diferente — e, de certo modo, mais traiçoeiro.
Em 2016, quando o total de processos de recuperação judicial atingiu 1.011 — o pico da série —, o ambiente era de recessão econômica, com juros e inflação elevados e impacto generalizado sobre os setores. Em 2025, foram 977 processos, mas o total de empresas envolvidas foi maior: 2.466, contra 1.738 em 2016.
A tradução prática: mais empresas estão em apuros agora do que na pior crise da última década, mesmo sem uma recessão declarada. O problema não é macroeconômico generalizado — é o custo do dinheiro.
"Muitas empresas entraram em 2025 ainda fragilizadas após um ambiente de juros bastante restritivo desde 2022, o que resultou em um estoque de dívidas elevado e caro", afirmou Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian.
O setor agropecuário liderou os pedidos, com 743 empresas (30,1% do total). Em seguida vieram serviços, com 739 (30%); comércio, com 535 (21,7%); e indústria, com 449 (18,2%).
O destaque do agro é o dado mais revelador. No acumulado de 2012 a 2025, a agropecuária saltou de 1,3% para 30,1% do total de recuperações judiciais. Em 13 anos, o setor passou de coadjuvante a protagonista da crise de endividamento corporativo no Brasil.
A explicação vai além do clima. A agropecuária opera com insumos dolarizados como fertilizantes e defensivos, exposição cambial e um ciclo financeiro mais longo de safra-entressafra, o que amplifica a volatilidade de receita e caixa. Com a Selic em patamar restritivo, refinanciar dívidas nesse contexto virou missão impossível para boa parte dos produtores.
📎 Para saber mais: Serasa Experian — Indicador de Falências e Recuperações Judiciais
Os pedidos de falência recuaram 19% em 2025: foram 698, contra 862 em 2024. À primeira vista, parece alívio. Mas o dado precisa de lente.
A queda nas falências não significa que as empresas estão mais saudáveis. Significa que estão usando — cada vez mais — a recuperação judicial como instrumento de sobrevivência. O volume de empresas que faliram após a recuperação judicial atingiu nível recorde no segundo trimestre de 2025: 30%. O índice ficava em torno dos 20% e, em alguns períodos, próximo dos 10%.
Em outras palavras: a recuperação judicial está sendo mais acionada, mas está funcionando menos.
A Selic iniciou um ciclo de corte, saindo de 15% para 14,75%. Pelo Boletim Focus do Banco Central, os juros ao final deste ciclo de corte estarão em 12,5% — mas a Serasa projeta 13%.
Mesmo com a queda, o alívio não será imediato. A trajetória das recuperações judiciais em 2026 deve depender da evolução do ritmo de queda da taxa de juros e seu impacto no custo do crédito, das condições de concessão — especialmente para pequenas e médias empresas —, além da capacidade das empresas de recompor margens e reduzir o endividamento. Mesmo em um cenário de melhora gradual, o efeito positivo tende a aparecer com defasagem.
📎 Para saber mais: CNN Brasil — Reportagem completa
🔴 Sinal de risco — Se você é fornecedor ou credor: A inadimplência de 8,7 milhões de CNPJs em janeiro de 2026 significa que sua carteira de clientes provavelmente tem exposição relevante a empresas com restrições. Revisar limites de crédito e políticas de cobrança agora é mais barato do que lidar com calotes no segundo semestre.
🟡 Sinal de atenção — Se você atua no agro ou tem fornecedores do setor: O movimento de recuperação judicial no agronegócio não é passageiro. É estrutural. A combinação de dólar alto, insumos caros e ciclos longos de caixa vai continuar pressionando o setor mesmo com eventual queda da Selic. Rever contratos e garantias com parceiros do agro é uma decisão estratégica, não paranoia.
🟢 Sinal de oportunidade — Para quem tem caixa: Empresas em recuperação judicial vendem ativos, renegociam contratos e, muitas vezes, estão abertas a parcerias que antes não considerariam. Momentos de estresse financeiro setorial historicamente geram as melhores janelas de aquisição de ativos e talentos para quem está capitalizado.
🔵 Para empreendedores de menor porte: 6,8 milhões das empresas inadimplentes são micro e pequenas, responsáveis por 47,2 milhões de débitos em aberto que somam mais de R$ 141,6 bilhões. Se o seu negócio está entre os apertados, a recuperação judicial hoje é um instrumento mais maduro e acessível do que era há 10 anos — mas usá-la de forma planejada, e não como último recurso, faz toda a diferença no resultado.
Fontes: Serasa Experian — Indicador de Falências e Recuperações Judiciais | CNN Brasil | Seu Dinheiro | Poder360 | FecomercioSP
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